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A GRANDE FAMÍLIA ITINERANTE - UM CASO DE SAMBA

Por Maria Albers

 

1. Introdução

O presente trabalho tem como tema o samba, cujo recorte analítico é o momento ritual de roda de samba, espaço em excelência de manifestação cultural e artística do brasileiro afro-descendente. Para análise da roda de samba faz-se um estudo de caso, tendo como objeto a Banda Itinerante, sendo este representativo, mas ao mesmo tempo dotado de singularidade, para caracterizar, por meio de suas práticas e representações, a roda de samba. Segundo Guterres (1996), o valor do estudo de caso está na sua eficácia para apreensão da totalidade do social, valendo-se do conceito de Fato Social Total de Mauss.

É objetivo do trabalho estudar o espaço e a dinâmica da roda de samba, atentando à relação entre sambistas neste espaço e às representações e categorias do grupo para chegar a ordenações simbólicas da realidade. Além disso, pretende-se trabalhar a questão de identidade que atua como fator aglutinante nas rodas, uma vez que se procura compreender o sentido de pertencimento presente na Banda Itinerante.

O tema é trabalhado primeiramente de forma mais ampla, a partir do resgate do processo de trabalho de campo, no que são levantados aspectos sobre a percepção de uma cultura de roda de samba arraigada à atividade carnavalesca, até a apreensão de sua singularidade através do estudo de caso da Banda Itinerante.

Como metodologia, foi empregada uma observação direta e, durante o estudo de caso, participante. As entrevistas não-diretivas, que foram gravadas segundo vontade dos entrevistados, tiveram valor mais como forma de abordagem inicial para inserção em campo, sendo realizadas logo no início dos trabalhos com a Banda Itinerante, embora se reconheça que a série de mini-entrevistas realizadas com alguns dos fundadores e diretores da Banda teria maior valor etnográfico se realizada mais tarde.

2. Samba - o tema de pesquisa, a problemática e a motivação do pesquisador.

Considero essencial para toda e qualquer pesquisa antropológica a explicitação das motivações pessoais que induziram o pesquisador a escolher o tema de sua pesquisa e a dar seguimento ao trabalho. Há muito reconhecida a impossibilidade de total neutralidade do antropólogo, é fato que a escolha do tema está diretamente ligada às predisposições desenvolvidas pelo pesquisador ao longo de sua trajetória de vida. Traduzindo gostos, sonhos e interesses do pesquisador, a escolha do tema nos mostra como na Antropologia o aspecto científico-profissional está determinado pelo pessoal. Isto é, para assumir uma posição relativista frente a seu objeto de estudo um antropólogo formula seu tema de pesquisa quase que automaticamente de acordo com seus interesses extra-acadêmicos. Seria até mesmo um desafio a um antropólogo realizar um recorte da realidade social com o qual não tenha o mínimo de afinidade e pelo qual não se sinta minimamente intrigado; e seria enorme êxito realizá-lo sem cair no erro de um posicionamento crítico frente à realidade que desvenda. Sendo assim, não poderia deixar de resgatar o processo de constituição do meu tema de pesquisa e justificar até mesmo o aparecimento de eventuais sinais de supervalorização daqueles que me propus a pesquisar, deixando mais uma vez claro que os aspectos culturais aqui levantados nada são além de aspectos por mim percebidos.

A escolha do tema para a minha pesquisa - a roda de samba - se deu em função de minha ligação com a dança, mais precisamente a dança flamenca. Há tempos que o meu gosto pela dança e minha condição de estudante de Ciências Sociais compeliam-me para a união das duas esferas numa única proposta: abordar antropologicamente aquilo com que até então só me reconhecia como praticante. Até mesmo o desafio de um distanciamento necessário para com a realidade a ser pesquisada - uma vez que através de meu gosto pela dança estou significativamente inserida no meio, correndo o risco de cair no problema das supervalorizações antes mencionadas - motiva-me para a execução desta tarefa.

O caráter popular da dança flamenca - originariamente como manifestação cultural dos povos marginalizados da sociedade espanhola - sendo alvo de minhas reflexões, foi o aspecto que me levou em direção ao samba, ao identificar neste, grosso modo, um correspondente brasileiro à cultura popular espanhola. Da mesma forma, não era de meu interesse pesquisar sobre Escolas de Samba ou outras formas já institucionalizadas do samba, mas resgatar a sua forma mais espontânea, informal e primitiva da festa do brasileiro afro-descendente: as rodas. Também no contexto espanhol são as juergas, e não os espetáculos coreografados dos palcos, os representantes-mestres da riqueza cultural da arte flamenca.

A minha pouca familiaridade com o mundo do samba me impediu a formulação precisa de uma problemática inicial. Apenas uma noção pré-concebida e até mesmo romantizada do que seriam as rodas de samba, certamente provocada pela comercialização do samba como produto nacional, alimentava o meu imaginário e concretizava-se num projeto de pesquisa cheio de lacunas. Tinha até então somente o objetivo de desvendar a cultura da roda de samba e a forma como a própria roda dialoga com a cultura afro-descendente.

É, contudo, ao longo do campo que uma problemática se estabelece, e esta se fixa só no momento em que também o campo o faz.

3. Um campo itinerante

Grande parte do campo para esta pesquisa constituiu-se na tentativa de encontrar o campo, ou seja, na tentativa de encontrar onde ocorreriam as rodas de samba. Como minha orientação para encontrar uma roda era mínima, fui tateando as poucas pistas que me apareciam.

