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WALDIR AZEVEDO: UM CAVAQUINHO NA HISTÓRIA

Por Fabio Gomes

 

O livro Waldir Azevedo: um Cavaquinho na História (Irmãos Vitale, 2004), de Marco Antonio Bernardo, é daqueles que se lê de uma sentada, como se diz popularmente. Há uma explicação meramente técnica - das suas 230 páginas, o texto propriamente dito corresponde à metade -, mas a circunstância que realmente justifica a forma como o livro prende a atenção é mesmo a qualidade do texto. A outra metade é ocupada por material documental (fotos, reproduções de jornais e capas de LPs, discografia de Waldir como intérprete, relação de gravações de suas músicas por outros artistas).

Sendo de formação músico (toca piano) e professor de Educação Artística, Bernardo teve sua atenção voltada para o choro em 1988, ao selecionar repertório para um recital. Dali para a admiração foi um passo e para a decisão de conhecer melhor o assunto, outro. Esse segundo passo já bem maior: consistiu no pedido de uma bolsa de pesquisa à Fundação Vitae, para escrever uma série de 12 livros sobre os que ele denomina "os últimos chorões históricos" - além de Waldir, Nabor Pires Camargo, Altamiro Carrilho, Orlando Silveira, Antonio Rago, Carolina Cardoso de Menezes, Portinho, Dino 7 Cordas, Ademilde Fonseca, Canhoto da Paraíba, Lina Pesce e César Faria.

É surpreendente a habilidade com que Bernardo combina no texto a narração da vida e da obra de Waldir com a abordagem de aspectos técnicos e mesmo musicológicos das composições e gravações do autor de "Brasileirinho". Há passagens muito divertidas, como quando se conta que, em plena lua-de-mel, Waldir foi chamado de volta ao Rio de Janeiro para fazer teste para uma vaga de cavaquinista no regional de Dilermando Reis. Entusiasmado com a oportunidade, pediu à esposa, Olinda, que se aprontasse para retornar, ao que ela respondeu:

- Olha, meu filho, vai você, porque lua-de-mel é uma vez só na vida, e eu vou ficar aqui, passando a lua-de-mel sozinha.

Espantado, Waldir tentou argumentar, mas viajou só, fez o teste e foi aprovado. E seu primeiro pedido a Dilermando foi uma licença de oito dias para concluir a lua-de-mel...

Também é digna de louvor a capacidade de Bernardo emprestar emoção ao texto, em passagens difíceis como o acidente que Waldir sofreu em 1974 (quando perdeu parte de um dedo da mão esquerda, reimplantado em seguida, ficando um ano e meio sem poder tocar). Chamam a atenção também as passagens de Waldir por Argentina e Uruguai no começo dos anos 1950, quando a seqüência de lançamento de sucessos instrumentais ("Brasileirinho" em 1949, "Delicado" em 1950 e "Pedacinhos do Céu" em 1951) proporcionou a ele uma recepção digna de pop star - com fãs rasgando sua camisa e tudo! Em Buenos Aires, Waldir precisou ficar todo o tempo em que não tinha compromissos profissionais trancado no hotel, fugindo do assédio.

É natural que num trabalho como esse algum deslize escape - como quando Bernardo conta que em 1959 Waldir, antes de viajar à Europa com a caravana denominada Brasília Ritmos, apresentou-se no Canal 13 e também na TV Rio (era a mesma emissora, 13 era a freqüência da TV Rio) - mas creio que o grande reparo a fazer é a falta de referência nas citações de Waldir em negrito que "dialogam" o tempo inteiro com o texto de Bernardo. Algumas vezes, pode-se deduzir que se trata de uma entrevista na época do fato narrado, outras fica-se na dúvida se é uma declaração posterior, e com isso se torna um pouco difícil entender a quê exatamente Waldir se referia com aquela frase. Embora, evidentemente, a ausência dessas referências não compromete a qualidade ou mesmo o entendimento da obra como um todo.

Enfim, nossos parabéns a Bernardo e à Irmãos Vitale, que não mediram esforços para escrever e publicar a história do músico saudado em 1976 por José Ramos Tinhorão como o maior executante de cavaquinho do mundo!

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