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KIM RIBEIRO & AMIGOS

Por Fabio Gomes

 

O flautista mineiro Kim Ribeiro está no centro do palco do Teatro de Câmara Túlio Piva (Porto Alegre), tocando uma valsa, com todo o clima das serenatas de antes de 1930. Ao sentar, ele cumprimenta o público e informa que o que se ouviu foi "Displicente", composta por ele em Imbé (RS) em 1983.

1983, por sinal, foi um ano bom para o músico, que tocava com o compositor Giba Giba. Kim, residindo havia três anos na capital gaúcha, recebeu algumas missões importantes. Uma delas, produzir o LP Porto Alegre 1983, acabou sendo o pontapé inicial da carreira de compositor de Fernando do Ó. Explique-se: como produtor, Kim informou o percussionista que ele teria uma faixa para si no disco. Pergunta de Fernando: "Vou acompanhar quem?" Resposta de Kim: "Não, a faixa é tua, pra colocar uma composição tua". Posto na fogueira, Fernando aprontou uma música em uma hora e entrou no estúdio.

Outra missão não foi tão bem sucedida. Naquele ano de 1983, o antigo Hotel Majestic foi inaugurado como Casa de Cultura Mário Quintana (o poeta ainda residia ali). Foi, acredito, a primeira inauguração do Majestic como CCMQ. Vários governos foram colocando placas aqui e ali pela Casa, até que a inauguração de 1991 foi considerada a definitiva, pois em 2001 a CCMQ comemorou 10 anos sem protestos de ninguém. Mas Kim não teve nada a ver com isso, o que aconteceu foi que ele fora convidado para se apresentar na tal inauguração de 1983 e compôs especialmente para a ocasião a música "Majestic" - que não chegou a ser tocada no dia. Mas tudo bem, ainda naquele ano "Majestic" entrou no LP Unimúsica, que reunia composições dos convidados da série de apresentações com esse nome mantido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Estas e outras histórias foram contadas durante o espetáculo Kim Ribeiro e Amigos, no Túlio Piva, em 17 de outubro de 2003, que teve um agradável clima de bate-papo. De certa forma, "Majestic" foi a responsável pela presença de todos no teatro pois a música dará nome ao novo CD de Kim, gravado nos dias 18 e 19 de outubro, com músicas suas (como o choro nostálgico "Fatuidade") e de outros autores. Para acompanhá-lo no disco e no espetáculo, convocou seus amigos gaúchos - e que amigos! Além do já citado Fernando do Ó, participaram do pacote (show e disco) o violonista Toneco e o fagotista Adolfo Almeida Jr. Os amigos, por sinal, se esmeraram na interpretação da música-título do CD: Toneco fazendo um belo solo, sustentado por Adolfo e a marcação leve de Fernando, com vassourinhas roçadas na caixa de madeira sobre a qual o percussionista estava sentado.

Pixinguinha foi uma presença constante em todo o espetáculo. Kim, que contou tê-lo conhecido na Uísqueria Gouveia, no centro do Rio de Janeiro, em 1972, considera o autor de "Sofres porque Queres" referência fundamental para o flautista, pela riqueza musical e modulação, além da sua enorme contribuição como arranjador. No show, Kim, que é integrante do Quinteto Pixinguinha, tocou o clássico choro "Lamento", um dos melhores momentos da noite. A introdução e a exposição do tema ficaram a cargo do violão, tocado em arpejos, e do fagote. No início da segunda parte, a flauta e o pandeiro (tocado por Fernando) integraram-se aos outros amigos. O violão conduziu a melodia numa levada de samba, passando a pontuar o solo de flauta e fagote, para depois vir a solar também, com leve marcação do pandeiro. Além disso, em pelo menos uma música, o compositor Kim revela a influência de Pixinguinha: "Diário", feito em Brasília em 1994, tem um ritmo envolvente e melodia insinuante, em que se sobressai o belo uníssono do violão com o fagote no solo. Pixinga também figurou em uma das tantas histórias que Kim contou nessa noite: o mestre não considerava a música de Ernesto Nazareth como choro, "havia uma pinimba", segundo Kim.

Alheio a qualquer pinimba, o flautista tratou de apresentar várias obras de Nazareth, como "Feitiço", "Escorregando" e "Turbilhão de Beijos", em que o multiinstrumentista Fernando do Ó dedilhou discretamente o bandolim, num arranjo que respeitou bastante o original.

Duas músicas de Toneco também deram o ar da graça no espetáculo: "Choro da Cidade" e "Borges" - um tema denso, escrito como trilha para um poema do escritor argentino Jorge Luis Borges.

O toque concertístico da noite (afinal, um dos amigos, o fagotista Adolfo, faz parte da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre) residiu na interpretação da "Primeira Sonata para Flauta em Dó Maior", de Johann Sebastian Bach, em arranjo para flauta, fagote e percussão, dividida em duas partes. Na primeira, correspondente ao "Andante" e ao "Allegro", a flauta segurou a melodia, com contrapontos do fagote e comentários percussivos de vassourinhas; na segunda, movimentos "Adagio" e "Minueto", a percussão foi feita com um triângulo, nordestinamente.

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