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ELTON MEDEIROS: EMOÇÃO E MALANDRAGEM

Por Fabio Gomes

 

O grande momento do show de Elton Medeiros no Santander Cultural (Porto Alegre, 18 de fevereiro de 2004) foi quando ele cantou uma seqüência de quatro sambas de compositores que freqüentavam o restaurante Zicartola nos anos 60: "Nega Dina", de Zé Kéti "Acontece", de Cartola, "Rugas", de Nelson Cavaquinho (mais os parceiros "comprositores" Ary Monteiro e Augusto Garcez) e "Antonico", de Ismael Silva. Elton cantou bem malandro a letra humorística de "Nega Dina", para em seguida entoar de forma compenetrada o samba lamentoso de Cartola, impressionando a platéia com seu domínio da alternância das emoções. Naturalmente a banda que o acompanhou teve papel marcante nessa hora: "Acontece" foi cantado a primeira vez apenas com o bandolim de Afonso Machado (do Galo Preto), entrando na repetição, mansinho, o violão de Bartolomeu Vizi (também do Galo Preto). A flauta de Pedrinho Figueiredo conduziu os trabalhos a partir de "Rugas", na qual, na única vez durante o espetáculo, o baixo de Dininho simulou a marcação do surdo; ao final, em "Antonico", tocado bem lento, o baixo soou mais melódico, seguindo a flauta e tendo na companhia, bem cadenciados, o violão de Bartolomeu e o tamborim de Oscar Bolão (o bandolim não entrou em "Antonico"). Foi um dos momentos mais aplaudidos da noite.

Zé Kéti e Cartola, os dois primeiros sambistas lembrados nessa seqüência por Elton, foram também seus parceiros. De sua produção com o mestre mangueirense ("que me ensinou muita coisa"), Elton cantou "Peito Vazio", outro ponto alto da noite. As notas eram espichadas por sua voz forte, emoldurada pelos trêmolos do bandolim e a cadência da bateria de Bolão; após os solos do bandolim e da flauta, Elton continuou o samba fazendo uma paradinha antes do final e silabando à capela, para o arremate do grupo. Ah, naturalmente Elton cantou, de sua parceria com Cartola, "O Sol Nascerá". O público acompanhou com alegria, enquanto Afonso tocava o bandolim como cavaquinho, fazendo o sambão junto com o violão, contando com o brilho do embalo da bateria. Outros dois grandes momentos.

Da parceria com o portelense Zé Kéti, vieram o grande samba "Mascarada" (com belos floreios da flauta, um solo de pandeiro por Bolão e um final com arpejos do bandolim) e um samba de breque, "Psiquiatra", um surpreendente conjunto de melodia bela e letra humorística, com boa cadência da bateria e, ainda, com direito a Elton iniciar a segunda parte fraseando. Zé Kéti ainda foi lembrando com seu partido alto "Maioria Sem Nenhum", conduzido pelo pandeiro empunhado por Bolão e a flauta se destacando em fraseados aqui e ali.

A parceria de Elton com Paulinho da Viola foi lembrada em 4 sambas: "Recomeçar" (o cantor alternou força no refrão e suavidade nas segundas-partes), "Ame" (um momento em que a banda demonstrou estar muito coesa), "Pra Fugir da Saudade" (baixo e pandeiro se destacaram na melodia bem construída) e "Onde a Dor não Tem Razão" (outra hora de coesão da banda, aqui contando com o coral da platéia, num número aplaudidíssimo). Paulinho ainda apareceu numa citação de "Argumento" ao final do "partido alto light" "Quando a Maré Secar", puxado por pandeiro e bandolim (nessa hora, Elton chegou a errar a letra, mas se deu conta e foi em frente). A coesão da banda é de se destacar, pois essa formação ensaiou apenas uma vez, na véspera, no próprio Santander (os outros músicos moram no Rio e costumam acompanhar Elton, mas o flautista Pedrinho é radicado em Porto Alegre há quase 20 anos).

A música vencedora da 1ª (e única, infelizmente!) Bienal do Samba (1968), "Pressentimento" (Elton - Hermínio Bello de Carvalho), não podia faltar, sendo executada com um excelente balanço de violão, baixo e bateria. Aqui a voz de Elton falhou um pouco, fato que se repetiu outras vezes durante o show, sem chegar entretanto a comprometer. Além de revelar, em cada samba apresentado, como vem, sem alarde, dando uma contribuição inestimável à música brasileira, Elton Medeiros também alegrou a platéia com alguns "causos". Como o que contou quando reconheceu o escritor Luis Fernando Veríssimo na platéia. O sambista disse que, ali presente, o autor de O Analista de Bagé saldava uma antiga dívida. No início dos anos 70, ele prometera ir ao show de Elton com Paulinho da Viola no Teatro Leopoldina. Só que, durante aquela apresentação, quando Elton anunciou ao microfone a presença de LFV, as luzes foram acesas e constatou-se que... ele não estava na platéia!

Também a breve experiência de Elton como ritmista numa excursão à África foi lembrada como exemplo de audácia, a seu ver equivalente a estar cantando em Porto Alegre dois sambas de Lupicínio Rodrigues: "Nervos de Aço", um samba-canção tocado com levada de marcha-rancho, com excelente introdução e final da flauta, bom solo de bandolim e Bolão fugindo do óbvio, não usando o prato de choque para a marcação, para não abafar o som da escova; e "Se Acaso Você Chegasse", um dos momentos mais aplaudidos do show.

Para o final, Elton reservou uma surpresa: um antigo sucesso de Marlene do carnaval de 1950, "Se é Pecado Sambar" (Manuel Santana), um legítimo sambão, com levada de samba de breque, em que o bandolim soou como cavaco e a flauta e a bateria brilharam.

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