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ELZA SOARES: GARGALHADAS E LÁGRIMAS

Por Marcello Campos (texto e fotos)

 

Engana-se quem pensa que Elza Gomes Soares é apenas uma sambista ou um capítulo a ser resgatado na história da música popular brasileira. Aos 65 anos de idade, 44 de carreira, ela é uma artista atual e inquieta que figura entre as maiores cantoras contemporâneas em atividade no País. Essa foi a certeza deixada às mais de mil pessoas que lotaram o Salão de Atos da UFRGS na noite de 18 de março de 2003 para conferir, com entrada franca, a participação da diva no projeto Depoimentos - Coisas Essenciais da Vida, iniciativa promovida pelo Departamento de Difusão Cultural da Pró-Reitoria de Extensão da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

Acompanhada pelo músico, produtor e professor José Miguel Wisnik ao piano e pelo violonista José Paulo Becker, a carioca presenteou o público com uma saborosa combinação de músicas e depoimentos. Apenas 90 minutos foram suficientes para mostrar não apenas uma Elza “blues”, sofrida e calejada, mas também uma guerreira alegre, bem-humorada, especialista em dar a volta por cima e transformar sentimentos, dores e paixões em música de alta qualidade, capaz de levar o ouvinte das gargalhadas às lágrimas com a mesma facilidade que vai dos graves aos agudos com sua voz rascante e inconfundível. “Para Elza, cantar é um parto em cada sílaba”, definiu Wisnik.

Não é para menos: o currículo que ela traz consigo faria muito roqueiro parecer uma freira. Filha de lavadeira, teve uma infância miserável, passou fome, casou-se e foi mãe aos 13 anos, sofreu violência doméstica, teve oito filhos (sem contar os adotados) - perdeu quatro deles e conheceu o céu e o inferno em um casamento com o jogador Garrincha, com quem se exilou em Roma no início da década de 70. Lançou quase 30 discos de carreira, foi chamada de “minha filha” por Louis Armstrong e, no ano 2000, foi eleita “cantora do milênio” pela BBC de Londres. Não é à toa que o diretor Milton Alencar está gravando um filme biográfico sobre Elza, tendo a atriz Thaís Araújo no papel principal e a cineasta Kátia Lund (co-diretora de Cidade de Deus) quer produzir um documentário sobre a vida da diva.

Repertório

Convidado a fazer perguntas, o público calou-se e preferiu ouvi-la cantar. Afinal, nenhum depoimento é mais pungente que as próprias músicas interpretadas por Elza Soares. As canções foram levando o público ao êxtase, música após música, mesclando tradição e vanguarda. O choro “Bambino” (letra de Wisnik para música de Ernesto Nazareth), o tango “Fadas” (Luiz Melodia) e o samba-canção “Dor-de-Cotovelo” (Caetano Veloso), faixas de seu mais recente CD, o aclamado Do Cóccix Até o Pescoço, deram início ao pocket show, mostrando a intérprete mergulhada em temas que ela conhece como poucos.

Após uma breve citação de “Bebida e Comida” (Wisnik - José Celso Martinez Corrêa), “Flores Horizontais” (texto de Oswald de Andrade musicado por Wisnik) traz para o primeiro plano os infinitos dotes vocais da dona da festa. A homenagem à cidade vem com os famosos scat-singings de Elza, colocados a serviço de “Se Acaso Você Chegasse”, composição do porto-alegrense Lupicínio Rodrigues que a alçou ao estrelato na década de 50. “Aqui começou praticamente tudo”, diz a cantora, em alusão às origens da música. O tributo ao passado é pago em “Lama” (Aylce Chaves - Paulo Henrique), música que em 1948 lançou artisticamente a menina Elza no programa Calouros em Desfile, então apresentado por Ary Barroso na rádio Tupi do Rio de Janeiro.