Inicialmente, por indicação de conhecidos, contatei com integrantes do Comitê de Resistência Popular na Restinga, que consiste num projeto de conscientização e apoio junto à população desta região porto-alegrense, realizado principalmente por estudantes universitários. Sabia que seu projeto não abrangia a questão cultural da dança e da música, mas me interessava como uma forma de me inserir no meio periférico da Restinga. Uma estudante de Comunicação da Fabico, UFRGS, foi quem me "levou" até lá. Não conhecendo nada sobre samba na Restinga, a atuação da estudante se restringiu a me dar as orientações básicas para que eu não me perdesse em território até então desconhecido por mim. Sozinha, saí caminhando pela avenida principal da Restinga, por onde, guiada por alguns cartazes que anunciavam festas, cheguei até o Shopping Bar, casa noturna que fica junto a um complexo comercial popular. Para minha decepção, no entanto, o local não mantinha relação alguma com o samba, mas com o funk. Mais tarde, encontrando um grupo de homens num bar, ao mencionar a minha visita ao Shopping Bar, fui alertada sobre sua fama: "No Shopping Bar tu não te mete que dá morte, lá é pesado...". Por outro lado, percebendo que me encontrava num grupo de sambistas, ou ao menos, admiradores do samba - a negritude e o falar alto e animadamente eram pré-conceitos que tinha em relação à gente do samba, e que por sua vez, foram se constituindo, ao longo do trabalho, como marcas deste espaço social -, perguntei sobre a existência de rodas. "Aqui tu tá em casa", dizia um, sinalizando embriaguez, enquanto outro, mais lúcido, mencionava o Bar do Renato como espaço propício à formação de rodas. O Bar do Renato, no entanto, estava fechado, em função do que me restava apenas ater-me às opiniões de moradores vizinhos para construir uma primeira imagem sobre as festas no local: "tem festa, sim, mas é só tumulto!" ou "volta e meia dá briga, a polícia vem...". Confesso que as conversas com a vizinhança me alertaram para a possível inviabilidade em realizar a pesquisa no Bar do Renato, evidentemente por motivos de segurança, difícil acesso no turno da noite etc.

Foi então que, dando seguimento a minha pesquisa, dirigi-me até a Estado Maior da Restinga, uma das duas grandes escolas de samba da região. Foi lá que, conversando com o diretor social da Escola, percebi a relação que se estabelecia entre a roda de samba e o meio carnavalesco, sendo as Escolas as articuladoras de tal relação. Com um panorama das rodas que ocorriam na Restinga em mente, a partir do que Seu Dalci, o diretor, me relatava, pude vislumbrar três tipos de festas de samba, não necessariamente rodas, que compõem o cenário local: o tumulto das rodas em bares abertos, a la Bar do Renato; as rodas organizadas nas Escolas, onde a própria diretoria preocupa-se em articular um convívio pacífico com os agentes da violência, desenvolvendo um sistema de segurança que, mesmo atuante, mantenha o caráter aberto e espontâneo das festas promovidas nas quadras da Escola e nas rodas de samba; e por último, as festas de caráter mais familiar na Esplanada, uma casa de samba cujas festas, embora mais seguras, perdem o caráter de roda de samba, uma vez que oferecem karaokê e som mecânico. Deve-se ressaltar, no entanto, que essa tipologia foi elaborada não apenas a partir do que vi e ouvi das pessoas com que conversei naquela manhã na Restinga, mas, sobretudo, a partir do discurso do diretor social da Estado Maior. Mesmo que, por ser discurso, acabe por colocar em jogo a legitimidade dessa minha breve categorização, permanece significativo ao revelar sinais da relação existente entre as Escolas de Samba e as rodas, e do papel social que cabe às Escolas frente ao público sambista. Nas palavras de Dalci "a realidade é essa... toda manifestação mais espontânea do samba acaba, às vezes, envolvendo brigas, confusão...". Percebe-se, assim, nesses espaços, a relação entre espontaneidade e violência, ao mesmo tempo em que uma maior hostilidade e coerção sobre as condutas significam importante perda em riqueza cultural.

O campo acabou se mostrando propício para a realização de meus trabalhos, no entanto, por questões de acesso e segurança, acabei abandonando a Restinga, mesmo porque ficara sabendo em seguida que poderia encontrar meu objeto de estudo muito mais perto do que eu imaginava: na Cidade Baixa, berço do carnaval afro-descendente em Porto Alegre.

A indicação da Cidade Baixa como campo rico para um estudo sobre rodas de samba veio de uma antropóloga da UFRGS, que entrei em contato em função de seus trabalhos já realizados sobre Escolas de Samba e Carnaval. Informou-me sobre o conceito de quilombos urbanos ao qual alguns territórios da Cidade Baixa haviam sido enquadrados, relação esta trabalhada por outras linhas de pesquisa em Antropologia Social na UFRGS. Haveria, inclusive, uma Escola de Samba, a Areal da Baronesa, não de grande destaque em suas atuações carnavalescas, mas certamente produto de uma região que ainda sobrevive como um foco de negritude na Zona Central de Porto Alegre. Esse foco pode ser associado principalmente à Avenida Guaranha que, segundo consta, ainda pertence à Cidade Baixa. O bairro da Cidade Baixa já me era bastante familiar, mas como centro de boemia e entretenimento noturno. A informação da existência de conglomerados negros dentro mesmo do bairro foi uma novidade. Novidade que, no entanto, não suscitou grandes surpresas, porque afinal já sabia que o local havia abrigado as primeiras manifestações do carnaval negro em Porto Alegre. Foi interessante, por isso, atravessar a parte da Cidade Baixa que já me era conhecida para chegar a cantos do bairro ainda remotos para minhas experiências. Conforme me distanciava da rua Lima e Silva, muito conhecida pelo aglomerado de bares e casas noturnas, as ruas iam perdendo a característica que até então compunha a identidade do bairro, ao menos segundo o meu imaginário.

