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NEY & CARTOLA

Por Fabio Gomes

 

Ouvir Ney Matogrosso cantando os sambas de Cartola foi uma das melhores coisas que me aconteceram em 2003. Ney está fazendo apresentações bem intimistas, ficando como cantor cada vez mais distante da grandiloqüência interpretativa em que se enredou no começo dos anos 1990 (época do LP À Flor da Pele, com o violão de Rafael Rabello). Ao mesmo tempo, é possível sentir nele uma atitude nova em relação ao público. O artista que voltou furibundo e já sem maquiagem para cantar “Beija-me” (Roberto Martins – Mário Rossi) no bis do espetáculo Batuque, em 29 de junho de 2001, no Teatro do SESI (Porto Alegre – RS), não parecia ser o mesmo que cantou SEIS músicas como bis em Ney Matogrosso Interpreta Cartola, em 28 de março de 2003, também no SESI.

O grande momento da noite é quando ele canta “Acontece”, com apenas os violões de Marcello Gonçalves (de 7 cordas) e de Ricardo Silveira (de 6) emoldurando sua voz, com uma luz bem discreta. Igualmente há um clima diferente proporcionado pela iluminação em tons rosáceos durante a versão econômica (não repete nenhuma estrofe!) de “As Rosas Não Falam”. Outros destaques necessários: “Amor Proibido”, numa levada de sambão das mais dez, e a sensacional “Peito Vazio” (Cartola – Elton Medeiros). Também são dignos de nota: “O Mundo é um Moinho”, cantado de forma diferente (melhor!) do que em outro espetáculo de Ney, Pescador de Pérolas, lançado em LP pela CBS em 1987; “Tive Sim” e “Desfigurado”, um raro samba humorístico da lavra do poeta maior da Mangueira. Aliás, falando em bom humor: após terminar “Não Quero Mais Amar a Ninguém” (Cartola – Carlos Cachaça – Zé da Zilda), Ney, sério, faz uma pausa, olha o público, abre um sorriso e, à maneira do “Samba do Grande Amor” (Chico Buarque), encerra com “men-ti-ra”, arrancando palmas e gargalhadas da platéia.

Já a hora do espanto ficou por conta da queda teatral de Ney junto ao banquinho no final de “Basta de Clamares Inocência”, no bis. A queda foi tão a sério e inesperada que assustou parte do público.

Fora do repertório de Cartola, foram cantadas duas músicas: “Rosa de Hiroshima” (melodia de Gerson Conrad sobre poema de Vinicius de Moraes), condizente com o clima pré-guerra do Iraque que se vivia em março (mas, fora essa circunstância, é um clássico da música brasileira e pronto) e “Preciso me Encontrar” (Candeia), que Cartola gravou em 1976.

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