Brasileirinho - Principal

 

BARROSINHO & MARACATAMBA - Live in Montreux 1998

Por Luciano Ribeiro

 

Instrumentistas costumam guardar gravações de jam sessions caseiras ou de shows em bares enfumaçados, regados a sentimentos e álcool, nos quais, filtrando-se, encontram-se preciosidades. São raridades que ficam restritas aos músicos e seus amigos, destinadas somente às prateleiras domésticas, ao anonimato. Há casos, incomuns, em que essas canções ganham discos, graças a iniciativas louváveis de gente sensível, como esta dos produtores Roberto de Moura e Franck Darriet, da Kalimba Music. A dupla acaba de recuperar os rolos do único registro do show no Festival de Montreux de Barrosinho, trompetista co-fundador (ao lado do saudoso saxofonista Oberdan Magalhães) da Banda Black Rio.

O material, apenas quatro canções, mas com duração de aproximadamente 45 minutos, estava na casa do instrumentista há 14 anos, e parecia fadado aos fungos. Mas ele acaba de sair em CD, em ótima qualidade, recheado de cuidados, com capa de design retrô, encarte em papel couchê, texto da museóloga e pesquisadora Maria Cristina Sobrinho e aval de Ed Motta. Moura e Darriet já haviam editado ano passado o tardíssimo primeiro CD solo de Barrosinho, O Sopro do Espírito. Com este parece que, aos poucos, eles deixam, em embalagem devida, parte da importância deste trompetista, criador, ainda na década de 80, do maracatamba, fusão do maracatu, samba e ritmos com cores latinas.

Neste Barrosinho Live in Montreux o músico é acompanhado pelos craques Tomás Improta e Delia Fischer (teclados), Marcos Amorim (guitarra), Santana (baixo), Ubirajara (percussão) e Luis Carlos (bateria). São minutos de improvisações incandescentes, com o trompete ímpar rasgando as harmonias, passando com intimidade por maracatambas, gafieiras, bossas e funks. Ed Mota já o comparou ao saxofonista (tenor e soprano) John Coltrane.

O disco traz ainda curiosidades. A direção do festival suíço escolhe os artistas que têm contratos com gravadoras e discos lançados. Em 1986, 20 anos depois de ter tocado com Tim Maia, passado pelo grupo Abolição (com Dom Salvador) e Banda Black Rio, Barrosinho seguia sem um álbum solo. Mesmo assim mandou uma fita, que impressionou os curadores do evento. Abriu-se uma exceção. Com ajuda do Ministério da Cultura e do Sistema Globo de Rádio ele conseguiu seis passagens, faltava apenas uma. "Já tinha desistido, só toparia ir com a banda completa, quando na última hora apareceu um doador anônimo e bancou a que faltava", lembra. Barrosinho se apresentou no dia 9 de julho no Cassino Platino para uma platéia calorosa de mil pessoas. A proposta apresentada fundiu a cabeça de quem pensava que vanguarda era só o que Miles Davis havia proposto no fim da década de 60. Ela está toda condensada neste disco, que encantou os freqüentadores do festival, e que, agora, está aí, acessível, bem cuidada.

Copyright © 2003. É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo do Brasileirinho para fins comerciais