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INUSITADO NA RODA DO CHORO

Por Fabio Gomes

 

Por essas coisas da vida, a estréia do novo formato da série (agora mensal, sempre na primeira terça) Na Roda do Choro, em 3 de junho de 2003, ficará marcada por dois incidentes curiosos. Um deles não era musical: a Camerata Brasileira recém terminara de tocar seu primoroso arranjo para “Noites Cariocas” (Jacob do Bandolim), quando entrou na Sala Luís Cosme uma mulher reclamando em alto e bom som que o violonista Moysés Lopes a abandonara. Relatou que ligou para ele algumas vezes, deixara recado e ele não telefonara de volta. Agora, ela, que se apaixonara pelo choro, ficava em casa ouvindo discos e chorando (sério, o papinho da sujeita era esse aí mesmo!). Mas tudo bem, Moysés ficou de ligar e ela nos deixou continuar ouvindo a Camerata em paz.

O arranjo para “Noites Cariocas” é primoroso, em primeiro lugar, por fugir do óbvio – aquela tentação de tocar “igual ao disco” a que muitos músicos não resistem. Não é o caso da Camerata. O violão de 7 cordas introduz o tema. Num segundo momento, bandolim, cavaquinho e pandeiro entram, discretos. O violão de 6, mais discreto ainda. Todos então tocam forte, subindo e descendo alguns tons, preparando o terreno para um excelente diálogo entre bandolim e cavaquinho, improvisando até que se escute um toque forte do pandeiro. É o sinal para o soluçar do bandolim e o estrilo do cavaquinho, seguido por alternância entre todos tocando forte e paradinhas, marcadas pelo pandeiro. Após uma base feita pelo bandolim para improvisos do cavaquinho, eis que de repente aparece com força o violão de 6, firme na baixaria para que o bandolim conclua numa escala ascendente! Uau!

O grupo passou por algumas mudanças no início do ano: o pandeirista Ânderson Balbueno entrou no lugar do percussionista Sidnei, enquanto Luís Barcelos, que tocava violão de 7 cordas, e Rafael Mallmith, responsável até então pelo cavaquinho, trocaram de instrumentos. Esta segunda mudança foi excelente, pois era visível que Luís, um excelente cavaquinista, sentia-se um pouco preso no violão de 7. Já o ingresso de Ânderson acentuou a tendência do conjunto para o samba (afinal, não é por acaso que quatro dos cinco integrantes da Camerata fazem parte também do grupo Samba de Fato).

Pode não parecer, mas essas modificações levaram o grupo a reensaiar todo o seu repertório, e este processo trouxe mudanças nos arranjos – não há mais sino na introdução e no final de “Pedacinhos do Céu” (Waldir Azevedo), por exemplo. Os dois violões iniciam a música com arpejos lentos, seguidos da introdução do tema pelo cavaquinho. Sendo este empunhado por Luís Barcelos, é natural que o tema seja apresentado livremente, com repetições de acordes e improvisos. O pandeiro então convoca os outros instrumentos, que fazem a base para o solo do cavaquinho, que não pára, agora conversando com o violão de 7. Quando o cavaquinho passa a fazer trêmolos, os violões (Mallmith e Moysés) se destacam, para em seguida iniciar um trecho em que todos tocam forte, bem cadenciados. O pandeiro está excelente nesses compassos. O final é um trêmolo uníssono de cavaquinho e bandolim (Rafael Ferrari).

Um arranjo que mudou radicalmente foi o de “Um a Zero” (Pixinguinha). Se até 2002 a Camerata seguia a gravação original (Pixinguinha e Benedito Lacerda, 1946 - Victor), num estilo toque de bola, a inspiração para o atual arranjo só pode ter sido o Carrossel Holandês de 1974. A execução é acelerada, todos tocando forte. As tabelinhas entre bandolim e cavaquinho estão demais, e os violões estraçalham na baixaria. Por quatro vezes, durante a segunda parte, os músicos chegam a comemorar o gol!

As tabelinhas entre Ferrari e Barcelos dominam outros choros apresentados (“Cochichando”, de Pixinguinha; “Vê se Gostas”, de Waldir Azevedo e Otaviano Pitanga) ora com solo de um, ora de outro, geralmente com improvisos. Mas há momentos para brilhos individuais, como o belo solo de cavaco em “Beliscando” (Paulinho da Viola) e “Cadência” (Juventino Maia) e o destaque ao bandolim em “Gostosinho” (Jacob). O violão de 6 de Moysés cumpre bem a função de fazer a base, destacando-se aqui e ali num solo de primas em “Murmurando” (Fon-Fon – Mário Rossi) e “Há um Tom” (Hamilton de Holanda) – onde o violão de 7 e o cavaquinho dialogaram muito bem.

Constituíram uma agradável surpresa os acordes quadrados de Barcelos ao cavaquinho na abertura de “Benzinho” (Jacob), lembrando a forma com que o próprio Jacob tocou cavaco na gravação original de “Ai! Que Saudade da Amélia” (Ataulfo Alves – Mário Lago), com Ataulfo Alves e Sua Academia de Samba (1941, Odeon). Em seguida, um solo de bandolim e arpejos do violão de 7 antecedem um momento de todos tocando forte, abrindo para solo de cavaco com trêmolos no bandolim. Finalizando “Benzinho”, dois diálogos: violão de 7 com bandolim e bandolim com cavaquinho.

Para o encerramento, o grupo reservara “Deixa Assim” (Rafael Mallmith). E, aqui, o segundo incidente curioso: o próprio autor da música, tocando violão de 7, errou a introdução! Em seguida, a habitual competência do grupo se fez sentir novamente, numa execução alternando paradinhas e momentos fortes, com o bandolim imitando cuíca.

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