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ANIVERSÁRIO DE PIXINGUINHA COM DOIS DE OURO

Por Fabio Gomes

 

O primeiro presente que os porto-alegrenses receberam pela passagem dos 106 anos de Pixinguinha foi a apresentação do grupo Dois de Ouro, formado pelos irmãos Hamilton de Holanda (bandolim) e Fernando César (violão de 7), que quase lotou o Teatro Dante Barone (Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul) na noite de 21 de abril de 2004. A iniciativa partiu do músico Moysés Lopes, líder da Camerata Brasileira, que contou com o apoio decisivo do produtor Alê Barreto.

Já na primeira música, "Cochichando" (Pixinguinha), a dupla de irmãos mostrou ao que veio: Hamilton iniciou a música fazendo variações sobre a melodia da segunda parte, entrando então no tema. Fernando fez o violão soar como um baixo, enquanto Hamilton emendava compassos, sincopava e improvisava, segurando com uma seqüência de staccatos um solo melódico de Fernando. Após uma modulação ascendente, Hamilton tocou o bandolim como se fosse cavaquinho, estraçalhando geral até voltar, mais pausado, à segunda parte.

A junção (ou, como disse o próprio Hamilton, "pot-pourri, medley, sei lá") de "Rosa" (Pixinguinha) com "Uma Rosa para Pixinguinha" (Radamés Gnattali), para mim, simboliza o que foi o espetáculo. Hamilton iniciou com o tema da valsa de Radamés no bandolim, enquanto Fernando pontuava harmonicamente no violão (mantendo-se assim até o final). Em seguida, Hamilton entrou em "Rosa", seguindo o arranjo original até o compasso que corresponde ao trecho da letra que diz "Do arfante peito teu". A partir daí, Hamilton acelerou, com muitos trêmolos, até "Em sândalos olentes", quanto então cadenciou o ritmo até "Da santa natureza". Retomou enfim a valsa de Radamés, acelerado, até finalizar, ralentando, com o compasso de citação de "Rosa" contido em "Uma Rosa para Pixinguinha". Uau!

Outro medley ou pot-pourri ou sei lá notável foi "Xote das Meninas" (Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira)/ "Qui nem Jiló" (Luiz Gonzaga - Zé Dantas). Hamilton chegou a dar batidas no tampo do bandolim ao pausar algumas vezes o andamento fortíssimo que a dupla imprimiu aos clássicos do Rei do Baião.

A dupla também presenteou o público com outros clássicos, como "Tico-Tico no Fubá" (Zequinha de Abreu), com alguns improvisos de Hamilton, e "Santa Morena" (Jacob do Bandolim). A valsa do mestre começou com o violão arpejado, seguido pelo bandolim em trêmolos; o tema foi atacado pelo bandolim, já aceleradíssimo, caindo no flamenco. O violão acalma um pouco os ânimos, o bandolim improvisa mais lentamente, passando-se a uma alternância lento-rápido, até que, súbito, a dupla instala a Espanha no palco do Dante Barone. Hamilton chega a tocar o bandolim como banjo, encaminhando para um final em altíssima velocidade, modulando para cima.

Como os leitores estão podendo notar, Hamilton costuma dobrar o andamento das músicas, por vezes chegando a lembrar o timbre de bandolim elétrico de Pepeu Gomes no excelente disco ao vivo Instrumental on the Road (1989). Mas não pensem que ele só saiba tocar assim. De forma alguma! Na valsa "Ternura" (K-Ximbinho), Hamilton executou um belo solo em trêmolos, com marcação constante de Fernando. O solo de bandolim, num tom superagudo, lembrou as passagens chamadas de "cadência" em música de concerto, e mostrou a grande precisão e agilidade do executante. Houve, é certo, uma leve aceleradinha quando Hamilton mudou alterou o andamento de 3/4 para 4/4, mas foi bem rapidinho... Também em "Ernesto Nazareth (2º movimento da Suíte Retratos)" (Radamés Gnattali), Hamilton seguiu mais a idéia do compositor. Naturalmente, tocou parte da música num andamento um pouco mais (às vezes bem mais) rápido que Jacob do Bandolim na gravação de 1964 (LP Retratos). O violão de Fernando soou várias vezes como baixo.

Em apenas uma música Hamilton tocou sem Fernando. Foi num superarranjo para "Disparada" (Geraldo Vandré - Théo de Barros). Ele iniciou com arpejos, sem entrar diretamente no tema. Em vários momentos, ameaçou atacá-lo, dando várias voltas, extraindo um grande volume de som do bandolim, até entrar explicitamente na melodia da primeira parte. Após improvisar numa seqüência acelerada de staccatos, retorna ao tema, inclusive ficando em pé e gingando o corpo. Parte da platéia também se colocou de pé, para merecidamente aplaudir um dos melhores momentos da noite.

E Pixinguinha? O aniversariante foi lembrado ainda com "Caro Pixinga" (Laércio de Freitas). De sua autoria, Pixinguinha também esteve presente no repertório com "Ainda me Recordo" e no bis, com "Um a Zero" - após citar "Parabéns a Você" no bandolim, a dupla tocou numa velocidade de estontear a zaga adversária. Na segunda parte, houve um momento toque-de-bola, em que Hamilton repetiu compassos, permitindo a marcação (musical! musical!) de Fernando, que chegou a ter um raro solo de destaque. O final foi superacelerado - digamos que os dois entraram no gol com bola e tudo!

Festa de aniversário boa é assim, o aniversariante comemora e os convidados é que são presenteados. E várias vezes!

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