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SOB FOGO CRUZADO:
DISPUTAS SIMBÓLICAS NAS CAMPANHAS DE PREVENÇÃO
A INCÊNDIOS FLORESTAIS NA AMAZÔNIA

Por Luciana Miranda Costa

 

Em 1998 as chamas arderam em Roraima. Enquanto a floresta queimava, governo, repórteres de diversos países, pesquisadores, bombeiros, voluntários, curiosos, telespectadores, caciques, agricultores familiares, enfim, todos os que tiveram acesso às informações in loco ou repetidamente mostradas pela TV e pelos jornais, se perguntavam por que e como um incêndio daquelas proporções era possível. O que aconteceria com o verde da Amazônia e seus "povos da floresta"? As respostas vieram de todos os lados e palavras como "meio ambiente", "ecologia" e "proteção ambiental" ganharam os mais diversos e, algumas vezes, contraditórios sentidos.

Este artigo traz algumas reflexões e conclusões contidas em uma pesquisa de doutorado (l) que teve início em 2000 e que tem como tema o "fogo acidental" (2) na Amazônia e particularmente no Estado do Pará. O objeto de estudo são as campanhas de prevenção ao "fogo acidental" (no âmbito de sua produção e recepção) implementadas por órgãos governamentais e não governamentais, principalmente a partir de 1998. Quatro projetos e suas respectivas campanhas foram escolhidos para compor o corpus de análise: o Proteger (concebido e coordenado pelo Grupo de Trabalho Amazônico-GTA), o PGAI Queimadas (sob coordenação da Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia do Pará), o Projeto "O Bom Manejo do Fogo" (idealizado e executado pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia - IPAM) e o projeto "Fogo Emergência Crônica" (implementado pela ONG Amigos da Terra). Tratam-se de campanhas com muitos elementos convergentes, quer do ponto de vista teórico/metodológico, dos destinatários das informações, dos objetivos, dos materiais produzidos ou das áreas geográficas trabalhadas.

Embora se destinem a um público variado, que envolve diferentes categorias de agentes sociais, como agricultores familiares (3), fazendeiros, políticos, professores, agentes de saúde, jovens, jornalistas e empresários, os receptores preferenciais das campanhas são os agricultores familiares. A eles é destinada a maior parte das informações, do tempo das atividades e do material produzido para as campanhas (cartilhas, cartazes, peças radiofônicas).

A problemática que motivou a pesquisa foi o fato de estar havendo uma redução pouco expressiva do número de focos de calor (4) captados por imagens de satélite, provenientes da prática de queimadas por parte de agricultores familiares, apesar do implemento e intensificação das campanhas a partir de 1998. No caso do estado do Pará, por exemplo, assim como na maioria dos estados da Amazônia, foi registrado, inclusive, um aumento no número de focos em alguns anos.

A base de informações, além do levantamento bibliográfico, foi obtida entre os meses de abril e novembro de 2001 e julho de 2003, durante pesquisa de campo (5) em sete municípios paraenses (Belterra, Santarém, Altamira, Paragominas, Marabá, Conceição do Araguaia e Santana do Araguaia), nos quais foram visitadas 14 localidades e realizado um total de 326 entrevistas. As entrevistas não eram "fechadas", como no formato de um questionário, por isso foi possível incorporar informações ao roteiro prévio, a partir das próprias colocações dos entrevistados.

As campanhas de prevenção ao fogo acidental são produzidas predominantemente por agentes e instituições do campo ambiental (6), quer se trate de órgãos governamentais como a Secretaria de Meio Ambiente do Pará, quer se trate de ONGs ambientalistas, como o Ipam e Amigos da Terra. A exceção é o Proteger, coordenado por uma entidade (GTA) que congrega mais de 500 instituições, entre elas, as federações de trabalhadores na agricultura e os sindicatos de trabalhadores rurais. A linha condutora das campanhas é marcada por um discurso ambiental pretensamente universalista, que coloca a proteção à natureza como uma prioridade urgente e de responsabilidade individual e coletiva. Este discurso, entendido como prática discursiva (7), visa uma mudança do comportamento dos agricultores familiares a partir de uma "conscientização" destes e da "naturalização" do comportamento adquirido.

Outro ponto relevante a ser destacado é que as campanhas de prevenção ao fogo acidental seguiram e seguem (embora, mais recentemente, já com incorporações de demandas do campo da agricultura familiar) uma espécie de "roteiro" discursivo muito semelhante. Esse "roteiro" as torna passíveis de comparação e permitem o contraponto com o campo da agricultura familiar. Ou seja, não se tratam de "campanhas singulares" do ponto de vista discursivo, apesar das diferenças institucionais e especificidades metodológicas existentes entre elas.

