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DIA NACIONAL DO SAMBA

Por Fabio Gomes

 

Simplesmente fantástica foi a última apresentação da série Na Roda do Choro deste ano, homenageando o Dia Nacional do Samba. O dia 2 de dezembro de 2003 já entrou para a História como a maior lotação que a Roda já registrou, com todas as poltronas ocupadas, gente sentada no chão, gente em pé, gente no corredor (a porta foi aberta em dado momento para permitir que mais pessoas pudessem apreciar), gente escorada no piano, gente, gente, gente. Foi a prova mais provada que, quando se faz um trabalho de qualidade e bem divulgado, o público corresponde.

A celebração iniciou com o Grupo Reminiscências (Luís Machado - violão de 6, Sérgio - bandolim, Luís Barcelos - cavaquinho e Solano - pandeiro), que se destacou na interpretação de "Prantos" (Izaías Bueno de Almeida), com um bom solo compassado de bandolim, e o brilho de Barcelos nos acordes quadrados do solo de "Gingando no Choro" (Jorge Cardoso). Aos poucos, o grupo foi se modificando, com o ingresso de Rafael Mallmith (violão de 7), que fez uma excelente baixaria em "É do que Há" (Luís Americano), choro com modulações ascendentes maravilhosas. Na seqüência, Sérgio se retirou, com Barcelos assumindo o bandolim e Rafael Ferrari reforçando o time ao cavaquinho. Ouviu-se então "Sonho de um Bandolim" (Juventino Maciel), que iniciou com excelentes oitavas de Mallmith, com Barcelos fazendo belos trêmolos no bandolim. Barcelos e Ferrari fizeram um bom diálogo bandolim-cavaquinho no maxixe "Rasga" (Pixinguinha) - o vasto repertório de Luís Machado sempre reserva surpresas agradáveis como esta. Nova substituição, com Ânderson Balbueno assumindo o pandeiro com a saída de Solano, para a execução de "Chutando o Balde", choro que Luís Barcelos compôs há poucos dias, "numa linha tradicional", segundo o próprio autor. O destaque neste choro fica para o solo do cavaquinho.

As valsas "Confidências" (Ernesto Nazareth) e "Valsa-Concerto" (Luperce Miranda) foram interpretadas apenas por Machado ao violão e Ferrari ao bandolim. Machado chegou a cumprimentar o parceiro pela execução da valsa de Nazareth, defendendo depois a importância do estudo para o músico:

- Saber ler é fundamental. Essa segunda parte da apresentação o pessoal nunca havia tocado junto, mas pôde fazer isso por ler partituras.

Em seguida, Machado chamou Luís Barcelos para que o público aplaudisse o mais jovem compositor de choro (16 anos!). Moysés Lopes aproveitou para agradecer a Machado a idéia de promover as Rodas de Choro, desde 2002.

A programação original previa que, após o Reminiscências, tocaria o Samba de Fato, mas no choro também vale o que não está escrito. Moysés, vendo "tanta gente bonita reunida" (em suas palavras), pediu licença para a Camerata Brasileira tocar duas músicas: "Santa Morena" (Jacob do Bandolim), com "Olé!" e tudo (a sugestão de levada flamenca do original foi tão desenvolvida que uma senhora da platéia julgou tratar-se de um chamamé) e a excelente "Czardas" (Vittorio Monti), que inicia com belo diálogo do violão de 6 com o bandolim, seguido de trêmolo do cavaquinho; batidas fortes do pandeiro chamam a conversa do bandolim com o cavaquinho; os violões voltam, num momento de calma do arranjo, até que o cavaquinho reintroduz o tema e todos seguem cadenciando até o final, conduzidos pelo bandolim. Uau!

O percussionista Ânderson, como forma de apresentação do Samba de Fato ao público presente (que ouvia num silêncio absoluto, quase sem respirar), disse que o grupo é formado por jovens que, em virtude de não ter acesso ao samba pelas rádios, dedica-se a pesquisá-lo, pois sua idéia é preservar o samba de raiz.

O grupo iniciou sua participação cantando uma música intitulada justamente "Samba de Fato" (Moacyr Luz - Paulo César Pinheiro). O grande momento dessa parte do espetáculo foi quando a vocalista Taíse Machado, sem microfone, sentou-se junto aos músicos para que todos cantassem "Novo Viver" (Magno - Maurílio), do Quinteto em Branco e Preto. A voz de Ânderson chegou a se destacar em alguns momentos.

Depois disso o samba esquentou, chegando a quebrar uma corda do bandolim de Ferrari, que precisou socorrer-se do instrumento de Sérgio para continuar.

O final foi sublime, com um pot-pourri de sambas-enredo homenageando três das maiores escolas de samba do Rio de Janeiro: "Sempre Mangueira" (Nelson Cavaquinho - Geraldo Queiroz)/"Verde que te Quero Rosa"(Cartola - Dalmo Castelo)/"Vila Isabel"(Neli Miranda - Dunga)(emocionante!)/"Portela na Avenida"(Mauro Duarte - Paulo César Pinheiro). Quando se imaginava que nada poderia ser melhor, eis que Ânderson chama outros sambistas jovens, como Fábio Canalli, Dino, Fernandinho, e mais todos os integrantes dos grupos que haviam tocado, para, a 20 vozes (não contando as do público, né!) com acompanhamento de Ferrari ao bandolim, entoar "Aquarela Brasileira" (Silas de Oliveira). Coerente, afinal, quem duvida que essa apresentação fosse uma maravilha de cenário?

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