A Avenida Luís da Guaranha é perpendicular à rua Baronesa do Gravataí, sendo que o acesso até ela, por ser uma rua sem saída, se dá somente por esta rua. Assim que dobrei a esquina, para entrar na Avenida da Guaranha, senti-me outra vez caminhando pelas vilas de classe baixa de Porto Alegre, durante a época em que fazia o Cadastro Único com famílias carentes, para auxílios do Governo Federal, na periferia da cidade. De minhas longas jornadas de trabalho nas vilas, entre todos os detalhes que me chamaram a atenção, o mais marcante ainda fora o cheiro característico e comum a todas elas - mistura de lixo, esgoto aberto. Passados quase dois anos, voltar a sentir o cheiro era no mínimo 'tocante'. Era permitir trazer da memória todas as cenas de extrema pobreza que vivenciara, era reavivar reflexões sobre a realidade nas regiões periféricas, mas era também preparar-me para a realidade com que estava preste a me deparar mais uma vez, agora em função de minha nova pesquisa sobre samba. Era como apontar indícios do contexto no qual encontraria o meu tema de pesquisa... O cheiro de fato só se fez presente no momento que pisei na Avenida da Guaranha, como se um mundo a parte estivesse se abrindo para mim, eu que vinha de fora para fins de investigação. Um mundo com aparência, cheiro, população e cultura peculiares, impossíveis de encontrar em outra parte da Cidade Baixa: eis a Avenida Guaranha!

Definitivamente, a Avenida da Guaranha consiste num beco, uma rua sem saída de no máximo 100m. Pensar a relação do nome de logradouro que lhe é atribuído - avenida - é algo que cai num interessante paradoxo. A grandiosidade e amplitude comumente atribuídas a uma avenida, evitam que se deixe de pensar num local bem desenvolvido e de funcionamento complexo; de questionar sua importância econômica, cultural ou mesmo funcional; avaliar suas largas vias como importante acesso. Ao invés disso, o que se vê é uma via estreita e sem saída, pouco sinalizada e praticamente residencial. Eventuais estabelecimentos comerciais estariam apenas para suprir a população local das necessidades básicas e imediatas. Intrigada com a questão do nome, já vislumbrando nela alvo de interessantes especulações antropológicas, foi lamentando que me dei conta de que mais uma vez não seria exatamente este o meu campo de pesquisa.

Houvera de fato toda uma tradição do samba na Guaranha e arredores, no entanto, estando de licença já há um ano, a Escola do Areal da Baronesa modificara este quadro na região, denunciando mais uma vez a ligação do samba com as atividades carnavalescas. "Um tempo tinha roda de samba aqui nos bares, mas agora não tem mais nada... a Areal fechou e terminou tudo", revelou-me D. Sônia, moradora da Avenida e ex-integrante da Escola. A licença da Escola não só significou a não participação desta nos desfiles de Carnaval da cidade, como também fez desaparecem as rodas de samba, antes muito freqüentes na Guaranha. Ou seria o próprio enfraquecimento da tradição do samba na Avenida o determinante do encerramento das atividades para o Carnaval e do sumiço das rodas? Inclusive a abertura com que D. Sônia e sua filha Simone me receberam e trataram do assunto da roda e do samba, oferecendo-me ajuda para o trabalho, inspirou certo saudosismo.

Mãe e filha foram muito solícitas, dando-me informações e prontificando-se para me acompanhar em outras saídas de campo, atrás de uma roda de verdade. Imediatamente citaram a Banda Itinerante como referencial de rodas: "Ali sim tu encontra uma roda de samba de verdade". Essa banda já fora citada pela antropóloga com que conversara alguns dias antes, no entanto, não me parecera muito compatível com o tipo de roda que procurava. No meu imaginário, o título de banda fugia um pouco da elaboração informal de uma roda. Pois sendo indicada por uma segunda vez, fui convencida a me render a tal roda institucionalizada.

4. Banda Itinerante - um caso de samba

4.1. "Não deixe o samba morrer"

A Banda Itinerante surgiu em abril de 1997 na quadra de ensaios da Escola de Samba Bambas da Orgia, a partir da iniciativa de Irajá Almeida Guterres, hoje falecido. Segundo o atual presidente da Banda, Seu Saturnino (que assumiu após falecimento do fundador e até então presidente Irajá), a idéia de formar a Banda surgiu quando Irajá, em viagem para o Rio de Janeiro, "assistiu aquilo que de mais belo tinha, o samba, o samba brasileiro". Entusiasmado com a tradição do samba existente no Rio, animou-se a reproduzir algo semelhante em terras gaúchas. Logo ao voltar para Porto Alegre, reunindo-se com seu grupo de 8 amigos numa roda de bar, foi marcado que se encontrariam naquela mesma semana na quadra da Escola de Samba Bambas da Orgia, a fim de uma experiência de roda de samba. Reunindo um público de aproximadamente 500 pessoas, a roda de samba inaugural ocorrera como atração de uma das várias festas promovidas na quadra da Escola. Segundo Guterres (1996), o mês de abril faz parte da etapa de pré-carnaval dentro de um ciclo ritual carnavalesco, etapa na qual as atividades das escolas de samba começam a ser lentamente retomadas e a diretoria já se preocupa com a arrecadação de fundos para a realização do desfile do Carnaval seguinte. Deduz-se, portanto, que a primeira festa a contar com a Banda Itinerante como atração tenha sido dessa natureza.