A hipótese central da pesquisa, que este artigo também pretende demonstrar, é a de que há um "descompasso" entre as "visões de mundo" do campo ambiental e do campo da agricultura familiar, no que se refere à temática trabalhada pelas campanhas, resultando e reafirmando um desequilíbrio na relação de forças entre as duas esferas. Ao se defrontarem, por exemplo, duas concepções de "meio ambiente", que adquirem sentidos diferentes quando referidas por agentes do campo ambiental ou por agentes do campo da agricultura familiar, tem prevalecido como "correta" a proveniente do campo ambiental, na qual a proteção/conservação das florestas é uma prioridade. Em outras palavras, uma visão com enfoque muito mais "protecionista e conservacionista", no primeiro caso - que valoriza a floresta em pé -, e outra visão mais "utilitarista", no segundo, cujo enfoque prioritário não é a proteção das florestas em si, mas uma proteção ambiental entendida segundo a lógica reprodutiva específica dos agricultores familiares.

Isso não significa que se trata de uma ação explícita ou "consciente" por parte das instituições que estão à frente das campanhas e que visa contrapor-se deliberadamente aos interesses dos agentes do campo da agricultura familiar. O que ocorre, de um modo geral, é que os agentes responsáveis pela produção das informações, predominantemente do campo ambiental, o fazem "com a melhor das boas intenções", mas tendo por base um modelo de comunicação que restringe as possibilidades de interlocução com os destinatários das informações. Além disso, a proteção ao meio ambiente, entendida como uma prioridade, é a base do discurso ambiental, faz parte da "visão de mundo" do campo ambiental e de seus agentes, justificando suas práticas e pressupostos, e alimentando a própria dinâmica do campo.

O referencial teórico e metodológico que orienta a pesquisa está fundado em conceitos extraídos das obras de autores que compreendem as relações sociais como estruturadas e estruturantes do mundo social, ou seja, que localizam na disputa do poder simbólico (8) o eixo que organiza os interesses e estratégias dos agentes sociais, como Pierre Bourdieu, Jesús Martín-Barbero, Michel de Certeau e Inesita Araújo.

Feita esta primeira aproximação, tratarei sucintamente, em termos teóricos, da comunicação voltada para intervenção social e, na sequência, analisarei um dos principais materiais de apoio produzidos pelas campanhas: as cartilhas.

A comunicação voltada para intervenção social

Como já observara Araújo, políticas de comunicação são políticas de apoio à intervenção social (9) e, neste sentido, são políticas sociais. As práticas de comunicação das organizações correspondem à sua política de comunicação, que por sua vez, corresponde ao seu projeto de intervenção social. "Não podem, portanto, ser entendidas como um mero conjunto de técnicas e materiais, sendo avaliadas e aperfeiçoadas apenas por uma perspectiva instrumentalista" (Araújo, 2000, pp. 16-17).

A comunicação estrategicamente planejada, que incorpora também o componente educacional e é geralmente demandada por órgãos governamentais ou ONGs, se dá por meio de "campanhas sociais" e visa, em última instância, gerar a adoção de comportamentos para a efetiva implementação de políticas públicas. O termo "campanhas" será usado no decorrer deste texto com o sentido de "campanhas sociais" (Tóth, s/d), incluindo as mais variadas estratégias de comunicação com o público, que englobam desde o contato pessoal em reuniões e cursos, a produção e a utilização de material de apoio (cartilhas, cartazes etc), até inserções de propaganda em veículos impressos, rádio ou TV.

As práticas comunicativas de ONGs e de órgãos governamentais voltadas para o campo da agricultura familiar concentram-se em basicamente dois tipos de intervenção social: a comunicação para o desenvolvimento e a educação popular. A "educação popular" pode ser entendida como as ações que visam promover processos educativos da população, no sentido da sua promoção como seres humanos e como agentes políticos. Ações de desenvolvimento são as que objetivam promover a melhoria da qualidade de vida da população (Araújo, 2000, p. 45).

Um dos pressupostos básicos dessa prática comunicativa voltada para intervenção social e baseada no "modelo mecânico" de comunicação é o de que a solução dos problemas de desenvolvimento encontra-se na comunicação, cujos instrumentos de viabilização e operacionalização são os meios (Araújo, 2000, p. 56).

"Atribuo isto à força paradigmática do modelo, que naturalizou não só a idéia de que problemas de desenvolvimento se resolvem com comunicação, como também a concepção instrumental de comunicação, que reduz o campo a um conjunto de meios e instrumentos de visibilização e transferência de mensagens" (Araújo, 2002, p. 218).