Entre as músicas, segue-se uma conversa informal com o público, que chora e ri com os relatos de vida da artista. Aos primeiros acordes da música seguinte, a dimensão humana e intimista cede lugar ao mito e ao mesmo tempo o legitima. O ponto-alto da noite é “Pranto Livre” (Everaldo da Viola - Dida). Nos refrões, a voz dá-se ao luxo de dispensar o microfone para cantar à capela, e a forte carga emocional - em forma e conteúdo - funciona como um soco na boca do estômago. Todos os espaços do Salão de Atos da UFRGS são então preenchidos com um som capaz de arrancar da platéia as mais variadas reações. Quando a apresentação chega ao fim, a iluminação do palco permite notar, na platéia em pé, intermináveis aplausos, queixos caídos, olhares incrédulos e a primeira fila debruçada sobre o palco. Em uma hora e meia, oito canções foram suficientes para instalar a catarse coletiva chamada Elza Soares.

Elza prometeu retornar a Porto Alegre no dia 25 de maio para apresentar-se no Parque da Redenção, na festa de comemoração dos 65 anos do Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinpro).

Projeto pode trazer outros nomes da MPB

No ano passado, artistas de diferentes áreas participaram da série Depoimentos, dando testemunhos de vida em encontros mensais nos diferentes espaços da universidade. Em 2003, o projeto foi direcionado exclusivamente para atrações femininas - Elza Soares foi a primeira, e sua vinda foi possível graças ao apoio do Santander, Hotéis Continental e restaurante Vitrine Gaúcha. Até o final do segundo semestre, a UFRGS pretende trazer outras atrações de primeira grandeza.

Embora não esteja confirmado nenhum nome na área musical, a iniciativa cultural poderá trazer atrações bastante interessantes. A diretora do Departamento, Cláudia Boeltcher, adianta que as pretensões incluem a sambista carioca Dona Ivone Lara, acompanhada do pianista Leandro Braga, e da cantadora de romances Dona Militana, do Rio Grande do Norte, acompanhada do músico pernambucano Antônio Nóbrega. “Por enquanto, são apenas cogitações”, diz a programadora cultural Lígia Petrucci.

Discografia

Em mais de quatro décadas, Elza Soares lançou 28 discos - número que não inclui compactos, coletâneas e participações em gravações de outros músicos. A estréia fonográfica ocorreu em 1959, com Se Acaso Você Chegasse, disco cujo carro-chefe é a famosa composição do gaúcho Lupicínio Rodrigues.A discografia, combinando pedras brutas e lapidadas (quase todas preciosas) da música popular brasileira, permanece como um tesouro ainda por ser redescoberto. São LPs cada vez mais raros, fora de catálogo e muito valorizados no exterior, dos quais apenas cinco lançados em CD.

No ano passado, dois deles foram resgatados para o formato digital, graças ao projeto Odeon 100 Anos, supervisionado pelo baterista e produtor Charles Gavin (Titãs). Os essenciais Elza Soares - Baterista: Wilson das Neves (1968) e Elza Pede Passagem (1972) ressurgiram em edições com capa e encarte originais, faixas remasterizadas e tiragem limitada (2 mil unidades, em média). Ainda é possível encontrá-los em lojas especializadas e na internet, a preços acessíveis, entre R$ 9,90 e R$ 20. Sem dúvida, vale a pena pesquisar.

O mais recente, Do Cóccix Até O Pescoço (Maianga/Net Records, 2002), inicialmente impulsionado pela comercialização inicial em bancas de revistas, vendeu até agora mais de 40 mil unidades. Produzido por Alê Siqueira, com direção artística de José Miguel Wisnik e projeto gráfico de Gringo Cardia, foi aclamado por críticos de São Paulo e Rio como um dos melhores lançamentos fonográficos de 2002. No pocket show do Salão de Atos da UFRGS, Elza definiu o disco como “um sonho alto que se realizou” para ela e Wisnik. “Na fase de produção, o CD tinha o título provisório de Foda-se”, revela a cantora. “Se dependesse de mim, esse seria o nome definitivo, repleto de duplos sentidos, mas acabamos descartando a idéia por questões de mercado.”

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