Frente ao sucesso de uma primeira experiência, novos encontros foram agendados, a cada sábado na quadra de ensaios de uma Escola de Samba diferente, no que a Banda comprometia-se em animar as festas durante o ano todo - períodos de pré-carnaval (que é o mais longo e cuja necessidade de festas é maior), como também de carnaval e de pós-carnaval. (GUTERRES, 1996). A partir daí, começaram a agendar com todas as Escolas de Samba que demonstrassem interesse, que na época totalizavam um número de 37, assumindo seu caráter itinerante que lhe deu origem ao nome.

"Por que Itinerante? Que é uma banda que ela não convive só num lugar... ela vai trazer alegria, oportunar às escolas que elas somem o seu dinheirinho, né... que elas possam botar uma fantasia no carnaval (...) nosso serviço qualé...é ir em encontro àqueles povos que não tem condições pra pagar um ingresso pra se divertir (...) é aquele lazer que nós proporcionamos... a única finalidade é trazer alegria, então esse é o início da Banda Itinerante". (Seu Saturnino, presidente da Banda Itinerante).

A condição itinerante da Banda acabava por dificultar que o público acompanhasse assiduamente as rodas. Havia sempre a preocupação de descobrir onde ela estaria tocando a cada sábado, demanda que foi suprida há não muito tempo atrás pelo jornal popular Diário Gaúcho, que passou a publicar todas as quintas-feiras, na coluna de Renato Dornelles, a programação, informando o local onde a Banda Itinerante estaria a cada final de semana.

Embora itinerante, a Banda possui uma sede, atualmente provisória, na Rua Águas Mortas, no Bairro Medianeira, na Zona Sul da cidade. Foi em função da exigência de que a Banda Itinerante se organizasse como sociedade que surgiu a demanda por uma sede e aquisição de um patrimônio, registrando-se em cartório como Sociedade Recreativa Beneficente e Cultural Banda Itinerante, com diretoria estruturada, composta basicamente pelo grupo de fundadores. No entanto, apesar da burocracia que lhes foi exigida, os integrantes da Banda garantem que "a banda é isso aqui, ó", referindo-se a todo público que comparecia às rodas. Ou seja, segundo eles, a formação de uma diretoria na Banda não compromete seu caráter de aberto ao público. Existe, no entanto, a Sociedade, que conta com cerca de 60 associados, dos quais alguns participam assiduamente das rodas. Além disso, existe também um projeto de sociedade cultural para a Itinerante, no que seriam oferecidas oficinas de samba e percussão e a cultura do samba difundida: "Não é uma Escola de Carnaval, é uma sociedade de samba, para a cultura do samba".

A relação que a Banda tem com as escolas de samba baseia-se em parcerias: a diretoria da Escola anfitriã encarrega-se pela compra da carne para o churrasco ao meio-dia, enquanto que a Banda se responsabiliza em fazer a música. O lucro que as Escolas obtêm com a festa, uma vez que não cobram ingresso, é oriundo da copa, lucro que será revertido aos preparativos para os desfiles de Carnaval.

Meu primeiro contato com a roda de samba da Itinerante ocorreu na quadra de ensaios da Império da Zona Norte, localizada na Avenida Sertório. No entanto, por ter chegado ao local apenas no final do dia, é preciso unir o relato deste dia ao de outro, quando acompanhei a Banda Itinerante até a Escola Praieira, em Novo Hamburgo, pois o momento ritual no qual consiste uma roda de samba não se restringe à festa lotada pelo público local a partir do anoitecer, mas a um programa de um dia inteiro: desde o encontro na sede pela manhã, passando pelo churrasco ao meio dia, até a roda em si. Tomando a liberdade de desobedecer à ordem cronológica de acontecimento dos fatos, prefiro construir o relato do que seria um momento ritual de roda de samba a partir dos momentos apreendidos, conforme vão se tornando representativos. A roda de samba se constitui como ritual uma vez que consiste num momento coletivo e de comunhão, integrando e criando uma totalidade, mas também por valer-se da ritualização como instrumento que permite maior clareza às mensagens sociais de eventos considerados especiais. (DA MATTA, 1981).

A fim de abarcar a etapa preliminar da roda, é preciso resgatar a experiência de campo junto à Banda Itinerante na quadra de ensaios da Praieira, em Novo Hamburgo. Em dias que a roda é realizada em Escolas mais distantes ou fora de Porto Alegre, dispõem-se de um ônibus para levar o grupo ao local. Portanto, dessa vez a saída estava marcada para as 10 horas da manhã, em frente à sede da Itinerante. No entanto, no horário combinado, a sede ainda se encontrava fechada e só duas pessoas (mãe e filha), que não faziam parte da Sociedade, aguardavam ansiosas pela sua primeira saída com a Banda. Aos poucos outras pessoas - a maioria delas uniformizada - foram chegando, enquanto que o ônibus também estacionava em frente à sede. Mas foi só com a chegada do casal presidente, Seu Saturnino e Dona Eni, que a sede foi aberta para que todos pudessem entrar e fazer um xixi. O casal cumprimenta a todos carinhosamente e "faz as honras da casa". O burburinho é diretamente proporcional ao número de pessoas que aos poucos vai se concentrando em torno da sede, em frente e dentro. Mulheres conversam, comentam algum caso, todas munidas de sacolas, do tipo excursão de um dia. Assim que avistei o casal de presidentes fui cumprimentá-los: "Que bom que tu veio!", foi o cumprimento de Dona Eni, acompanhado de três beijos nas faces.

