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KARINE CUNHA: FLUIDA

Por Fabio Gomes

 

A cantora e compositora Karine Cunha comemorou o final das gravações do seu primeiro CD, Fluida, com nova apresentação do show de mesmo nome na Livraria Cultura (Porto Alegre), em 30 de abril de 2005. Neste caso, é melhor mesmo dizer nova em vez de mais uma, pois toda vez que vai realizá-lo Karine promove mudanças (para melhor). A mudança mais perceptível foi a estréia, nesse dia, do baterista Nenê, completando a banda que já contava com Marcus Bonilla (violão), Alexandre Vieira (baixo), Alexsandra Amaral (percussão) e a própria Karine alternando violão e cavaquinho.

Outra mudança que se nota com facilidade é no repertório. Quem, como eu, tem a felicidade de poder acompanhar a carreira de Karine sabe que pode ir tranqüilamente a vários shows dela num curto espaço de tempo, pois a possibilidade de ouvir exatamente as mesmas músicas é quase nula. Para se ter uma idéia: apenas 6 das músicas apresentadas na Cultura faziam parte do show de 14 de março de 2004, no Teatro de Arena (Porto Alegre). É fato, a produção da compositora Karine é espantosa, não só em quantidade (há quem diga que ela compõe uma música nova por dia!), mas também em qualidade - e diversidade. Do samba ao rock, passando por baião, pop e outras milongas mais (literalmente). (Tem outro tipo de mudança que será abordada oportunamente.)

Pois foi justamente com uma milonga recém-composta que Karine abriu o show da Cultura, acompanhando-se ao violão em "Milonga do Chegar", na qual empregou o recurso de bocca chiusa. Em seguida, emendou com a única música de outro autor que cantou nesse dia, "Joanna Francesa" (Chico Buarque)(tá certo, já que era pra abrir uma exceção, havia mesmo que escolher bem!). A letra, que alterna português e francês, encerra com o verso "Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda", que Karine valorizou cenicamente bocejando no último "acorda" e reclinando a cabeça para o lado.

Sem dormir no ponto, apresentou em seguida a bela "Cunhãs", em que consegue enumerar dezenas e dezenas (ou talvez mais de uma centena) de nomes de mulher de forma muito agradável e totalmente integrada à melodia. Boa parte dos nomes citados são em acordes de preparação, o que ajuda a criar uma expectativa pelo desenvolvimento da canção. Acredito que também seja uma forma da autora valorizar a condição feminina, pois está colocando todas essas mulheres citadas para cima. (Sim, "Karine" é um dos nomes incluídos.)

(Um parêntese: outra música de Karine, "É o Peixe", também tem enumeração, apresentada porém numa parte falada em meio à música. A solução em "Cunhãs" me agrada mais.)

Chamando a percussionista Alexsandra ao palco, Karine apresentou dois sambas. O primeiro, "Expresso", é uma espécie de "jingle" de café. O violão em geral foi mais percussivo que o agogô, que se limitou a dar um colorido discreto no som. Em determinado momento, Karine imitou uma cafeteira. O segundo, "Não Tem pra Ninguém", é um sambão-declaração-de-amor, que contou no Karine ao cavaquinho e Alexsandra ao pandeiro. O final das estrofes contava com um suspiro da cantora, valorizado por pausa do pandeiro.

Voltando ao violão, Karine convocou Marcus e Alexandre ao palco e o show prosseguiu com o baião-rock "Biju, Balangandã". Mesmo as passagens "rock" mantinham uma sonoridade nordestina. Marcus tocou triângulo e Alexsandra cajón, enquanto Karine puxou palmas de capoeira do público ao final da música.

Chegou o momento de falar do outro tipo de mudança: as modificações sutis nos arranjos. A bela canção "Fogueira" recebeu umas pitadinhas de pop no andamento. Karine interpretou esta que é uma de suas mais belas composições com voz clara e bem projetada, enquanto Marcus passava a empunhar o violão e Alexsandra alternou-se no molho de chaves, cajón e pandeiro (este, a maior parte do tempo). Curiosamente o pandeiro manteve um ritmo constante, não acompanhando a aceleração do andamento no final, quando Karine chegou a bater no tampo do violão.

Em "Canção Aportada", Karine não tocou violão. Ela iniciou cantando mais contida, tendo apenas Marcus no acompanhamento; quando soltou a voz, entrou Alexandre, e dali a pouco Alexsandra no cajón. O solo de Marcus teve um belo contraponto dos outros instrumentistas. Na segunda parte, Karine soltou ainda mais a voz e fraseou lindamente.

Karine voltou a empunhar o violão em "Cereja" (outra letra com aparência de "jingle"), que encerrou esse segmento de canções. Marcus começou tocando triângulo e passou depois ao violão, fazendo um bom diálogo no solo com Karine e Alexandre, além de realizar belos floreios no final.

Já com a presença de Nenê no palco, teve início o segmento mais pop do show, no qual Karine não tocou violão. Ela e o grupo estiveram muito bem no rock irado "Tec Tec" (se liga, "tec" de "tecnologia"). Violão, bateria e baixo sustentaram a composição, enquanto Alexsandra interveio em meio à música com sons espaciais, produzidos a partir do girar de uma mangueira. O efeito pretendido não foi atingido, talvez pela mangueira ser curta ou pelo pouco espaço para girá-la. Nada que comprometesse, porém.

Quem acompanha a carreira de Karine já sabe: quando ouve a campainha de uma bicicleta, é hora de... "Pedalload"! Esta música com cara de festival dos anos 1960 também já passou por várias mexidas no arranjo. A voz no começo foi sustentada apenas por baixo e bateria, com intervenção rápida do molho de chaves. Um ar bem mais pop foi conferido pela entrada do violão, que em dado momento soou como guitarra. Isso no acompanhamento da voz, pois no solo Marcus chegou a lembrar Toquinho. Ao final, Karine dançou um pouco ao som do pandeiro.

Se o segmento era pop, isso quer dizer que não tem mais samba? Tem sim senhor! Karine nunca deixa de cantar "Amado". Desta vez estava com a voz bem sooolta no samba-sambão, contando com Alexsandra tocando tamborim com o dedo (bem pouquinho tempo, pra não doer) e depois pandeiro, e Nenê fazendo a bateria soar discretíssima.

Em "Na Subida do Morro", Karine utilizou-se do canto-falado em algumas passagens da composição, que contou com intervenções de pandeiro meia-lua ao lado dos constantes violão, bateria e baixo. Essa música com toda pinta de rock tropicalista dos anos 60 para mim foi o melhor momento do espetáculo.

Encerrando, "Ano Bom", música que foi feita para o fim de ano mas serve pra qualquer época. Violão, baixo, bateria e pandeiro meia-lua fizeram uma base pop para Karine soooooooltar a voz e puxar o final soul: "New year! New year!".

Ei, não teve nenhuma canção chamada "Fluida"? Não. Karine não tem nenhuma música com esse nome. A palavra aparece numa composição que não foi cantada nesse show e cuja melodia lembra o Caetano Veloso dos anos 1980: "Água de Cheiro". Com certeza é daí que Karine tirou o nome do show e do disco. Eu arrisco outra interpretação: sendo ela uma artista de tão grande musicalidade, pode-se dizer que a música flui da Karine Cunha.

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