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A REINVENÇÃO DA CAMERATA BRASILEIRA

Por Fabio Gomes

 

Afinal, a Camerata Brasileira comemorava 3 ou 4 anos no dia 8 de junho de 2005, quando tocou no Teatro de Câmara Túlio Piva (Porto Alegre)? A dúvida é pertinente, pois em junho de 2004 o grupo festejara seu segundo aniversário. Bom, realmente eram 3 anos do início do grupo Alma Brasileira (reunindo Moysés Lopes, Rafael Ferrari, Rafael Mallmith e Luís Barcelos, entrando Ânderson Balbueno no começo de 2003). Anunciar a comemoração como sendo de 4º aniversário dá ao grupo Chorando Cedo (que durou de abril de 2001 a junho de 2002 e cujos integrantes eram Rafael Ferrari, Rafael Mallmith e Luís Eduardo Rodrigues) o status de embrião da trajetória de qualidade da atual Camerata, formada por Moysés Lopes (violão), Rafael Ferrari (bandolim), Rodrigo Siervo (saxofone) e Demetrius Câmara (percussão).

O show do dia 8 - um dos melhores que assisti ultimamente - foi a primeira apresentação da nova formação depois da participação na roda do Dia Nacional do Choro 2005. É quase um novo grupo, pois a entrada de Rodrigo e Demetrius em março levou a Camerata a se reinventar. Os quatro estão tratando o repertório com extrema liberdade - por exemplo, a citação de "Ó Abre Alas" (Chiquinha Gonzaga) na execução de "Cochichando" (Pixinguinha) foi feita através de um ringtone do celular de Moysés. Muitas músicas tiveram a duração sensivelmente estendida, recheadas que foram de improvisos e efeitos cênicos (como a engraçada "briga ensaiada" em "Chorinho pra Ele", de Hermeto Paschoal, que agora envolve os quatro). No mais radical efeito cênico, todos os músicos deixaram o palco durante a execução de "O Radar" (Arthur de Faria) - foram saindo Rodrigo, Demetrius e Rafael, quando Moysés se deu conta estava sozinho e saiu também. Parte da platéia, julgando que era o final do show (que recém passara da metade), chegou a pedir bis ao aplaudir. Esses fatores contribuíram para que a duração do espetáculo chegasse a duas horas, algo raro em shows de grupos porto-alegrenses na própria cidade.

Uma peculiaridade interessante, da qual gostei muito, foi a variação do número de músicos em cena no desenrolar do espetáculo, tornando a apresentação bem dinâmica. "Menino Hamilton" (Rafael Ferrari - Rafael Mallmith), uma homenagem a Hamilton de Holanda, foi executada por Ferrari e Moysés. Outra música da mesma dupla, "Indiada de Ônibus", ficou a cargo de Ferrari e Rodrigo. A letra de "Alfonsina y el Mar" (Ariel Ramirez - Felix Luna) foi recitada por Moysés e em seguida cantada por Rodrigo, acompanhado ao violão por Moysés. Rodrigo no sax e Demetrius no pandeiro mandaram ver numa seleção de temas de Hermeto Paschoal. Ferrari também teve seu momento solo, com "Gente Humilde" (Garoto).

O grande final foi, como no Dia do Choro, a junção de músicas de Baden Powell e Vinicius de Moraes ("Berimbau"/"O Astronauta"/"Formosa"). Os sons aleatórios remetendo à África na abertura de "Berimbau" receberam o reforço de grunhidos de Rodrigo, enquanto a luz do palco era reduzida a um mínimo. "Formosa" teve algumas passagens mais suaves nesse momento, voltando como sambão ao ser executada como número extra depois do verdadeiro fim do show.

A registrar, ainda, a inovação de Demetrius ao tocar com o pedal um atabaque estendido no chão. O percussionista buscava um som bem grave para reforçar determinadas passagens, mas não estava satisfeito com o oferecido pelo bombo geralmente usado na bateria. O resultado agradou plenamente e deve ser mantido por ele nas próximas apresentações.

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