Brasileirinho - Principal

Voltar ao Menu - Artigos

 

LÔ BORGES - VOZ E VIOLÃO

Por Fabio Gomes

 

O cantor e compositor mineiro Lô Borges esteve no Santander Cultural (Porto Alegre), em 9 de maio de 2004, relembrando seus principais sucessos e apresentando algumas músicas de seu novo CD, Um Dia e Meio (2003). A apresentação foi no formato voz-e-violão. Esta não é sua forma preferida de fazer show, o que atribui à sua "formação de banda".

Realmente, aqui e ali as nuances melódicas pediriam um baixo ou um teclado. Mas, em um dos melhores momentos da tarde, "Um Girassol da Cor de Seus Cabelos" (Lô - Márcio Borges), Lô imprimiu uma súbita mudança de andamento (que praticamente dobrou) na 2ª parte, obtendo um ótimo efeito e sendo aplaudidíssimo. Isso que pouco antes ele confessou que temia se atrapalhar com a música, pois a cantara durante a semana anterior com o grupo Nenhum de Nós em Belo Horizonte e estava "com os dois arranjos na cabeça".

Quem convenceu Lô a praticar o formato voz-e-violão foram os japoneses, que certa vez o contrataram para 10 shows nessa modalidade. Ele foi para Tóquio, um pouco temeroso pelo resultado. Pouco depois de sua chegada, ainda antes do primeiro show, um terremoto atingiu a área do hotel onde estava. Mas a história teve um final feliz: Lô nada sofreu no abalo sísmico e o violonista que iria acompanhá-lo era... Toninho Horta! Ao lado do parceiro e amigo de longa data, só podia dar tudo certo. Para lembrar Toninho, Lô cantou em Porto Alegre uma música que os dois gravaram juntos, no LP de 1980 de Toninho: "Manuel, o Audaz" (Toninho Horta - Fernando Brant). O público aplaudiu muito já no anúncio da composição. Os aplausos se repetiram ao final da execução desta inusitada homenagem a um jipe. Como diz o próprio Lô: "Mineiro é meio doido, faz música pra trem, pra jipe".

Para trem, ele cantou duas músicas: "Trem de Doido" (que recebeu uma curiosa homenagem: uma placa com sua letra junto a um antigo hospital da cidade de Barbacena, o que deixou Lô "comovido e assustado") e o megasucesso consagrado por Elis Regina, "O Trem Azul" (parceria com Ronaldo Bastos), também aplaudidíssimo.

Outras composições suas gravadas por outros intérpretes foram lembradas, como "Feira Moderna" (parceria com Fernando Brant e Beto Guedes)("A gravação dos Paralamas do Sucesso no Acústico [MTV] me motivou a fazer um arranjo para esta música que eu não cantava há uns 20 anos", comentou). O destaque maior foi para as que foram levadas ao disco por cantoras como Gal Costa ("Sonho Real"), Nana Caymmi ("Clube da Esquina 2", feita com Márcio e Milton Nascimento), Simone ("Tudo que Você Podia Ser") e outra vez Elis ("Para Lennon e McCartney", parceria com Márcio e Fernando Brant). Esta última Lô interpretou em ritmo bem acelerado, com o público entoando junto e acompanhando com palmas.

De Um Dia e Meio, foram apresentadas "Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor" e "Tudo em Cores pra Você", esta escrita com César Maurício, da banda Radar Tantã, "um dos destaques da cena atual de Belo Horizonte". E não faltaram clássicos mineiros como "Vento de Maio" (dos irmãos Telo e Márcio), "Chuva na Montanha" (Fernando Oly) e "Equatorial". Esta sua parceria com Beto Guedes tem uma história curiosa: numa etapa mineira de um antigo festival da canção, na virada dos anos 60/70, foi anunciada por "uma antiga atriz da Globo" como "Equatoril, de Lu Borges e Bete Guedes!". "E o público ficou esperando duas gatinhas, quando viram subiram ao palco aqueles dois marmanjos com idade de servir o Exército...", recorda, rindo.

O momento que eu mais gostei do show foi quando Lô cantou "Dois Rios" (que escreveu em parceria com Samuel Rosa, do Skank, e Nando Reis). Tudo bem que ele precisou recomeçá-la - seu manager, Marcelo Pianetti, indicou que o andamento não era aquele -, mas realmente foi marcante sua interpretação dessa canção que é uma das mais executadas do CD Cosmotron, da banda mineira. Também muito boa foi a interpretação de Lô para "Resposta" (Samuel Rosa - Nando Reis), que ele cantou um pouco mais rápido e com menos pausas que na gravação do Skank, mantendo-se sempre na oitava inicial.

Estas duas baladas já apontam para o próximo projeto de Lô Borges: gravar um CD com Samuel, consolidando uma parceria de pelo menos cinco anos. O primeiro show "oficial" da dupla foi nos dias 19 e 20 de junho de 1999, no Palácio das Artes (Belo Horizonte). Mas a idéia nasceu alguns meses antes, em fevereiro, durante uma performance da Doctor Penetration, uma "banda paralela" do Skank (com essa banda, em bares de BH, Samuel, Henrique Portugal, Lelo Zanetti e Haroldo Ferreti cantavam tudo o que viesse à cabeça, menos o repertório "de carreira"). A convite de Samuel, Lô fez dueto com ele em três músicas. Depois disso, a parceria veio ao natural. Para Samuel, era uma forma de diversificar sua atuação, até ali sempre ligada à da própria banda; para Lô, uma janela para não ficar eternamente lembrado apenas um dos componentes do Clube da Esquina - à revista Palavra de junho de 1999, queixou-se: "Sempre ligam falando assim: 'Vamos fazer um show com Beto-Guedes-Flávio-Venturini... e queríamos que você também tocasse. Parece um kit".

Copyright © 2004. É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo do Brasileirinho para fins comerciais