A concentração na sede antes da partida é dedicada, sobretudo, para que aqueles que vão junto paguem o valor que cobre a carne do churrasco e a passagem do ônibus. Neste dia, o valor para não-sócios fora de 8 reais, enquanto que os sócios, por terem desconto, pagavam 6. Ana Paula e seu namorado, que se destacam por serem uns dos poucos jovens no grupo, é que cuidam do recebimento do dinheiro. É neste momento ainda que todo o equipamento de som e os instrumentos necessários são depositados no bagageiro do ônibus, o que acaba por tomar um tempo considerável. Paralelamente, aqueles que não estão ocupados com nenhuma das duas tarefas, tecem comentários e jogam conversa fora. Comentam rodas e shows anteriores, atualizam as últimas fofocas. A fluidez e jocosidade nas conversas revelam proximidade e intimidade entre as pessoas, e poucas são as que não se integram em alguma das rodinhas de conversa. É interessante observar como a roda acaba por se mostrar como espaço de comunhão por excelência, seja para fazer samba ou apenas para conversar e contar piadas. Aparentemente todo mundo se conhece: Ana Paula me pergunta "com quem veio?", denunciando a existência de uma rede de parentesco e amizades entre o grupo que participa desses dias de roda. Embora sendo um grupo coeso e familiarizado, o fato de haver uma pessoa estranha no meio não aparenta estranhamento, mas cumprimentam-me aberta e cordialmente. Alguns até perguntaram sobre mim, sobre o que estava fazendo por lá. "Só não pode contar as fofocas...!", foi a reação espirituosa de um deles ao ouvir sobre o meu trabalho.

A sede da Banda Itinerante tem, de fato, uma aparência de provisória. As paredes de tijolos sem reboco, nem pintura, divisórias improvisadas com tábuas. Por dentro, a sede tem a aparência de um bar: mesas e cadeiras dispostas harmoniosamente por todo o espaço, aparelhos de som, freezers, uma pequena cozinha improvisada num canto. Há cartazes nas paredes, alguns de avisos de aulas de percussão, divulgação de eventos, frases em nome do espírito coletivo.

A saída se deu com mais de uma hora de atraso, mas ninguém parecia preocupado... Provável que já fosse usual. Assim que o ônibus dá a partida, um pandeiro começa a soar. A viagem passa a impressão de ser um programa bem família: casais sentados juntos - os músicos e suas mulheres -, crianças acompanhadas de suas mães, conversas tranqüilas, cerveja e batidas passando de mão em mão, enquanto que no fundo do ônibus se escuta o sambinha. Se tivesse que etnografar de olhos fechados, poderia resumir este ambiente no ônibus mencionando a batida do samba, florida pelo burburinho das conversas.

A chegada na Praieira foi cerimoniosamente recebida pelos praieiros. Segue-se a organização das mesas para que todos possam se instalar. Uma mesa central, bem grande, já fora previamente organizada para a posterior realização da roda. Imediatamente rodas de conversa já se formam, no que cerveja vai sendo consumida, enquanto se prepara o churrasco e instalam-se os equipamentos de som. "Vocês que são brancos que se entendam", fala Ana Paula ironicamente para o grupo de negros que fazia confusão na instalação do som.

O churrasco demora a ficar pronto, mas a todos isso não parece importar, entretidos nas conversas - falam alto e de forma bem humorada, riem muito. É por volta das 14 horas que o almoço é servido: uma boa variedade de saladas, arroz e maionese são dispostos em forma de buffet assim que o assador anuncia que a carne ficou pronta. Imediatamente cada um deixa de fazer aquilo com o que se ocupara até então, para iniciar com entusiasmo a sua refeição. Interessante observar como o momento da refeição foi praticamente o único em que se fez silêncio na quadra: pelo visto todos tinham, naquele momento, coisa melhor por fazer do que simplesmente conversar, embora a conversa fosse algo muito apreciado no grupo. O almoço, por sua vez, dá espaço a um silêncio mais peculiar: é a hora da cesta - alguns se deitam pela grama, estendem-se em cadeiras, apóiam cotovelos sobre as mesas a fim de segurar o corpo que agora pesa, e as conversas respeitam o momento de digestão tornando-se calmas e esparsas. No entanto permanece o clima descontraído no ambiente, regado à cerveja e conversa furada, enquanto os ânimos vão se recompondo.

Por volta das 16 horas, os instrumentos já afinados, regulados e dispostos sobre a mesa central, são empunhados para um breve aquecimento, uma amostra grátis para a menina que ta fazendo o trabalho que tinha que ir embora mais cedo. No entanto, estendendo-me ainda em campo, chego a presenciar o início da roda de samba, um pouco antes do relógio bater 18 horas. Tanto a amostra grátis quanto o início oficial da roda reuniram todos os músicos até então presentes. Cavaquinhos, violões, pandeiro, caxixi, tantan, saxofone, trombone, cuíca, xiquexoque, além do canto e de outros instrumentos de percussão que não ouso tentar dizer o nome, compunham a roda, que executava nomes famosos do samba de raiz.

