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PELO TELEFONE, 90 ANOS

Por Marcelo Xavier


O Carnaval de 1917 veria a popularização no Rio de Janeiro de um gênero musical que comandaria as festas de Momo nas décadas seguintes e uma canção que seria considerada a sua certidão de nascimento. O tal gênero se chamaria samba e a música era "Pelo Telefone". Composta em 1916 no quintal da casa da baiana Tia Ciata, na Praça Onze, ela se tornaria uma inesgotável fonte de lendas e controvérsias. O tema, originalmente intitulado como "Roceiro", era considerado de criação coletiva, e tinha a participação de todos os bambas que batiam ponto no berço do samba da antiga rua Visconde de Itaúna: João da Baiana, Pixinguinha, Caninha, Hilário Jovino, Sinhô e muitos outros.

Foi quando, em 6 de dezembro de 1916, o então jovem partideiro Donga (Ernesto dos Santos, 1889-1974) resolveu pegar o tradicional "Roceiro", mudar a letra (em parceria com o cronista carnavalesco Mauro de Almeida) e registrar a propriedade intelectual do samba, através de sua partitura para piano, na Biblioteca Nacional (as editoras musicais só surgiriam com a criação da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, a SBAT, por Chiquinha Gonzaga, em 1917) . Em janeiro de 1917, a Casa Edison (hoje EMI-Odeon) levou ao disco uma versão instrumental. O sucesso viria em fevereiro, quando o cantor Bahiano (pioneiro cantor popular que gravou o primeiro disco no Brasil, em 1902) a gravou, pelo mesmo selo.

À medida que "Pelo Telefone" virava unanimidade (seria a primeira a fazer sucesso em toda a cidade, assobiada pelas ruas e declamadas em clubes e sociedades), causaria uma cisão bizantina entre os bambas da Praça Onze.

Sinhô, a despeito de ser um notório "pescador" de sambas, reclamou a sua autoria. O mesmo fizeram os outros. E ficou a barafunda. Afinal de contas, quem a compôs? Pesquisadores descobriram uma nota sobre a execução de "Pelo Telefone" num artigo de fundo do Jornal do Brasil de 1917, indicando a co-autoria de João da Mata, Germano, Tia Ciata e Hilário. Um deles, Almirante (Henrique Foréis Domingues) defendia a tese de que Donga era, no máximo, co-autor do tema, e que Sinhô havia criado o estribilho. Já Donga, por sua vez, respondeu dizendo que Almirante apenas queria acusá-lo de usurpador ao invés de esclarecer a questão. Outros musicólogos preferem salientar a importância de Mauro de Almeida na composição tanto da letra quanto da música, explicando que o resto era inspirado nas históricas rodas de samba.

Mauro, em artigos de jornal, dizia que não havia motivos originais em "Pelo Telefone". O seu papel na criação era catalizar temas que flanavam pelas ruas, como os personagens de João do Rio. À época, o célebre "Peru dos Pés Frios" (como era conhecido) dizia que apenas acomodou os versos para a música que Donga havia lhe apresentado. "Tirei-os de trovas populares", revelou, pouco tempo antes de morrer. Alguns especialistas indicam que o refrão "ah, se a rolinha, sinhô, sinhô" seria um típico tema do norte (l).

E a polêmica não acaba aqui. A própria letra também é uma fonte de lendas que começa na sua concepção até trechos meramente paródicos que a tradição cuidaria de incorporar à música. Sabe-se que a origem dos primeiros versos é histórica. Tudo teria começado quando dois repórteres do jornal A Noite, Castelar de Carvalho e Eustáquio Alves, resolveram instalar, de brincadeira, uma roleta na entrada do vespertino, tentando provar que o Chefe da Polícia do Rio, Aurelino Leal, fazia vistas grossas à prevaricação na cidade, apesar do pretenso combate prometido. Por pelo menos dois dias, a redação se transformou na capital da jogatina.

Foi quando o jornal de Irineu Marinho publicou matéria denunciando a suposta negligência da polícia, tentando desmoralizar Aurelino. Como as diligências eram informadas por via telefônica, a história correu solta. E a letra ficou assim:

"O Chefe da polícia/ Pelo telefone/ Mandou me avisar/ Que na Carioca/ Há uma roleta/ Para se jogar..."