Esta prática comunicativa está alicerçada, por sua vez, em modelos teóricos derivados da Teoria da Informação. A concepção de comunicação implícita no "modelo mecânico" é a de transferência de informação entre dois pólos: o emissor (que tem a intenção de intervir na realidade social considerando as características sociais e culturais do seu público) e o receptor (que participa no processo de comunicação de forma relativa e do qual se espera receptividade às propostas do emissor). A preocupação principal é em relação à clareza das mensagens (ajustadas às possibilidades de decodificação do receptor) e à eficácia da transmissão. A intenção é provocar um determinado efeito no receptor, que poderia ser avaliado através do feedback (adequação entre o dito, a forma de dizer e o compreendido, tomado como medida da eficácia).

Essa concepção de comunicação passa a ter a aparência de um processo de interação, no qual existe a fusão de interesses comuns. A relação entre os pólos emissor e receptor através de um canal (adequado às possibilidades institucionais e/ou às características culturais do receptor) é concebida como se pudesse ocorrer independentemente dos mecanismos de construção de sentidos, ou seja, das condições de produção, recepção e circulação da mensagem, e do contexto histórico no qual os agentes e a mensagem estão inseridos.

Outros processos comunicativos, como as mediações, são vistos pela Teoria Informacional como "ruídos", interferências indesejadas que precisam ser previstas e controladas. A ideologia (10) seria então uma prerrogativa dos conteúdos e a forma tida como "neutra" (por exemplo: a sintaxe, o meio e o tipo de material utilizado para divulgação). Quanto ao sentido, estaria contido na mensagem veiculada, pré-fixado pelo emissor, cabendo ao receptor a tarefa de decifrá-lo (Araújo, 2000, p.74).

Araújo observa também que a teoria behaviorista subjaz os modelos baseados na Teoria Informacional, na medida que buscam a obtenção de comportamentos e atitudes desejáveis. O objetivo da comunicação é obter mudança de valores, condutas e conhecimentos.

"É produto e serve a uma concepção de sociedade dividida entre os que sabem, possuem os valores corretos, as condutas desejáveis (o emissor) e os que não sabem e cujos valores "indesejáveis" devem ser codificados (os receptores)" (Araújo, 2000, p. 73).

Embora muitas instituições (ou quase todas) coloquem como um de seus objetivos principais garantir a participação dos agricultores familiares no processo comunicativo, os pressupostos da Teoria da Informação, presentes na prática comunicativa, acabam gerando um paradoxo e, como citado por Araújo, levando ao acentuado uso de expressões como: "levar conscientização", "mostrar a realidade social", "fazer refletir sobre", "dar o direito de", "permitir o acesso à informação", "possibilitar a participação" etc, com aparência dialógica, mas reproduzindo o esquema básico e unidirecional do emissor - mensagem - receptor" (11) (Araújo, 2000, p. 70).

Desta forma, as campanhas não operam com a idéia de um comportamento estratégico dos destinatários de seus discursos, considerando-os mais "receptores" (nos moldes da Teoria Informacional) do que "interlocutores". Eles não são tratados como interlocutores na maioria das situações, na medida que antes mesmo do desenvolvimento das atividades da campanha, a partir da própria concepção dos trabalhos, a imagem construída sobre este destinatário das mensagens é a de alguém cujo comportamento é incorreto, que precisa reaprender para se desenvolver adequadamente. Estabelece-se aí uma hierarquia do tipo professor-aluno (com a autoridade que compete ao primeiro), na qual quem detém o conhecimento é o emissor, restando ao receptor a tarefa de interagir com ele, complementá-lo com sua própria experiência pessoal e até mesmo questioná-lo, mas sem abalar os princípios que regem a campanha, ou seja, sem corromper a idéia principal de que a proteção ao meio ambiente deve ser uma prioridade perpassando todas as demais.

Os materiais de apoio (cartilhas, cartazes etc) produzidos e utilizados durante as atividades das campanhas fornecem uma amostra este quadro e é sobre eles, tomando como exemplo as cartilhas, que tratarei a seguir.

Cartilhas

Como assinalara Araújo, a forma dos materiais que compõem uma campanha tem que ser analisada juntamente com o conteúdo, além do planejamento dos modos de circulação e uso. O sentido atravessa os níveis sintático, semântico e pragmático. O estatuto do sujeito enunciador e dos seus destinatários é inseparável dos gêneros utilizados e da maneira de organizar e apresentar o conteúdo graficamente. Essas opções são feitas de acordo com as imagens pressupostas de um e outro e das relações daí decorrentes (Araújo, 2000, p.160). O veículo de comunicação escolhido, o formato do material e o modo de circulação também produzirão efeitos distintos junto aos receptores. É preciso ressaltar que os dispositivos de enunciação, particularmente os impressos, já carregam um desequilíbrio entre emissor e destinatário, de modos e graus diferentes, uma vez que cabe ao primeiro a produção inicial e o registro deste discurso.

