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GERALDO FLACH E O LUAR DO SERTÃO

Por Fabio Gomes

 

Qual é a segunda parte de “Luar do Sertão” (João Pernambuco – Catulo da Paixão Cearense)? A primeira, todos sabem, é “Não há, ó gente, ó não/ Luar como este do sertão...”. A segunda, como o pianista Geraldo Flach pôde constatar, ninguém tem certeza. Quando ele convocou o público presente no Theatro São Pedro dia 8 de dezembro de 2002 a acompanhá-lo, suspendeu a operação, bem humorado, dizendo:

- Vamos voltar para a primeira, que todo mundo sabe qual é...

“Luar do Sertão”, por sinal, entrou na apresentação daquela manhã de domingo como uma citação dentro de “O Trenzinho do Caipira” (Tocata das Bachianas Brasileiras nº 2) (Heitor Villa-Lobos) – que o público também foi convidado a cantar, fazendo um vocalise. Esta música não constava do programa, entrou porque Geraldo não conseguiu concluir, devido a muitas viagens que tem feito, o arranjo para orquestra de sua música “Kakaia”. Orquestra? Sim, a Orquestra de Câmara Theatro São Pedro, da qual o trio de Geraldo (completado por Ricardo Arenhaldt na bateria e Ricardo Baumgarten no baixo de 6 cordas) era o convidado na ocasião. “Trenzinho.../Luar...” integrou a parte em que os convidados fazem sua apresentação solo, sem a anfitriã. Esta parte teve ainda o clássico argentino “Mercedita” (Ramón Sixto Rios) numa versão bem galponeira e “Mapa da Cidade” (Geraldo Flach) numa interpretação algo caribenha, em que os três músicos tocaram “dando tudo” em toda a duração da música, sendo aplaudidos já em meio à execução.

Dos números com a orquestra, o melhor foi “Anos Dourados” (Tom Jobim – Chico Buarque ), em que Geraldo tocou bem diferente do estilo contido de Jobim, além de incluir no seu arranjo uma fantasia com o tema do bolero logo após a parte que corresponde aos versos “Vai ser engraçado/ Se tens um novo amor”. Aliás, todos os arranjos executados foram escritos por Geraldo Flach.

Em relação a “Joanna Francesa” (Chico Buarque), o maestro Antônio Carlos Borges Cunha comentou que a versão executada não era a prevista, o que justificou a repetição da peça no bis. Não cheguei a notar grandes diferenças entre uma e outra. Por sinal, um belo arranjo, que começa com um diálogo entre piano e violoncelo, entra uma percussão muito leve, evoluindo para a entrada de todos, trio e orquestra, ocorrendo em seguida a retomada de piano e violoncelo para repetir tudo. Mas pode ter sido apenas uma brincadeira do maestro, que demonstrava estar muito feliz nesse concerto. A função encerrou com “Rancheirinha” (Geraldo Flach), uma peça que para muitos já está associada a seu intérprete mais constante, Renato Borghetti.

Ah, sim: a segunda parte de “Luar do Sertão” começa dizendo: “Oh, que saudade do luar da minha terra/ Lá na serra, branquejando/ Folhas secas pelo chão...”.

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