Contudo, Donga disse, tempos depois, que a letra original era

"O Chefe da folia/ Pelo telefone/ Manda me avisar/ Que com alegria/ Não se questione/ Para se brincar." (2)

E adiantava que a alusão à roleta era uma paródia - esta sim, de autoria de Mauro de Almeida. Porém, se o "Peru" não tinha lá relação direta com o samba no começo, no fim o deboche atribuído ao cronista é que iria se popularizar pelos anos seguintes. E o próprio Donga passaria a cantar a versão da "roleta" que, por sua vez, ilustrava com escárnio o histórico episódio.

"O chefe gosta da roleta,/ Ô maninha/ Ai, ai, ai/ Ninguém mais fica forreta/ É maninha/ Chefe Aurelino/ Sinhô, Sinhô/ É bom menino/ Sinhô, Sinhô".

A letra gravada por Bahiano, que se tornou o primeiro sucesso de um samba no Carnaval carioca (ao contrário do que se acredita, "Pelo Telefone" não foi o primeiro, senão "Em Casa da Baiana", gravada pela Faulhaber, em 1910, mas que não logrou êxito(3)), trazia ainda alusões a Mauro (o "peru") e Norberto do Amaral (o citado "morcego", diretor do Clube dos Democráticos, onde a música estreou, em 19 de janeiro daquele ano):

"O Peru me disse/ Se o Morcego visse/ Não fazer tolice/ Eu então saísse/ Dessa esquisitice/ De disse e não disse."

Em depoimento ao Museu da Imagem e do Som, nos anos 60, Donga daria outra versão (dilatando cada vez mais a lenda): a de que os autores da paródia eram os repórteres e que a letra fora mudada para "evitar complicações com as autoridades". Darcy Ribeiro disse que "Pelo Telefone" foi o primeiro samba censurado - interdito pelo próprio Aurelino Leal. Porém, alguns pesquisadores põem tudo de cabeça para baixo ao rebaterem o episódio da jogatina para 1913, ou seja, a história já era lenda, em 1916, quando virou música. Assim, irá ficar para sempre a dúvida se a paródia é ou não é mais antiga do que o registro de Bahiano...

Após o sucesso no Carnaval daquele ano, um jornal ainda publicou uma nova letra para "Pelo Telefone", dessa vez criticando tal usurpação de seu verdadeiro autor:

"Pelo telefone/ A minha boa gente/ Mandou-me avisar/ Que o meu bom arranjo/ Era oferecido/ Para se cantar/ Ai, ai, ai, leva a mão à consciência, meu bem/ Ai, ai, ai por que tanta presença, meu bem/ Ó que caradura dizer na roda/ Que o arranjo é teu/ É do bom Hilário e da Velha Ciata/ Que o bom Sinhô escreveu/ Tomara que tu apanhes/ Pra não tornar a fazer isso/ Escrever o que é dos outros/ Sem olhar o compromisso."

Assim, fica a divisão: autores como Almirante defendem a tese de que "Pelo Telefone" é criação coletiva, incluindo Donga e Mauro. Outros, como Sérgio Cabral, entendem que os louros cabem aos dois últimos. Do lado de Cabral está Lygia Santos, filha do compositor. Ela diz que ele nunca imaginou que registrar o tema causaria tanta dor de cabeça, e diz que foi o próprio Almirante quem seria o responsável por fomentar a controvérsia que, por sinal, não acabará nunca...

NOTAS (por Fabio Gomes)Voltar

(l) De acordo com Bernardo Alves, "o Samba pernambucano aproveitado em 'Pelo Telefone'" tinha como letra original "Olha a rolinha/ Doce, doce/ Mimosa flor/ Doce, doce/ Presa no laço/ Doce, doce/ Do nosso amor/ Doce, doce." (in: A Pré-História do Samba, 2002, págs. 67-8).

(2) Estes são os versos que abrem a gravação de Bahiano.Voltar

 

(3) Pelo menos três outros sambas foram gravados antes de "Em Casa de Baiana": a Columbia, em 1908, registrou "Michaella", "Quando a Mulher não Quer" e "Brasilianas". (cf. ALVES, Bernardo, A Pré-História do Samba, 2002, pág. 248).Voltar

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