Este desequilíbrio pode ser percebido nos textos das campanhas de diversas formas, entre elas o "silenciamento" e as "conclusões". Estas últimas, recurso bastante usado, diz respeito a reafirmação do dito, já com uma suposta legitimação do coletivo. Araújo destaca três tipos de "silenciamento" que convém explicitar: a denegação, o interdito e a exclusão.

A denegação consiste em negar a legitimidade dos outros discursos, aqueles que disputam o mesmo espaço discursivo, desqualificando-os ou tentando subordiná-los ao do emissor, estabelecendo uma hierarquia. A crítica, a ironia, o uso das aspas e, até mesmo, o uso do discurso relatado, "que é um modo de não conceder o direito de expressão aos concorrentes, guardando, porém, uma aparência democrática" também são exemplos desta categoria (Araújo, 2000, p. 163).

A aparência democrática, como enfatiza Araújo ao tratar ainda da denegação, caracteriza aqueles discursos que constróem um simulacro do discurso do receptor. Os textos que se propõem pedagógicos ou questionadores freqüentemente estruturam-se em forma de perguntas e respostas, delimitando a priori aquilo que pode ser dito. A cartilha em quadrinhos produzida pelo Ibama e principal e mais conhecido material de apoio das campanhas (entre os agricultores entrevistados durante a pesquisa) enquadra-se neste caso. Para a autora, os textos (escritos, radiofônicos ou audiovisuais) que mobilizam o depoimento de terceiros que supostamente seriam representativos dos destinatários, "rotulando-o, emoldurando-o, despindo-o de seu contexto e impondo-lhe arbitrariamente um sentido", também enquadram-se nesta categoria (Araújo, 2000, p. 163). A exclusão é a omissão de outros discursos possíveis e o interdito caracteriza-se pela substituição de uns termos por outros. Neste caso, atribui-se sentidos diferenciados, novas classificações e sentidos para palavras e expressões já "conhecidas". "Meio ambiente", neste caso, certamente é uma delas.

Como ressaltado por Araújo (2000), na prática discursiva os emissores autodenominam freqüentemente seus textos impressos de "cartilhas". "Cartilha designa um gênero cuja definição não se separa das imagens de emissor (o que sabe e ensina), de receptor (o que não sabe e aprende), das relações entre os dois pólos (aluno-professor) e do objetivo do emissor: ensinar os rudimentos de um conhecimento qualquer, de forma pedagógica" (2000, p. 227). A autora observa que o fato de um emissor supor ou determinar que seu produto discursivo é uma cartilha, mesmo que não o seja, produz um sentido definido e indica suas concepções de sociedade e a imagem que possui sobre os agentes sociais envolvidos na cena .

A cartilha em quadrinhos produzida pelo Ibama através do Sistema Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo), com a colaboração do GTA através do Proteger, e que tem um tamanduá-bandeira como protagonista é a mais conhecida entre os agricultores. As demais, com algumas especificidades, também adotam o formato colorido, com muitos desenhos e perguntas e respostas ensinando como proceder em relação às queimadas, além da ênfase sobre o fogo como uma ameaça e a proteção ambiental como prioridade.

Tomarei então a cartilha do Ibama/GTA para uma análise mais detalhada. Em sua segunda edição (2001), a cartilha sofreu algumas modificações em relação à versão inicial de 1998. A mais marcante foi, sem dúvida, a alteração de um desenho no qual aparecia uma área aceirada próxima a um rio, cujas margens estavam completamente desmatadas. O equívoco foi percebido e corrigido, mas a versão inicial, que ainda circula, continua gerando comentários irônicos por parte dos agricultores, que demonstram também a percepção do mecanismo "professor-aluno" contido nas cartilhas. "Tem coisa que eles querem ensinar, mas tão errados" (agricultor de Marabá).

A cartilha do Ibama/GTA reafirma o desequilíbrio entre o emissor e o receptor, ao construir a imagem de cada um deles. Ao utilizar o mecanismo de pergunta e resposta na construção do texto e ao adotar o formato de estória em quadrinhos e o tamanho de um caderno usado pelas primeiras séries escolares, a cartilha "infantiliza" o receptor das mensagens ao mesmo tempo que destaca a sapiência de um emissor qualificado que ensina. A própria idéia de "cartilha" remonta ao início da alfabetização, para quem está começando a aprender. A citação abaixo aponta nesta direção.

