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JORGE CARDOSO TRIO NO SESC BRASÍLIA

Por João Randolfo Pontes

 

O SESC 504 Sul, em Brasília, nos brindou no dia 27 de novembro de 2002 com uma bela e rica apresentação da música instrumental. Ao som de bandolim, violão de 7 cordas, cavaquinho e percussão, o Jorge Cardoso Trio mostrou o que os homens podem fazer: construir, enriquecer, melhorar, criar e projetar em suas mentes algo sublime.

O Universo está sintonizado na nota lá, segundo dizem alguns físicos. No compasso do Criador, a música equilibra mentes e corações e torna presente a possibilidade de que nossos espíritos possam ser aperfeiçoados, modulando de forma sincopada o nosso caráter.

Este show, simples na sua apresentação e essência, foi de uma riqueza imensa e inigualável. Som puro, sem grandes sofisticações tecnológicas, mas de uma competência técnica e sentimental extraordinária. A platéia não escondeu sua satisfação ao ver artistas de nível tão elevado, capazes de se apresentarem em qualquer teatro do mundo. Jorge é uma pessoa afável e simpática. Acolhedor, carinhoso e também cuidadoso naquilo que fala, tem o cuidado de contar as histórias sem as aumentar, evitando fazer críticas ao comportamento dos compositores. Reproduz um som limpo, perfeito e dentro dos compassos que integram cada melodia, capaz de tirar das bocas das pessoas uma frase que nos encanta: “é um gênio naquilo que faz”.

Quem foi convidado e não pôde ir, certamente, deixou de apreciar o brilhantismo desse trio. Muitos de nós saímos de lá pensando assim: “Como pode o Brasil não valorizar estes talentos? Quais as razões nos levam a receber um talento desse porte e ter um teatro com pouco mais de 40 pessoas?” Por essa razão é que deixei de tocar o bandolim, tem gente boa demais.

Claro, se fôssemos fazer uma crítica do ponto de vista da ciência e da literatura musical, ouvindo cada um que ali esteve presente, certamente, uma ou outra música, mereceria aperfeiçoamentos nos arranjos. Não que as pessoas não gostassem do que foi apresentado, mas a perfeição não é atingida pelos homens, razão pela qual somos levados sempre a introduzir melhorias contínuas em nossas vidas.

Jacob do Bandolim e Waldir Azevedo, os homenageados da noite, se sentiram no direito de estarem ali presentes espiritualmente, para ouvirem tamanha competência e bom gosto na execução das peças. As músicas produzidas por estes dois exímios compositores e instrumentistas ficarão para sempre na história da música brasileira e do mundo. Criativos e ricos na imaginação, construíram belas músicas, peças que podem ser tocadas e/ou sofrer arranjos de toda natureza. “Vibrações” (Jacob), “Noites Cariocas” (Jacob), “Carioquinha” (Waldir), “Brasileirinho” (Waldir), “Assanhado” (Jacob) e “Vascaíno” (Jacob), dentre outras, mostram a capacidade de trabalho desses dois brasileiros que fizeram com que parte de nossa cultura fosse conhecida, inclusive no exterior.

Evidentemente que o choro deve evoluir na sua forma, na sua criação e nos arranjos. Algumas peças que exigem alta velocidade podem, por exemplo, sofrer a interferência ou influência das improvisações que se fazem no jazz. Claro, algumas músicas também podem ter arranjos diferentes do que conhecemos. Em alguns momentos, o violão 7 cordas, não cria ou enriquece a melodia, mas apenas reproduz uma mesma estrutura de contrapontos. Tocar simples é mais difícil e mais oneroso para o músico. A simplicidade traz a riqueza e oferece uma maior transparência do que o autor está querendo realizar. Escrever uma peça não é uma tarefa fácil e executá-la pode ser mais difícil ainda. Em algumas músicas deveríamos nos ater ao fundamento básico de como ela foi projetada. Em outras palavras, sem uma arquitetura mais profunda, ela se torna frágil e cai no esquecimento.

O ditado popular diz que “quem tem competência executa e quem não tem comenta”. Parece ser mais fácil usar da pena e da gramática para criticar ou comentar algo, do que executar uma peça como “Assanhado”, “Brasileirinho”, “Espinha de Bacalhau” (Severino Araújo) e “Balançadinho” (Jorge Cardoso). Aliás, este choro do Jorge, ganhador do prêmio no Festival de Choro do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, em 2001, é uma obra-prima que poucos instrumentistas terão a ousadia de tocar. Na execução do Jorge, a gente observa um grande conhecimento das escalas, do braço do bandolim e da harmonia certa. Um primor. Nada a acrescentar. Não existe nota para este tipo de talento. Ele é. Apenas isso. Simplesmente é Jorge Cardoso.

Ao Jorge e os companheiros que integram o trio, parabéns pelo bom gosto, pela seleção das músicas e pelo talento. Deus sabe compensar aqueles que se dedicam de corpo e alma àquilo que Ele deu oportunidade. Cabe, porém, ao homem escolher o seu próprio destino e buscar as oportunidades que a vida lhe proporciona. Quanto ao Mazzioti, fiquei surpreso também. Foi a primeira vez que o vi e ouvi. Voz belíssima, calmo, ponderado e grande incentivador da MPB e da vida dos homens em sociedade. Parabéns pelo trabalho, pela singeleza como apresentador ou comentarista. Não precisa mais do que isso: simplicidade.

Uma palavra final fica para a produção artística do SESC que teve um papel fundamental na qualidade deste show e para a platéia que teve um comportamento educado, alegre e de alto astral. Uma boa infra-estrutura, organização, atendimento personalizado e publicação eficiente fizeram deste conjunto de trabalho uma peça de sucesso que deveria ser levada para todo o Brasil. Espero ter a oportunidade de ver, por mais vezes, músicos com este talento.

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