Brasileirinho - Principal

Voltar ao Menu - Artigos

DO ESPETÁCULO DO DISCO DA PESSOA NELSON COELHO DE CASTRO

Por Fabio Gomes

 

DO ESPETÁCULO

Nelson Coelho de Castro (doravante denominado NCC) apresentou um espetáculo de altíssimo nível artístico no Theatro São Pedro (Porto Alegre) em 13 de dezembro de 2002. Oficialmente, ocorria o lançamento do CD Da Pessoa, que já circula nas lojas desde, pelo menos, julho. O conjunto de NCC (ele – voz e violão, Edílson Ávila – guitarra e violão, Mário Carvalho – baixo, Michel Dorfman – teclados e Fernando do Ó e Giovani Berti – percussão) apresenta uma união muito grande, passando ao público a alegria que sente por estar no palco tocando.

NCC iniciou cantando sozinho, acompanhando-se ao violão em várias músicas, entre elas a homenagem a Porto Alegre “Povoado das Águas”, além de dedicar um número a seus filhos Mariana e Nicolas (este, nascido em 2002). Chamou a atenção também a inclusão de um fado.

Sim, NCC cultiva gêneros que não são facilmente encontrados nas redondezas. Um exemplo é a marcha-rancho “Colombina”, que o público cantou em peso. Afinal, nada melhor que este ritmo pausado para respirar após o empolgante samba-enredo “Mestre Neri”, em homenagem a Neri Caveira, durante anos mestre da bateria da escola de samba Imperadores do Samba. Nesta hora, todos os músicos deixam seus respectivos instrumentos e empunham peças da bateria, fazendo o momento mais belo da apresentação. É de tirar o fôlego.

NCC brindou a platéia com sucessos seus que não estão em Da Pessoa, como “Vim Vadiá” (que foi o bis), além de interpretar “Tem que Ter Pandeiro” (Túlio Piva). Incluiu no clássico uma introdução reiterativa e imitou os trejeitos e muxoxos de João Gilberto, fechando com referências rápidas a músicas de carnaval, como “A Jardineira” (Benedito Lacerda – Humberto Porto).Os arranjos em geral são muito semelhantes aos do disco, pois no palco estavam os mesmos músicos que participaram da gravação. Mas há nuances, como um destaque maior à percussão (onde reinou absoluto, em toda a noite, o surdo de Fernando do Ó, indicando o rumo) nos sambas “Pérola no Veludo” e “No Braço com a Vida”. Neste, aliás, em dado momento, Giovani Berti, à esquerda do palco, tocava pandeiro com a mão direita, enquanto Fernando do Ó, à direita, fazia o mesmo com a mão esquerda. A produção é caprichada e inteligente, tirando belos efeitos de procedimentos simples como projetar uma bola branca (na verdade, um refletor sem filtro colorido) quando da menção à lua em “Serra Geral”. Um grande espetáculo.

DO DISCO

O CD Da Pessoa (Fumproarte), gravado em 2001, tem 15 músicas, todas de autoria de NCC (apenas uma, “Pérola no Veludo”, é em parceria com Cezar Ulysses Coelho de Castro). Várias delas têm menos de um minuto, podendo até ser definidas como vinhetas. Mas é importante notar que elas não são brincadeirinhas, como geralmente as vinhetas são. Parece-me que NCC identificou que eram músicas que, embora boas, não renderiam mais do que aquilo – que já estava bom, por sinal. Nestas vinhetas, em geral, NCC acompanha-se ao violão ou conta com o piano de Michel – criando um clima que lembra um pouco o LP Uns, de Caetano Veloso (1983, PolyGram).

Um dos destaques do disco é “Futebol”, música com a qual NCC venceu o prêmio de originalidade no festival Musi-PUC em 1977. Na faixa, a instrumentação típica do samba é usada sem que se configure o ritmo de samba, enquanto na letra o compositor fala de dribles e impedimentos – metáforas à ditadura, pra enganar a censura dos militares.

O grande momento do espetáculo, “Mestre Neri”, deixa um pouco a desejar no CD. NCC inicia acompanhando-se ao violão, depois segue cantando apenas com a percussão dos ritmistas Sandro Gravador, Tiago, Leonardo, Wagner, Sandro Brinco e Darci Caju. A percussão começa um pouco pausada e em seguida fica bem acentuada, batendo forte até o final, onde há, é certo, o bom efeito da voz sumindo, encoberta pelo que seria o recuo da bateria. Creio que um arranjo semelhante ao usado no show, em que a percussão vai se intensificando aos poucos, seria de melhor efeito.

É um CD predominantemente de samba, que contém algumas canções (como as vinhetas “Teu Nome” e “Guia” – esta, um primor nos seus “ão” subindo, até fechar num “não, não” mais grave), reggae (“Outro Mar”) e choro-canção (a ótima “Serra Geral”, com Edílson muito bem no violão de 7). Um grande CD.

DA PESSOA

NCC é um compositor-cantor-violonista que está na batalha de ser um branco gaúcho fazendo samba desde 1974, pelo menos (sem contar sua atividade em coral, desde 1965). Lançou até hoje apenas cinco discos: Juntos (1981), Nelson Coelho de Castro (1983), Força d’Água (1985), Verniz da Madrugada (1996) e este, além de participações em discos de parceiros ou obras coletivas.Modesto, ele costuma perguntar se alguém da sua geração conseguirá deixar um legado semelhante ao de Lupicínio Rodrigues, ou pelo menos criar algo da importância de “A Jardineira”. É difícil responder, mas é fato que muitas das pouco mais de 200 (sic) pessoas presentes no TSP cantaram TODAS as músicas junto com Nelson e aplaudiram sinceramente um artista muito criativo e que realiza uma apresentação de altíssima qualidade. Uma grande pessoa.

Copyright © 2003. É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo do Brasileirinho para fins comerciais