Brasileirinho - Principal

Voltar ao Menu - Artigos

 

NOITES TROPICAIS

Por Fabio Gomes

 

Um bar do Rio de Janeiro, freqüentado por artistas, jornalistas e gente de TV, resolveu, nos anos 70, homenagear seus clientes mais assíduos. Colocou fotos de todos em suas paredes. Lado a lado, ficaram dois então desafetos: o compositor Chico Buarque e o coordenador da Rede Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. Chico estava banido da Globo desde que retirou sua música do Festival Internacional da Canção de 1971. Seu nome não podia ser citado, ele simplesmente não existia. Chico, ao ver Boni a seu lado na parede, correu a retirar a foto do “inimigo”. Boni fez o mesmo com a foto de Chico, em outro momento. O dono do bar, preocupado com a celeuma causada por sua nova decoração, pediu aos dois para fazerem as pazes. Foi prontamente atendido. Boni recolocou o retrato de Chico na parede, mas o autor de “Carolina” não podia retribuir: além de tirar a foto da parede, Chico a levara para a praia em frente e pisoteou o quadro, quebrando-o. Resultado: Chico continuou na lista negra da Globo por muito tempo.

Esta é uma das histórias saborosas que recheiam o livro Noites Tropicais - Solos, Improvisos e Memórias Musicais, de Nelson Motta (Editora Objetiva, 2000, 453 páginas). Numa dosagem admiravelmente bem feita, caminham lado a lado lembranças de artistas com quem o autor conviveu e sua própria vida, com destaque para a música, de 1957 (ano em que se encantou com a Bossa Nova, ele que até ali em música só gostava da trilha sonora carnavalesca das chanchadas da Atlântida) a 1992 (quando, não agüentando mais o governo Collor e a música sertaneja, mudou-se para os Estados Unidos). Ao mesmo tempo em que pinça de seu memória histórias curiosas e detalhes reveladores, traça um quadro do que foi importante na época, da Bossa Nova, Jovem Guarda, Tropicalismo à MPB e ao rock. Embora se revele um violonista apenas razoável (foi um suplício, afirma, quando seu conjunto Seis em Ponto foi chamado para gravar um LP), Nelson sempre esteve ligado à música, compondo, produzindo discos, criticando lançamentos na imprensa e até sendo jurado do programa Flávio Cavalcanti, coisa que seus amigos mais avançados intelectual e musicalmente não perdoavam. Nelson pode ser definido como um eclético coerente - navega entre muitos estilos, mas não nega suas antigas preferências. A Globo o enviou à Itália em 1983 para cobrir um festival de música baiana em Roma (que gerou o filme Bahia de Todos os Sambas, de Paulo César Saraceni) - uma escolha natural, considerando o passado bossa-novista e emepebista de Nelson -, e de lá ele só retornou ao Brasil em 1985, para apresentar o Rock in Rio - uma escolha natural, considerando o passado roqueiro e de disco-music de Nelson, criador das Frenéticas e parceiro dos primeiros sucessos de Lulu Santos.

O livro é claramente de memórias. Nelson não se propõe a fazer um tratado sobre a esse período, e sim quer contar o que viveu e (ou)viu. Ele admite que recorreu a alguns livros para ordenar o que lembrou, tendo conseguido fazer com pouquíssimos deslizes um relato rigorosamente cronológico, sem que isso fique incomodando a leitura. Se o leitor quiser informações do festival de 1968 conseguirá achar sem muita dificuldade.

O grande pecado do livro é não ter um índice onomástico-remissivo. Para achar aquela história do Roberto Carlos ou do Tim Maia ou da Elis Regina (e tem várias, ótimas, de todos eles), é preciso procurar bastante, na contramão da atual tendência de indexar até livros de ficção como O Xangô de Baker Street, de Jô Soares. Há alguns escorregões, talvez o mais notório seja afirmar que Walter Clark foi demitido da Globo em 1980 e aí foi para a TV Bandeirantes. Clark saíra da Globo três anos antes, como foi várias vezes citado quando de seu falecimento em 1997 e também em seu livro O Campeão de Audiência - que, pelo jeito, Nelson não leu. Ao menos não cita como “referência bibliográfica”.

Mas estes deslizes não chegam a comprometer Noites Tropicais, que o leitor pega e não consegue largar até terminar. Um livro que deve figurar na relação de Obras Fundamentais de quem quer conhecer cada vez melhor a música brasileira.

Copyright © 2003. É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo do Brasileirinho para fins comerciais