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A MÚSICA LIVRE DE HERMETO PASCHOAL

Por Fabio Gomes

 

Como definir o que foi a apresentação de Hermeto Paschoal no Santander Cultural (Porto Alegre) em 16 de fevereiro de 2005? Creio que a palavra que melhor a sintetiza é "livre".

Primeiro, liberdade na escolha do repertório. Ele identificou a autoria de algumas das músicas interpretadas, uma como sendo de Sivuca, outra de Thelonious Monk. O público não teve dificuldade em reconhecer "Jesus, Alegria dos Homens" (Johann Sebastian Bach) e "Brasileirinho" (Waldir Azevedo). Do restante do que Hermeto apresentou, é possível que boa parte estivesse sendo composta ali mesmo.

Outra liberdade na postura perante o público. A fama que Hermeto atingiu poderia fazer com que ele se tornasse um "nariz-empinado". Ao contrário, ele parecia estar em casa. Entrou tocando berrante, caminhando entre a platéia; ao final, saiu também andando em meio ao público, posando para fotos, concedendo autógrafos...

Ainda, liberdade em relação aos instrumentos escolhidos. Aldir Blanc não estava brincando quando escreveu a letra de "Chá de Panela", uma parceria com Guinga (gravada por este com Alceu Valença no CD Suíte Leopoldina, Velas, 1999): Hermeto realmente "foi na cozinha pra pegar o instrumental". Além de instrumentos tradicionais como piano, sanfona, flauta e gaita-de-boca com teclado (apelidada de "piano de boca"), ele tocou chaleira, garrafa de plástico, copo com água...

"A ansiedade que vocês têm por mim, eu tenho por vocês."

As quatro músicas que Hermeto interpretou ao piano já valiam o ingresso. Em três delas, a presença de um estilo vigoroso, de muitas notas. Na primeira, o músico alagoano alternou energia e suavidade, chegando a lembrar sons de trem e de tiro. Nos últimos compassos, começou a tocar junto um apitinho; o penúltimo compasso foi só com o apitinho e o final se deu com o toque de uma única tecla do piano. A segunda, "Boiada", ele justificou que precisava tocar "porque senão minha produtora atrasa o pagamento". Percussiva e balançante (falo da música, não da produtora!). A terceira música era a um tempo vigorosa e devastadora, contrastando com o vocalise suave que Hermeto começou a fazer junto com o público a partir da metade da execução. A quarta música ao piano deixo pra depois.

"Minha missão aqui é música. Minha religião é música."

Declarando que uma chaleira pode ser um instrumento tão musical quanto um piano, apesar de saber que "alguns músicos reclamam", Hermeto tocou na chaleira um jazz de Thelonious Monk - "à la Miles Davis tocando trumpete", como classificou. Ele soprou pelo bico da chaleira, ocasionalmente mexendo na tampa para obter um som de surdina - e junto com isso apertava um bichinho de borracha daqueles que guincham. E isto tudo não soava como uma zoeira sem sentido, mas era Música - assim, com M maiúsculo!

Em seguida, Hermeto foi se servir de água. Encheu o copo, largou-o, pegou novamente a garrafa e soprou, fazendo um som. Preferiu voltar ao copo. Fazendo a água borbulhar, foi tocando "Jesus, Alegria dos Homens" - conseguia manter a afinação mesmo tomando goles d'água durante o processo. Comandou, ainda, o borbulhar da platéia!

Foi a vez de subir ao palco a gaúcha Aline Morena, com quem Hermeto forma o Duo Chimarrão com Rapadura. Na primeira música que apresentaram juntos, Hermeto tocou uma sanfoninha que ganhou de Renato Borghetti, enquanto Aline improvisava um vocalise sobre a harmonia. A música seguinte já contou com Aline ao violão; no começo, Hermeto acompanhou-a com o "piano de boca", depois passando a fazer um canto-e-resposta com o público sobre a melodia feita ao violão.

Novamente sozinho no palco, Hermeto pegou uma flauta curva, com som grave. Alternando momentos em que efetivamente tocava o instrumento com outros em que assobiava junto ao bocal ("Na Europa eles procuram quem tá assobiando", contou), emendou um samba, um vanerão e o choro "Brasileirinho" - neste, soprava a flauta sem tapar os orifícios, fazendo a percussão com a boca! Foi aplaudidíssimo.

"O instrumento pra mim pode se sumir tudo. O que eu quero é o som. Em tudo há música."

Lembram da quarta música ao piano, que deixei pra depois? Pois é, já é depois. Hermeto fazia um baião suave, com Aline acompanhando-o num vocalise. Hermeto parou de tocar para dançar um pouco, enquanto Aline seguia. De volta ao piano, ele imitou no teclado o resfolego da sanfona; no forte último acorde, Hermeto levantou-se, como se para tocá-lo fosse preciso uma certa solenidade. Feito isso, chamou ao palco o produtor Carlos Branco, que definiu como "musical". Convidou o produtor a falar uma mensagem de amor. Branco aceitou o desafio, improvisando uma mensagem a sua esposa e ao público - com o fundo musical de Hermeto ao piano e Aline à viola de 10 cordas. Finda a mensagem, Branco sai muito aplaudido do palco, com Hermeto e Aline retomando o baião. O ritmo deste passa a ser mais forte, até virar um tango ("em homenagem a três argentinas que estão na platéia", informou o mestre) e novamente se suavizar. Hermeto emendou com uma homenagem ao filho de Branco, André (cantando ao piano: "André, André/ Este som é muito lindo/ É por isso que dá pé") e retomando o suave baião. Mas Aline pediu e ele o acelerou, até encerrar com o público cantando e aplaudindo demoradamente.

"Um acorde bonito é como uma pintura."

(Ah, antes que eu esqueça: as frases em itálico soltas entre os parágrafos foram ditas por Hermeto durante o show.)

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