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PURIFICADOS POR DONA EDITH DO PRATO

Por Fabio Gomes

 

Quem foi ao Itaú Cultural (São Paulo) na noite de 16 de abril de 2004, para assistir dona Edith do Prato, 88 anos, lançando seu primeiro CD, Vozes da Purificação, não podia deixar de se sentir na Bahia, mais precisamente em Santo Amaro da Purificação.

Para quem não está ligando o nome à pessoa, dona Edith do Prato não é outra senão Edith Oliveira, que abriu o LP Araçá Azul (1973), de Caetano Veloso, cantando "Viola, Meu Bem" (adaptação de Caetano para tema de domínio público), e dividiu com ele os vocais em "Sugar Cane Fields Forever". Dona Edith também era citada ("Edith Oliveira, meu bem/ Ai, ai, ai/ Torno a repetir, meu amor/ Ai, ai, ai...") na parte improvisada do samba-de-roda "Torno a Repetir" (1968)(outra adaptação de Caetano para tema popular). Eram formas de homenagem do já famoso cantor à amiga de sua mãe, dona Canô, que sempre reuniu em casa amigos e parentes para cantarem samba-de-roda horas a fio, com o indispensável acompanhamento das iguarias da culinária do Recôncavo baiano. Com certeza, foi um ambiente de intenso aprendizado para o autor de "Odara" - o aprendizado mais gostoso, em que é difícil dizer quem ensina e quem aprende, e ninguém chega a perceber o processo acontecendo.

"Viola, Meu Bem" e "Torno a Repetir" - esta, com muitos outros versos que Caetano não gravou - foram dois dos muitos pontos altos da grande noite baiana, o primeiro show que dona Edith fez na vida, ela, que praticamente não sai de Santo Amaro. A platéia acompanhou o tempo todo com palmas, numa cadência de marcação de capoeira, e cantou junto as músicas mais conhecidas - além das citadas, o megasucesso "Marinheiro Só" (Ô marinheiro, marinheiro/ Marinheiro só/ Quem te ensinou a nadar?/ Ou foi o tombo do navio/ Marinheiro só/ Ou foi o balanço do mar?") (mais um tema popular que Caetano fez a arte-final e nos deu de presente), "Adeus, Meu Santo Amaro" (Caetano) e o "Hino à Nossa Senhora da Purificação", que encerrou o espetáculo, ou melhor, a celebração, com todos os participantes de mãos dadas, cantando à capela e em pé (inclusive dona Edith, que caminha com dificuldade, sempre com auxílio). O "Hino..." chegou a ser gravado por Caetano com a mana Maria Bethânia numa edição não-comercial. Aliás, era tal a relação de tudo o que se passou naquele auditório com Caetano que é quase difícil de acreditar que ele não estivesse presente (não estava).

O que se via no palco era aparentemente muito simples - um violonista, um percussionista com dois atabaques e um pandeiro, um coro de oito vozes - o Vozes da Purificação, formado por senhoras de Santo Amaro - (todos vestindo branco e descalços) e, sentada no centro do palco, numa cadeira de vime, dona Edith, tocando seu prato fundo de louça com uma faca sem ponta. Dito assim, parece pouco. É que às vezes as palavras são insuficientes para transmitir o que foi a energia que reinava no ambiente, por exemplo, quando cada uma das integrantes do coro mostrou seu samba no pé. Ou quando o público, atendendo à convocação do cantor J. Veloso, levantou-se das cadeiras e sambou. Ou ainda na hora em que João Francisco, um menino de seus 5 anos, mostrou com um mini-pandeiro que a fonte do samba de Santo Amaro nunca vai secar.

Enfim, saímos do espetáculo purificados. Só nos resta agradecer a Maria Bethânia, que teve a iniciativa, através do selo Quitanda da gravadora Biscoito Fino, de registrar em disco toda essa riqueza cultural:

- Obrigado, Bethânia!

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