"A gente já tem escola de berço. É feito assim um gibi, né? Mais pra criança" (agricultor da localidade Del Rei, em Paragominas-PA).

Busca-se suprir a suposta carência de informação dos receptores e o fato de muitos serem analfabetos, utilizando um discurso no qual existe a imagem de um leitor que necessita aprender o bê-a-bá das técnicas de prevenção. Pode ser identificada também uma linha diretiva persuasiva de argumentação(12), no sentido de induzir os receptores a adotarem um comportamento desejado (Araújo, 2000, p.231). Convém ressaltar que a cartilha foi feita para os adultos e não para as crianças, embora as últimas demonstrem bastante interesse por ela, dadas as características mencionadas. Abaixo, reproduzo alguns trechos do texto da cartilha:

"Eu sou o tamanduá Bandeira, me chamam de 'Labareda'.
Fui escolhido como animal símbolo para representar a prevenção e combate aos incêndios florestais.
Preocupado com os danos ambientais causados pelos incêndios florestais, venho ensinar algumas técnicas para se fazer uma queimada controlada.
Seja cuidadoso e siga minhas instruções
" (Ramos & Santos, 2001, p.5).

"Labareda, dá para explicar cada um dos pontos?
Calma, Pessoal...
Eu vou explicar tudo direitinho
" (Ramos & Santos, 2001, p.9).

"Todo mundo entendeu?
Só faça queimada quando o vento estiver fraco.
A força e a mudança de direção dos ventos é que podem transformar uma queimada em grande incêndio
" (Ramos & Santos, 2001, p.17).

O tom "professor-aluno" é bastante explicitado nos trechos reproduzidos acima. Note-se também o "diálogo" entre os personagens, em que os assuntos tratados vão adquirindo o formato do atendimento de uma "demanda" do receptor ("Labareda, dá para explicar cada um dos pontos? Calma pessoal..."). Os receptores da cartilha Queimada Controlada acabam sendo "espectadores" e não interlocutores. A cartilha fala deles, não com eles, ou melhor, fala com eles mas a partir de uma imagem do agricultor familiar construída pelo emissor. Cria a situação ideal da limpeza de uma roça preparada a partir das recomendações do Ibama, mas sem mencionar os "custos" que isso irá trazer ao agricultor familiar, quer em termos financeiros ou de tempo. Um aceiro(13) de três metros, por exemplo, em volta de toda a área a ser queimada requer um número de trabalhadores disponíveis para a tarefa muito além da realidade dos agricultores. Mesmo a troca de diárias, como é sugerido na cartilha, suporia uma disponibilidade de tempo significativa para trabalhar também nas roças de vizinhos.

"Nem os filhos obedecem, imagina cartilha que o povo vem e deixa aí" (agricultor de Santana do Araguaia -PA).

Na citação acima, destacam-se dois pontos: as atividades de caráter pontual e temporário que caracterizam as campanhas ("o povo vem e deixa aí") e a dificuldade de "obedecer" ao que é proposto (como a feitura de um aceiro de três metros). Enquanto adota o tom "professor-aluno" no discurso dos personagens, a cartilha reforça também o poder legal do Ibama. No rodapé das páginas, em vermelho e em letras maiúsculas, as orientações adquirem um tom mais impositivo.

"Consulte o Ibama sempre que precisar fazer queimada
Preservar o patrimônio natural é um dever de todos
O uso do fogo é uma prática muito antiga, mas pode causar muitos prejuízos
Com autorização tudo fica legal
"
(Na ordem: Ramos & Santos, 2001, pp. 6,7,8 e 10).

A última página colorida da cartilha, logo após o final da estória em quadrinhos, ilustra melhor esta idéia:

"Você não pode esquecer
  • A autorização do Ibama deverá estar no local da realização da queimada.
  • Fica expressamente proibido o uso de fogo em áreas de preservação permanente e de reserva legal.
  • Os infratores estarão sujeitos às penas previstas nos artigos 14 e 15 da Lei 6.938 de 31 de agosto de 1981 e na Lei 9.605 de 12 de fevereiro de 1998.
  • Os danos causados a terceiros correrão por conta do proprietário da área onde teve início o fogo.
  • O Ibama suspenderá a realização da queimada controlada se as condições meteorológicas ou ambientais forem desfavoráveis.
  • Um representante do Ibama ou de órgão autorizado poderá comparecer ao local no dia e hora da realização da queimada."
    (Ramos & Santos, 2001, p.17)
  • Como foi possível notar, a menção às leis e às punições concluem o discurso sobre o que os agricultores "não podem esquecer" em relação ao que foi "ensinado" pelo personagem Labareda, reforçando o aspecto mais impositivo da proposta. As duas primeiras páginas, reservadas ao texto de apresentação, são ainda mais explícitas sobre a imagem que se tem dos destinatários da cartilha. A seguir, o parágrafo de abertura e um dos parágrafos finais:

