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MARATONA DE CHORO: IZAÍAS E OS NOVOS

Por Fabio Gomes

 

A Oficina de Choro ministrada pelo violonista Luiz Machado (do Grupo Reminiscências) no Santander Cultural (Porto Alegre) encerrou suas atividades de 2004 com uma Maratona de Choro nos dias 11 e 12 de dezembro. No sábado, 11, os grupos formados na oficina apresentaram-se na Sala Leste em dois momentos (às 14h e às 18h30) e na Roda de Choro do Café do Cofre (17h), com direito a canja do bandolinista paulista Izaías Bueno de Almeida, 67 anos. No domingo, 12, Izaías encerrou a maratona, tocando ao lado de músicos gaúchos no Átrio.

A oficina começou em janeiro, através de convite de Carlos Branco, da Branco Produções, responsável pela programação musical do Santander, a Luiz Machado. Inicialmente, era uma atividade pensada para o verão porto-alegrense, sobre o qual paira uma lenda de não oferecer opções culturais à população (lenda que vem sendo desmentida ao longo dos últimos anos através de belas iniciativas como esta). A oficina proporcionou a cerca de 60 pessoas de todas as idades o contato com a teoria e a prática musical do choro.

Os novos

Machado escolheu dois grupos para a apresentação do sábado, às 18h30. Os integrantes desses conjuntos, além de freqüentarem a oficina, ensaiaram na escola do violonista durante várias sextas-feiras, para aprofundarem seu domínio dos respectivos instrumentos. O resultado foi excelente. O primeiro grupo, formado por Vinicius Ferrão (bandolim), Daniela Fracasso (flautas), Diogo Jackle (violão) e Guilherme Sanches (percussão), tocou um repertório que ia da pioneira Chiquinha Gonzaga ("Tamoio") ao contemporâneo Paulinho da Viola ("Inesquecível"). Por algum motivo, Daniela tocou sem amplificação do som da flauta, o que impediu que esta fosse ouvida nas duas primeiras músicas (a já citada "Inesquecível" e "Evocação a Jacob", de Avena de Castro). Talvez fosse uma questão de arranjo, ou mesmo da flauta, pois nas quatro músicas seguintes, com uma flauta menor, quase um píccolo, a questão foi resolvida. O grupo esteve esplêndido na modinha "Até Pensei" (Chico Buarque). (Este grupo passou a se apresentar com o nome de Choro Negro em abril de 2005.)

Já o outro grupo, formado por Pedro Franco (cavaquinho), Caoan Goulart e Maxwell dos Santos (violões), Pedro Amaral (cavaquinho base) e Tatiane Lentino (pandeiro), foi uma grata surpresa. O solista Pedro Franco tem 13 anos e entrou na oficina nos últimos dois meses - antes disso, tocava sozinho. A oficina foi importante para que ele exercitasse a execução em grupo. Foi o único dos solistas a tocar sem ler (ou seja, sem partitura à frente). Mesmo com um repertório só de composições de Waldir Azevedo, Pedro Franco demonstrou ter estilo próprio, sem imitar o mestre - fato inclusive saudado por Izaías no domingo, durante o show. Uma inovação sua, por exemplo, foi já iniciar o choro "Minhas Mãos, Meu Cavaquinho" com trêmolos. Também é importante destacar a excelente base proporcionada pelos violonistas Caoan e Maxwell (este fazia seu violão de 6 cordas soar como um de 7), muito bem integrados.

Um terceiro grupo também mereceu uma atenção especial de Machado - o integrado por Elias (cavaquinho), Gerson (violão de 7), Luís Barcelos (cavaquinho) e Soleno (pandeiro). Eles foram os escolhidos para abrir os trabalhos na roda do café, com músicas de Jacob do Bandolim e Luciana Rabello. Seguiu-se o bandolinista Marcelo, acompanhado por Rafael Ferrari (bandolim), Luís Barcelos (violão de 7) e Ânderson Balbueno (pandeiro). Foi Marcelo o responsável pela canja de Izaías, ao convidar o mestre a assumir seu lugar no palco do café.

Além desses quatro grupos, outros quatro tocaram na primeira parte da maratona, iniciada no começo da tarde de sábado. Esta era a formação dos conjuntos: o 1º - Laura Saraiva (bandolim), Luís Henrique (violão), Jaime (trumpete), Rui (cavaquinho) e Tatiane Lentino (pandeiro); o 2º - Leandro (bandolim), Maxwell dos Santos (violão), Elias (cavaquinho) e Ânderson Balbueno (pandeiro); o 3º - José Carlos e Cristiano (cavaquinhos), Gordiano (violão de 7) e Soleno (pandeiro); e o 4º - Rui e Pedro Amaral (cavaquinhos), Marcos (violão) e César (pandeiro). Muitos deles estiveram na edição de julho da série Na Roda do Choro, na Casa de Cultura Mário Quintana.

Izaías

O mestre paulista do choro tocou no domingo, acompanhado por um grupo de músicos gaúchos: Luiz Machado (violão), João Vicente (violão de 7), Luís Barcelos (cavaquinho) e Ânderson Balbueno (pandeiro). O melhor momento da apresentação foi no bis, com "Murmurando" (Fon-Fon), que se iniciou com um diálogo do bandolim com o cavaquinho, seguido de solos do violão de Machado (com comentários do bandolim) e do pandeiro (os solos foram aplaudidos durante a execução).

Izaías dá palhetadas muito claras (principalmente se considerarmos que o som do bandolim era captado por microfone e não em linha), emprega abundantemente o trêmolo e alterna força e suavidade a toda hora - o que no início do show estava derrubando o acompanhamento. Além disso, ele parece ter especial apreço pela execução aceleradíssima, como em "Gostosinho" (Jacob do Bandolim), e nos aplaudidíssimos "Agüenta, seu Fulgêncio" (Lourenço Lamartine) e "Arranca Toco" (Meira).

No decorrer do espetáculo, o grupo foi se integrando mais, obtendo um excelente resultado já na quarta música, "Sofres porque Queres" (Pixinguinha). Aliás, dois dos momentos inesquecíveis do domingo foram resultados coletivos. O primeiro foi "Pedacinhos do Céu" (Waldir Azevedo). Barcelos iniciou fazendo toda a melodia no cavaco (como no CD Deixa Assim..., da Camerata Brasileira, embora no show ele tenha fraseado mais). Após uma cadência dos bordões dos violões, o grupo todo ataca; após um ótimo solo de Izaías em trêmolos seguido de ponteios, a execução se concluiu com a baixaria cadenciada dos violões. O segundo foi "Nostalgia" (Jacob do Bandolim). João Vicente começou na baixaria, seguindo-se Izaías, pianíssimo. Todos entram, cadenciando - os violões, com certo destaque para Machado, na baixaria, o bandolim em trêmolos. O solo de Izaías é precedido de uma suavizada e tem o pandeiro sinalizando seu fim, chamando para um crescendo geral. O bandolim segue em trêmolos, enquanto os outros vão progressivamente diminuindo o volume de sua execução, para destacar a cadência dos ponteios do bandolim.

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