Não pude estar presente no resto do dia de roda na quadra da Praieira, no entanto, o horário que abandonei aquele ambiente de samba neste dia coincide com o de minha chegada, no sábado anterior, à quadra de ensaios da Império da Zona Norte. A partir do momento em desci na parada de ônibus para me dirigir até a quadra da Império, pude escutar o samba sonorizando a vasta Avenida Sertório. Alguma concentração de pessoas já havia na quadra, além da Banda Itinerante, que ocupava novamente uma grande mesa montada no centro da quadra. Passara o dia lendo a dissertação de mestrado de Liliane Guterres (1996), na qual que ela faz um estudo de caso sobre o Grupo Carnavalesco Imperadores do Samba. A leitura prévia certamente fora muito útil para me inserir naquele contexto de samba pré-carnavalesco, como antes mencionado. Estava um pouco tensa ao entrar, mas logo percebi, pela cordialidade com que me receberam na entrada e pelo vai e vem de pessoas, que a roda de fato é aberta a todo e qualquer tipo de público. Inclusive as festas promovidas nas quadras das Escolas o são. Não existe rivalidade latente nesses eventos, aparecendo gente de todas as escolas. Acompanhando essa mesma lógica, a própria Banda Itinerante é composta por integrantes de diversas escolas.

Logo ao entrar, fui abordada por Pedro, sujeito negro como a grande maioria, presidente da Escola União da Restinga, a Tinguinha, não integrante da Banda, mas apreciador de rodas. Foi ele que me deu as primeiras orientações sobre as rodas de samba da Itinerante e me apresentou para alguns de seus integrantes. Achava, no entanto, que eu queria fazer trabalho sobre o Carnaval, e direcionou sua conversa muito mais para nomes importantes do Carnaval de Porto Alegre do que das rodas em si. Percebendo que estava um pouco deslocada, dirigia-me frases típicas da cordialidade do negro carnavalesco: "tu vai te entrosar", "pode ficar à vontade".

Pedro foi me apresentando, um por um, alguns integrantes da Banda Itinerante, conforme estes paravam um pouco de tocar, para dar uma circulada ou descansar. A dinâmica da roda é bem essa, o grupo permanece tocando, mas sempre há algum integrante que se separa da roda a fim de conversar com os demais presentes, comprar uma cerveja, comer do churrasco que, em pedaços, continua sendo servido para beliscadas. Os mais velhos vão revezando de instrumentos. A grande maioria está há anos inserida no meio carnavalesco e toca de tudo, praticamente. Pedro me apresentava a estes como "minha amiga aqui, que tá fazendo um trabalho sobre a Banda". Todos se dispuseram para conversar um pouco, alguns permitiram que gravasse, contando sobre suas atuações, a história da Banda, etc. Como antes mencionara, as entrevistas foram importante fator de inserção, a partir das quais eu me apresentei ao grupo como a estudante que queria fazer um trabalho sobre roda de samba. Era preciso gritar para se comunicar, o que complicou um pouco a realização e a gravação das entrevistas. Mas ouvindo posteriormente as entrevistas, os efeitos sonoros provocados pela roda de samba ao fundo na gravação cumprem o papel de ambientar adequadamente o campo.

Constituem a roda algumas mesas que formam a grande mesa central, onde se depositam copos de cerveja, garrafas de bebida e pratos com churrasco, mais o grupo de músicos sentado em volta. É nesse clima de churrasco e cerveja que a roda vinha desde cedo, e ia tomando corpo conforme apareciam novos instrumentistas e afins. A roda não possui número fixo de componentes - Dona Eni, por exemplo, juntava-se vez ou outra à roda e tocava timidamente um chocalho (que mais tarde fiquei sabendo tratar-se de um xiquexoque) - todos enfatizam que a roda é aberta e que conta com a espontaneidade de cada um para contribuir com um cavaco, um pandeiro ou mesmo com sua voz. No entanto preferem instrumentos de corda, para evitar o barulho causado pelo excesso de instrumentos de percussão. Durante um tempo, ainda exigia-se pela Banda que não houvesse amplificadores de som, mas conforme as rodas foram tomando proporções maiores que antes imaginadas, a demanda teve de ser atendida. Um único microfone vinha sendo revezado para fazer sobressair a voz do cantor, enquanto que os demais, instrumentistas ou não, acompanhavam a letra, provavelmente não com o intuito de se fazerem ouvir, mas embalados pelo samba que ajudavam a arranjar. Às vezes fazem-se intervalos de poucos minutos entre uma música e outra; são paradinhas para goles de cerveja e beliscadas no churrasco. Tentava identificar quais seriam os sinais para começar e parar uma determinada música. Há ensaio e alguma combinação prévia entre os músicos ou é a experiência e a capacidade de improviso que os orienta?

Até aquele momento o público se constituía principalmente de gente jovem, a maioria homens; havia poucas mulheres e alguns casais ou duplas de amigas, mães com filhos pequenos tornavam o ambiente mais familiar. O público fica em volta, não dança, só conversa e aprecia a roda de samba, auditiva e visualmente. Na roda tocam-se sambas conhecidos, "a Banda é uma reunião de sambistas que gostam de samba de raiz". Os sambas são empolgantes - de repente me dei conta de que estava eu também a bater o pé para acompanhar o andamento - lembrando do que Pedro me dissera "é que nem cachaça... depois que experimenta não larga mais".