    "A destruição das florestas para serem transformadas em áreas para agricultura, pecuária e exploração florestal seletiva tem ampliado a perda da biodiversidade, modificando a estrutura da floresta, tornando-a inflamável. Associados a isso, fenômenos climáticos periódicos, como por exemplo o "El Niño", provocam severas secas, aumentando os riscos de ocorrência de incêndios florestais (Ramos & Santos, 2001, p.3).

    "É necessário, portanto, que antes de se fazer uma queimada se PENSE nos prejuízos que ela poderá causar. Assim, SE REALMENTE PRECISAR, USE O FOGO CORRETAMENTE (Ramos & Santos, 2001, p.4). (Neste parágrafo e no anterior, o uso de maiúsculas, itálico e negrito reproduz o texto original da cartilha).

    A imagem do destinatário da cartilha, que será "ensinado" a proceder corretamente, é associada à dos causadores da "destruição das florestas" (em virtude da transformação destas "em áreas para agricultura, pecuária e exploração florestal seletiva") e a pessoas que usam o fogo sem pensar e, em muitos casos, sem necessitar. A visão preservacionista presente no campo ambiental, de proteção de uma floresta que quanto mais intocada, melhor, também aparece no parágrafo inaugural. Poder-se-ia argumentar que, por ser uma cartilha produzida pelo Ibama, nada mais "natural", no que diz respeito à forma e conteúdo do discurso, pois plenamente de acordo com os valores do campo ambiental (14). No entanto, o último parágrafo da seção Apresentação vai relativizar um pouco essa suposição inicial.

    "O IBAMA, por intermédio do Sistema Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais - Prevfogo e do Grupo de Trabalho Amazônico-GTA, apresenta algumas técnicas fundamentais e recomendações básicas para a realização de queimada controlada" (Ramos & Santos, 2001, p.1).

    O Grupo de Trabalho da Amazônia - GTA (15), que congrega diversas instituições representativas de agricultores familiares (como os STRs) e que coordena o Proteger, também participa, pelo menos formalmente, da concepção e das idéias presentes na cartilha, além de usá-las como material de apoio nas atividades da campanha. É portanto, com o "aval" do GTA que o leitor (cuja imagem já é dada desde o início do texto) terá que estar atento às recomendações ambientais e à sua esperada mudança de comportamento.

    Convém fazer também algumas observações sobre os desenhos contidos na cartilha e que mostram uma paisagem mais próxima ao cerrado do que à floresta Amazônica. Os agricultores dos municípios pesquisados comentavam com freqüência: "ah, isso é mais pro pessoal lá do Mato Grosso", fazendo menção ao fato de que o emissor que "ensina" pode não conhecer muito bem o que supostamente precisa ser ensinado.

    Em resumo e de um modo geral, as cartilhas utilizadas pelas campanhas tem seguido um mesmo padrão: formato de estória em quadrinhos ou com muitos desenhos, coloridas e no tamanho de um caderno escolar das primeiras séries. O conteúdo dos textos é marcado pelo tom "professor-aluno" e construído em forma de perguntas e respostas já definidas, dando-lhe uma aparência democrática, mas ao mesmo tempo silenciando sobre outros aspectos importantes do tema, como a alocação de tempo e mão-de-obra na implementação das técnicas de prevenção. Além disso, as cartilhas contribuem para a construção e difusão da imagem de um agricultor que precisa ser ensinado a como proceder em relação às queimadas e cujo comportamento futuro deve ter a proteção ambiental como uma prioridade.

    Conclusão

    Este artigo pretendeu apontar para algumas conclusões da pesquisa sobre as campanhas de prevenção ao "fogo acidental" na Amazônia e particularmente no Pará, no âmbito da produção e recepção das informações. É possível afirmar, com base no material analisado, do qual as cartilhas foram usadas como exemplo neste artigo, que se tratam de experiências pautadas muito mais na imagem e nas necessidades pressupostas pelo emissor sobre o destinatário, do que campanhas que conheçam as ações que a recepção realiza como resposta às informações ofertadas. Além disso, estas ações são difíceis de serem compreendidas porque os mecanismos de avaliação existentes estão mais voltados para dar conta da eficácia do processo produtivo, através de alguns indicadores quantitativos como número de focos de calor registrados; número de reuniões, cursos e participantes; número de monitores treinados; número de acordos comunitários celebrados e número de casos de atendimento hospitalar registrados devido à fumaça.

