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MARIA BETHÂNIA EM UM TEMPO QUE NÃO PASSA

Por Vera Barbosa

 

Quando se fala da obra de Vinicius de Moraes, tantas vezes gravada e reverenciada por diversos nomes da música brasileira, pode-se ter a ilusão de que não há mais como se surpreender. Afinal, vozes masculinas e femininas, das mais diversas tendências musicais, já tiveram a honra de cantar o Poetinha. No entanto, como um dom divino, Maria Bethânia surpreende e encanta ao desfilar sua poesia no palco do Directv Music Hall (São Paulo).

Nosso diamante verdadeiro, com sua sensibilidade ímpar e a teatralidade notória, faz cintilar cada frase musical de Vinicius em Tempo, Tempo, Tempo, Tempo. Mesclando o repertório do disco Que Falta Você me Faz com sucessos de outros grandes compositores da música brasileira, Maria Bethânia brilha mais uma vez. Na sexta-feira, 8 de abril de 2005, quem teve o prazer de assistir a mais esta apresentação da rainha, voltou para casa com uma certeza: quem não rasga o coração não vai ter perdão!

Maria Bethânia por Dani Lima

Interpretando Vinicius e Roberto Carlos, passando por Caetano Veloso e Chico Buarque, a deusa mais humana cantou o amor. E, num sopro do Criador, também homenageou Roberto Mendes, Raul Seixas, Dona Ivone Lara, Francis Hime, Lupicínio Rodrigues, Almir Sater, Flavio Venturini, Jards Macalé, Sueli Costa, Paulo Vanzolini, Gonzaguinha e outros.

Em cada gesto, cada suave movimento com que deslizava no palco, Bethânia era um pássaro e dava asas à alegria e à esperança do público. Essa emoção era visível nos olhos da platéia. Com a elegância de sempre, os pés descalços, um cenário expressivo em sua sutileza e sob a direção de Bia Lessa, Bethânia flutuou entre belas canções. Destaque para a iluminação de Maneco Quinderé, que deu cores especiais às nuances do espetáculo.

Bethânia apresentou-se acompanhada de grandes músicos: Jaime Além - arranjos, regência, violão; João Castilho - violão, guitarra; João Carlos Coutinho - piano; Rômulo Gomes - baixo; Marcio Mallard - violoncelo; Marcelo Costa - bateria e Reginaldo Vargas - piano, que fizeram o público sonhar ao som de "Berimbau" e "Canto de Ossanha" (ambas de Baden Powell e Vinicius) quando a musa ausentou-se para uma breve troca de roupas. Do começo ao fim do show, havia no ar uma alquimia, um néctar que envolvia cada espectador. A reação da platéia não poderia ser outra: declarações de admiração, euforia, felicidade, sintonia. Homens e mulheres que, entre uma canção e outra, soltavam a voz para enaltecer a diva.

Bethânia tem o dom de dar ao público a nítida e real sensação de viver ou ter vivido cada detalhe das letras. Cada canção, toda palavra, é uma passagem de sua vida e resume ou define suas emoções, sua evolução espiritual e seu amadurecimento profissional. Ela parece cantar, tão e somente, a sua existência. É tão perceptível, palpável, como se ela mesma fosse autora e personagem de tudo.

Mergulhar em um texto, em uma canção exige sensibilidade, talento e doação. Maria Bethânia empresta seu corpo, sua voz e sua alma a tudo o que interpreta. Ela é toda, em cada parte. Amanhecendo, entardecendo, anoitecendo, enaltecendo o cantar!

Ao declamar (sobretudo, em uma passagem de Orfeu), Bethânia alcança o ápice da expressividade. Sua voz, cristalina e dona de uma força única, chega a cortar o coração da gente. Um misto de dor e prazer que alimenta a alma e acalenta o coração. Assim como as canções que escolheu para comemorar os 40 anos de carreira, Bethânia é atemporal. Ela sobrevive aos modelos e padrões criados pela indústria fonográfica e pela mídia em geral.

Sem dúvida, os deuses despertaram para vê-la e ouvi-la. Maravilharam-se com a limpidez de sua voz, inundaram o céu com as lágrimas de sua emoção. Aplaudiram e convocaram-se, mutuamente, para esse espetáculo inesquecível. E, como eu, devem estar loucos de prazer.

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