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PLAUTO CRUZ - O MAGO DA FLAUTA

Por Fabio Gomes

 

O CD O Mago da Flauta já estava gravado quando, no dia 30 de setembro de 2002, aconteceu um fato lamentável: o flautista Plauto Cruz (73 anos completos em 15 de novembro) foi atropelado por uma moto. O motoqueiro fugiu sem prestar socorro. Plauto ficou vários dias no hospital e permanece com a perna esquerda engessada, circulando numa cadeira de rodas. Desde então, o músico, que costumava ter uma agenda de apresentações cheia (apenas em uma semana de junho, ele chegou a tocar cinco noites seguidas), só participou do espetáculo em sua homenagem no Theatro São Pedro, em 3 de novembro.

Mas falemos do CD. Em O Mago da Flauta, Plauto mostra-se um flautista habilidosíssimo, capaz de variações na interpretação que causam surpresa (agradável, diga-se de passagem). O fôlego exibido em “Aquarela” (Toquinho – Vinicius – Guido Morra – Maurizio Fabrizio) é espantoso, a flauta praticamente não pára a faixa inteira, enriquecendo a harmonia original com mil floreios. Plauto também exercita a alternância de andamento (começa lento, acelera, diminui, volta, sempre subindo o tom) com “Czardas” (Monti), originalmente do repertório de concerto para violino solista. Isso para falar no seu lado de instrumentista. O lado compositor comparece com dois choros (“Ginga no Samba” e “Choro para Ana”). Além disso, há que destacar o lado arranjador. Este é, para dizer uma palavra só, ousado. Plauto escolheu um repertório que é, em maior ou menor grau, conhecido do público: “Amargo” (Lupicínio Rodrigues - Piratini), “Mercedita (S. Ríos)”, “Uno” (Mariano Mores – Enrique Santos Discépolo)... Como? Plauto não é um chorão? Como pode juntar toada, chamamé e tango no mesmo disco?

Calma, pessoal. Plauto É um chorão. Choro é, antes de mais nada (no sentido cronológico e de importância) uma forma de tocar. O tratamento dado por ele ao repertório é choro puro. A simples leitura do nome das músicas sugeriria uma seleção tipo “salada-de-frutas”. Mas é, com certeza, uma salada muito saborosa. Neste aspecto, o ponto alto do disco é “Uno”. O tango inicia lento, com a flauta acompanhada por violão e gaita. De repente, entram cavaquinho, pandeiro e bandolim... e o tango vira samba, até voltar o andamento anterior, com gaita e flauta. Arremata-se a faixa com o clássico “plam-plam” que encerra qualquer tango que se preze – e o “plam-plam” é feito na flauta, e não na gaita!

Outro grande momento do arranjador é na introdução criada para “Amargo” (Lupicínio Rodrigues - Piratini), na qual o pontear do violão e a flauta, bem integrados, lembram o galope apressado do amigo chegando a cavalo. Um arranjo citado com orgulho pelo próprio Plauto é o de “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso). A propósito, uma historinha: conta David Nasser (no livro Parceiro da Glória, José Olympio, 1983) que quem lançaria este samba seria Aracy de Almeida, mas o diretor da gravadora Victor, Mr. Evans, não aceitou a exigência de Ary de usar orquestra e escalou um regional para acompanhá-la. Ary e Aracy recusaram, e quem se deu bem foram Francisco Alves... e a Odeon, que encarregou Radamés Gnattali de reger a gravação. Quem garante que Mr. Evans não previu que o samba renderia um arranjo como este? Flauta e violão fazem a introdução, quase atonal. Em seguida, comparecem pandeiro, bandolim, cavaquinho e tamborim, fazendo um samba maravilhoso, que progride para um solo de violão cheio de improvisos. Sim, solo de violão. Plauto demonstra sua generosidade reservando alguns dos bons momentos do disco para seus amigos instrumentistas (não creditados). Também em “Choro para Ana” há um solo de outro instrumento, o bandolim. Esta composição tem um caráter nostálgico. Na introdução, Plauto lembra de leve o jeito de tocar do gaúcho radicado no Rio de Janeiro Dante Santoro (1904-1969). A gravação tem um clima das que Jacob do Bandolim fazia com o Regional do Canhoto nos anos 50. Já em “Ginga no Samba”, Plauto reservou para si a melhor parte. Num choro bem alegre, o regional mantém-se firme em uma base para os vôos da flauta, com um fraseado muito colorido. A melodia lembra um pouco Toquinho.

Nada é óbvio em O Mago da Flauta. Duas composições do cineasta Charles Chaplin, “Luzes da Ribalta” e “Sorrir” (Chaplin – John Turner – Geoffrey Rarsons), compõem um dos três pot-pourris do disco. “Luzes...”, originalmente uma canção, é puxada para valsa na execução da flauta com dois violões. Ao passar para “Sorrir”, um tantã entra em cena e o andamento passa a ser de bolero, mas um bolero alegre, “pra cima”.

Mais exemplos: em duas faixas, “O Cio da Terra” (Milton Nascimento – Chico Buarque) e “Mercedita” (S. Ríos), sua flauta tem ares andinos. Já “La Barca”/“Reloj” (Roberto Cantoral) começa com um belo uníssono de flauta e gaita e encerra com o violão fazendo o tic-tac do relógio. Genial.

O Mago da Flauta é todo assim, com surpresas muito boas a todo momento. Não vou revelá-las todas aqui. Não encontrando o disco nas lojas, peça pelo telefone 51-3339-2909, com Carlos.

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