    O enfoque é mais voltado para o que foi feito do que para as "maneiras" como foi feito (Certeau, 1994). A esfera da produção das campanhas tem pouco conhecimento sobre as maneiras como suas práticas adquiriram novos sentidos na esfera da recepção das informações. As estratégias utilizadas pelas instituições responsáveis pelas campanhas, predominantemente do campo ambiental, têm obtido relativo êxito na generalização da visão de mundo cara a este campo, porém, parece ser esse o limite que se pode atingir. Uma mudança permanente de comportamento por parte dos agricultores familiares só se fará sentir quando as campanhas incorporarem as demandas e os valores destes agricultores, ou seja, quando se abrir verdadeiramente um espaço para interlocução que rompa o modelo informacional de comunicação, pano de fundo das campanhas.

    NOTAS

    (l) Costa, Luciana M. Sob o fogo cruzado das campanhas: ambientalismo, comunicação e agricultura familiar na prevenção ao fogo acidental na Amazônia. Tese de doutoramento. Belém: UFPA/NAEA, 2004.Voltar

    (2) Trata-se do fogo que escapa do controle do agricultor.Voltar

     

    (3) A categoria "agricultores familiares" refere-se a proprietários ou ocupantes de terras, geralmente com cerca de até 100 hectares (no caso da Amazônia), onde desenvolvem diversas culturas, principalmente mandioca, arroz, milho e feijão, além da criação de gado em pequena escala e culturas permanentes, como o café. O trabalho na terra é realizado predominantemente (embora não somente) pela mão-de-obra disponível na própria família. A unidade familiar é ao mesmo tempo unidade de produção e consumo.Voltar

     

    (4) "A expressão "focos de calor" é utilizada para interpretar o registro de calor captado na superfície do solo pelo sensor AVHRR, que viaja a bordo dos satélites da série NOAA. Esse sensor capta e registra qualquer temperatura acima de 47 graus centígrados e a interpreta como sendo um 'foco de calor'. Não há, neste caso, possibilidade de se discriminar se o 'foco de calor' é um incêndio ou uma queimada, mas é possível identificar onde e quando ocorreu, ou seja, sua posição geográfica referenciada pela latitude e longitude". Fonte: www2.ibama.gov.br/proarco/apresentacao.htm. (Consulta realizada em 19/09/03).Voltar

     

    (5)A primeira etapa da pesquisa de campo contou com o apoio institucional e financeiro do Ipam. Na segunda etapa, além do apoio institucional do Ipam, foi possível contar também com o apoio financeiro e institucional do WWF (Wild WorldLife Fund), através do Programa Natureza e Sociedade, que concedeu uma bolsa de apoio à pesquisa de pós-graduação.Voltar

    (6) Utilizo o conceito de campo elaborado por Bourdieu. "Os campos se constituem de um universo, relativamente autônomo, de relações específicas, em que ocorrem as interações e lutas entre os diferentes agentes sociais que pertencem àquele determinado campo. A constituição de um campo e a alta determinação do mesmo se estabelecem pelas forças internas, na medida em que ocorre a disputa do jogo entre os diferentes agentes sociais ('moeda valorizada')". (Barp, 2001, p.21). "O limite de um campo é o limite dos seus efeitos ou, em outro sentido, um agente ou uma instituição faz parte de um campo na medida em que nele sofre efeitos ou que nele os produz" (Bourdieu, 1998, p.31).Voltar

     

    (7) As práticas discursivas, como enfatizara Araújo, são a face visível das instituições e é por meio dessas práticas que elas agem sobre a realidade, ao concretizar suas políticas sociais que traduzem concepções de mundo, sociedade e relações sociais (Araújo, 2000, p. 266).Voltar

     

    (8) O poder simbólico, conceito caro a Bourdieu que tem suas raízes na teoria durkheimiana, pode ser definido como o poder de construção da realidade, ou seja, do sentido imediato do mundo social. Os símbolos tornam possível o consenso acerca do mundo social e contribuem, desta forma, para a reprodução da ordem social (Bourdieu, 1998, p. 09). Trata-se da forma transformada de outras formas de poder (como o econômico, por exemplo), portanto, irreconhecível, ignorada como arbitrária.Voltar

     