Começa a escurecer e aos poucos o público começa a chegar. "Nós temos um público, no mínimo, de 700 pessoas, aí vai pra 2000...vai pra 3000...se torna em torno disso aí..." Reconhecem, no entanto, que a roda é um programa de entretenimento de fim de tarde e início de noite, aquecimento para baile: "o pessoal vem, fica até mais ou menos meia noite e depois vai pra festa que quiser ou pra onde quiser". Alguns chegam em grupos, outros sozinhos para encontrar-se com conhecidos, preenchendo as lacunas que o público, salpicando a quadra, deixa em torno do que lhes chama a atenção. Comentários do tipo "tá vazio, tá vazio", permitem-me recorrer à idéia trazida por Guterres (1996), de que "festa boa é festa cheia". No entanto, por volta de 20h, a lotação já chegava a um ponto em que o público se diversificava, revelando sua riqueza de estilos, rostos e tipos humanos. Composto principalmente por negros, alguns poucos brancos evitavam que eu fosse a única de pele clara na quadra. Crianças brincando e as respectivas mães reprimindo; a mulherada emperiquitada, reunida em grupos pelos cantos da quadra; um sujeito de pé junto à roda acompanhando na palma o ritmo do samba, como que simulando um pandeiro, enquanto que outros o fazem nas pernas; há também aqueles que tentam uns passinhos tímidos sem sair do lugar. Eu mesma, tão preocupada em abster-me de manifestações emotivas em função de minha situação de pesquisadora, acabo acompanhando a música, tamborilando com os dedos na cadeira, deixando ecoar seu som metálico ao ritmo do samba. Sinais típicos da interação do público com a banda tornam inteligível a existência de propósitos que convergem. Assim como os propósitos, convergem também as atenções daqueles que constituem o público, e em função destas, seus corpos: ao redor da roda de samba, uma grande roda se forma numa disposição de teatro de arena, exigindo que se repensem e se reconstruam conceitos frente a uma roda que se expande; tudo gira em torno do samba, e junto dele o seu fazer coletivo.

O público cresce gradualmente, assim como a empolgação. Erguem-se os braços no embalo do samba, dança-se com as mãos e acompanha-se a música com o corpo. Mas apenas uma moça começa a dançar de forma bem desinibida, sozinha mesmo, cheia de ritmo e ginga! É esta que identifico como a fase liminar do momento ritual de roda de samba, quando, fundados na idéia de espontaneidade e descentralização, a roda reforça o seu sentido de festa. Para Da Matta (1981), a festa consiste em momentos extraordinários marcados pela alegria e por valores que são considerados altamente positivos, em contraposição à rotina da vida diária, que é vista como negativa, é reprimida pelas hierarquias de poder. A roda aqui é vista como ponto-limite da informalidade, um momento de neutralização de papéis sociais, de dissolução de regras. Alguns dos diretores defendem, durante os preparativos para as rodas e organização da Sociedade, que precisa haver profissionalismo em relação à Banda, no entanto, exaltados pelo momento clímax da roda, afirmam que "Aqui a gente trabalha brincando" .

Por um instante a música cessou para um momento de recados gerais sobre shows e próximas rodas, assim como para piadas, saudações e homenagens. Já houvera momentos breves para comunicados de "utilidade pública" anteriormente, mas este agora era o momento oficial. Fizeram homenagem "aos irmãos paulistas" que estavam àquela noite presentes e fizeram também uma menção a mim: "Está presente também uma menina que está fazendo seu trabalho para a faculdade... sobre a Banda Itinerante, como exemplo da música popular brasileira". Sentiam-se honrados. Este seu discurso condizia, sobretudo, com o projeto cultural da Banda, antes mencionado por algum dos diretores em momento de entrevista. Com esta menção me tornei de repente conhecida por toda a grande roda, saindo da minha condição de anonimato e "invisibilidade". Passei a ser observada e a bailarina que antes mencionei e que até aquele instante não parara de dançar (e que depois também não pararia), veio falar comigo "Meu nome é difícil... Terrimar... bailarina!! Já viu quem não bebe e não fuma e só dança?! É difícil, né?!". Perguntou o que eu cursava na faculdade e disse, com orgulho, que estava se formando. "Se Deus quiser" também iria fazer faculdade, de Assistência Social.

Já era tarde e precisava voltar para casa, embora a festa ainda estivesse a todo vapor. Foi ao som do Brasileirinho que me dirigi para a saída da quadra, tendo em mente o lema da Banda, bordado nos uniformes: "NÃO DEIXE O SAMBA MORRER". Lema compatível ao que presenciara nas rodas e aos discursos proferidos, que reproduz o espírito de um grupo de velha guarda carnavalesca e seus ideais de manter viva na Grande Porto Alegre a tradição do samba.

4.2. Enfim, uma problematização...

Frente à forma institucionalizada de roda de samba que me aparecera a partir do estudo de caso, a Sociedade Recreativa Beneficente e Cultural Banda Itinerante, novas questões me apareceram e assim uma problemática mais bem formulada pôde ser colocada. O que fez com que a roda de samba, que tem como lógica inerente a espontaneidade e informalidade na sua dinâmica aberta e mutável, acabasse limitando-se e constituindo-se como sociedade, até denominar-se, em suas atividades de roda, como banda? Uma vez que o fator aglutinante já lhe é intrínseco, como se daria esse movimento de delimitação da roda e qual o significado deste para as práticas e representações próprias à Banda Itinerante, levando em conta sua identidade?

4.3. Uma grande família itinerante

Desde o meu primeiro contato com a Banda Itinerante, na roda de samba realizada na quadra da Império da Zona Norte, questionava-me sobre a identidade daquele grupo de sambistas. Logo percebi que havia uma ligação total com o Carnaval, porém esta ligação não pode ser vista como diretamente determinante. A relação de seus integrantes com o Carnaval é regra, ou seja, todos participam de alguma escola de samba de Porto Alegre ou dos municípios arredores, como diretores, mestres de bateria, presidentes, tesoureiros, etc. Porém a partir de um resgate histórico da Banda, apreende-se que antes da criação desta houvera a constituição de um grupo de amigos, este sim formado em meio carnavalesco. A Banda, portanto, não necessariamente agrega os melhores do Carnaval porto-alegrense, na qual todos convergem para um fim único, que seria o de compor a Banda. Em outras palavras, ser da Banda não significa ser carnavalesco, nem vice-versa, mas ser da Banda significa compartilhar de uma mesma identidade, práticas e representações com velhos amigos de Carnaval.