    (9) Incorporo e reproduzo a defesa feita por Araújo para o uso do termo: "falar de políticas públicas leva a falar de intervenção social. Algumas pessoas repudiam esse termo, pela carga semântica negativa que carrega, associada a processos autoritários. Mas é, de fato, o termo que atualmente melhor escreve a ação pública ou privada de interferir em uma determinada realidade social, com o objetivo de provocar mudanças. E é justamente o termo que permite compreender o campo das políticas públicas como pertinente não apenas ao âmbito governamental, trazendo para esse cenário as organizações da sociedade civil, como as ONGs e as igrejas, incluindo ainda as organizações representativas da população, que hoje não só operam na implantação e gestão das políticas, mas também reivindicam o direito pleno de influir na sua formulação" (Araújo, 2002, p. 213).Voltar

     

    (10) Marilena Chauí observa que a ideologia organiza-se como um sistema lógico e coerente de representações (idéias e valores) e de normas ou regras (de conduta) (Chauí, 1984, p.113). Bourdieu assinala que "o efeito propriamente ideológico consiste precisamente na imposição de sistemas de classificação políticos sob a aparência legítima de taxionomias filosóficas, religiosas, jurídicas, etc. Os sistemas simbólicos devem a sua força ao fato de as relações de força que nelas se exprimem só se manifestarem neles em forma irreconhecível de relações de sentido (deslocação)" (Bourdieu, 1998, p. 14).Voltar

     

    (11) Insere-se neste quadro a noção de "compreensão" muito ligada à mensagem e às atitudes do receptor e que, como demonstra Araújo, nos leva "a perceber o fenômeno da compreensão - central para todos que têm interesse nas práticas discursivas - como uma habilidade de contextualizar, ou de fazer contextualizações, quando nos modelos tradicionais ele está ligado à capacidade de decodificação" (Araújo, 2000, p. 142).Voltar

     

    (12) "A modalidade diretiva tem como objetivo tentar que o receptor adote, no futuro, o comportamento expresso pelo estado de coisas ao qual nele se faz alusão. Sua eficácia depende muito das relações anteriores entre emissor e receptor, ou seja, dependem da cena social concreta e próxima em que se inscrevem. Esta afeta, pois, à legitimidade discursiva pré-construída. Perguntas, interpelações, vocativos, o uso das 2ª e 3ª pessoas da conjugação verbal (tu e você) são marcas possíveis dessa modalidade" (Araújo, 2000, p. 231).Voltar

     

    (13) Aceiros são faixas limpas de vegetação ao redor do terreno a ser queimado, evitando que o fogo ultrapasse a área a ser queimada. A metragem recomendada pelo Ibama é de 3 metros ou mais.Voltar

     

    (14) Muitos técnicos do Ibama que hoje estão ou estiveram à frente de programas ambientais coordenados pelo instituto, foram e ainda são consultores ambientais que trabalharam ou trabalham em ONGs ambientalistas e vice-versa. A situação em outros órgãos públicos que tratam da questão ambiental não é muito diferente. Desta forma, o discurso ambiental dominante no campo ambiental encontra forte ressonância nestas instituições públicas que também acumulam capital econômico e político, portanto, poder simbólico para contribuir para a legitimação deste discurso. Voltar

     

    (15) A participação do GTA na elaboração dos materiais foi expressa, inclusive, na própria proposta encaminhada ao Ibama em 1998: "a fim de garantir uma unidade entre a metodologia proposta e o material didático, será importante que o GTA participe na elaboração de todo o material que se destina ao público alvo deste projeto. No caso dos spots de rádio, o GTA irá preparar um pequeno programa informativo sobre a questão dos perigos do fogo para circular em rádios comunitárias por nós identificadas" (GTA, 1998, p.4).Voltar

    Bibliografia

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    BOURDIEU, P. O poder simbólico ( trad. Fernando Tomaz). 2ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
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    CHAUÍ, M. O que é ideologia. 15ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1984.
    COSTA, L.M. Sob o fogo cruzado das campanhas: ambientalismo, comunicação e agricultura familiar na prevenção ao fogo acidental na Amazônia. Tese de doutoramento. Belém: UFPA/NAEA, 2004.
    GTA. Projeto de Mobilização e Capacitação em Prevenção e Combate a Incêndios Florestais na Amazônia: Envolvimento das Organizações dos Trabalhadores Rurais da Amazônia Legal: Proposta. Brasilia: GTA, 1998. Mimeo.
    MARTÍN-BARBERO, J. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia (trad. Ronald Polito e Sérgio Alcides. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997.
    RAMOS, P. C. M. & SANTOS, L. Queimada Controlada. 2ª ed., revista e atualizada. Brasília: PREVFOGO, 2001.
    TÓTH, M. Campanhas Sociais vs Comunicação Social Estratégica. www.socialtec.org.br/artigos/MT_Trabalho.htm. Acesso em: 23 abr. 2004.

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