Conseqüentemente, a lógica presente na Sociedade acompanha a dos laços fraternais presentes desde a formação da Banda Itinerante. Passar um dia de roda com o grupo significa inserir-se num corpo coeso e fortemente marcado por relações de parentesco e amizade. "A Itinerante é uma família", porém é uma família que não se mostra fechada para a entrada de novas pessoas, mas recebe a todos abertamente, despendendo esforço para que "quem vem já se enturma". É interessante observar, no entanto, que apesar de não ser algo raro que novas pessoas se juntem ao grupo, a entrada delas é acompanhada de perguntas como "com que tu veio?", "tu é amigo de quem?", procurando-se relacionar a vinda dos novatos a outras pessoas já pertencentes, justificando, assim, a sua inserção. Apesar da abertura que a Sociedade e a Banda oferecem ao público, a prática não condiz completamente ao discurso. Não que a prática acabe em repressão à entrada do público em geral, mas a rede de significações e de relações se dá de forma tão pessoal, que automaticamente boicotam-se eventuais fatores de impessoalidade e entrada de pessoas "estranhas", mais em função de quem está de fora do que de quem está dentro. A identidade do grupo vai além da negritude e do Carnaval.

"A Itinerante é uma família", afirma Saturnino, mencionando o caráter solidário que permeia as relações no grupo: "A gente se ajuda, um cuida do outro... em caso de assaltos, com problemas familiares... Casos de alcoolismo também são controlados... a gente conhece as fera!...a gente se conhece, se ajuda mutuamente, dá dicas... mas também se deixar eles tomam conta, não pode deixar", diz, referindo-se à sua tarefa de controlar um pouco o tumulto. Tarefa esta que me remete às rodas organizadas pela Escola de Samba na Restinga, na qual tenta-se articular a espontaneidade da festa ao controle da violência. O presidente da Banda Itinerante teria o mesmo papel, embora em menor grau em função do espírito familiar do grupo.

5. Referencial teórico

A roda de samba em si pode ser analisada como um momento ritual. Para Da Matta (1981), um momento ritual se caracteriza como um momento de comunhão entre indivíduos que compartilham de mesma sociabilidade, sendo que a noção de sociabilidade traduz a idéia trazida por Simmel em Guterres (1996), como fenômeno através do qual indivíduos se agrupam em unidades de acordo com seus interesses. Além disso, a roda de samba também se constituiu como um momento ritualístico por pôr em foco um elemento ou uma relação considerados especiais. Sendo considerada como uma festa na qual e pela qual se faz o samba, a roda admite um valor em si, destruindo com toda e qualquer regulamentação, uma vez que se reforça o sentimento coletivo.

A roda admite as etapas de um ritual: a fase pré-liminar que vai desde a concentração do grupo na sede da Banda ou na quadra de ensaios das Escolas, passando pelo churrasco, até o momento em que a roda se forma e começa a tocar; a fase liminar que representa o auge da roda de samba, seu momento clímax, de máxima exaltação; e por último, a fase pós-liminar, que embora eu não tenha presenciado em campo, supõe-se que abranja o início lento e gradual de dispersão do público e dos componentes da roda, até o término do evento. Contudo, é no momento liminar que as idéias de espontaneidade, despersonalização, descentralização e neutralização das regras se reforçam. Afinal, porque "Aqui a gente trabalha brincando". Reforçando, também, o sentido atribuído à festa como um momento extraordinário, marcado pela alegria e por valores considerados positivos, em contraposição à visão negativa que se tem sobre a rotina da vida diária. (DA MATTA, 1981).

Por último, a grande família na qual consiste a Sociedade Recreativa Beneficente e Cultural Banda Itinerante pode ser analisada a partir da noção de comunidade de Oliven, apropriada por Guterres (1996), uma vez que mantém relações sociais específicas e uma forma de sociabilidade singular, mantendo uma identidade construída a partir de sinais carnavalescos, de negritude e de relações pessoais específicas, que conferem ao grupo uma marca de distinção, moldadas a partir das vivências cotidianas.

6. Conclusão

O momento ritual de roda de samba, como produto e espaço de reprodução da tradição do samba, encontra-se hoje em dia em ligação estreita com a atividade carnavalesca, sendo desenvolvida em espaços onde se socializa a cultura do Carnaval negro.

A Banda Itinerante, por sua vez, relacionando-se também à atividade carnavalesca, transcende essa esfera para residir no campo das relações pessoais. Valendo-se da execução do samba em roda, representa uma atividade de lazer e convívio social e artístico para os seus integrantes. Composto majoritariamente por aposentados, não significa em absoluto alguma atividade lucrativa, uma vez que tem como motivação principal "Não deixar o samba morrer". Ao mesmo tempo, assume um papel social no meio carnavalesco, que é o de animar as festas promovidas pelas Escolas de Samba.

7. Bibliografia

- GUTERRES, Liliane. "Sou Imperador até morrer", um estudo de caso sobre identidade, tempo e sociabilidade em uma Escola de Samba de Porto Alegre. PPGAS - 1996.

- DA MATTA, Roberto. Carnavais, Malandros e Heróis. Para um sociologia do dilema brasileiro. 3ª edição. Ed. Zahar. Rio de Janeiro. 1981.

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