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HOMENAGEM A PLAUTO CRUZ

Por Fabio Gomes

 

O Clube do Choro de Porto Alegre está no palco do Theatro São Pedro. O grupo inicia uma música e pára em seguida. Todos se olham. O violonista Ênio reclama de algum problema no som. Novo início, nova parada. Algo não estaria bem. O músico Henrique Mann, apresentador do espetáculo, preocupado, volta ao palco. Em seguida, tudo se esclarece: o problema no som era a ausência do flautista Plauto Cruz, que então é conduzido ao palco em uma cadeira de rodas. Emocionado, o público que lotava o TSP aplaude de pé por alguns minutos. As pessoas na fila já se perguntavam se Plauto estaria no espetáculo que foi feito em sua homenagem no dia 3 de novembro de 2002, visando a arrecadação de recursos destinados ao tratamento do músico, que sofreu um acidente há pouco tempo. Pois ele estava e tocou quase uma hora!

Plauto demonstrou muita alegria em poder estar no seu lugar novamente – o palco. Seu fraseado na flauta e seu fôlego estão idênticos. Ele iniciou sua participação com uma música de sua autoria, seguindo com seu arranjo para “Carinhoso” (Pixinguinha – João de Barro). Após “Vou Vivendo” (Pixinguinha) (no qual sua interpretação chegou a lembrar Benedito Lacerda), o homenageado convocou Mann para acompanhá-lo ao violão (emprestado por Sampaio do Clube do Choro) em “Berimbau” (Baden Powell – Vinicius de Moraes). Violão devolvido, Plauto e o regional tocaram “Brasileirinho” (Waldir Azevedo). O flautista destacou a alegria de poder estar com todos os amigos, muito satisfeito e feliz. Um rapaz da platéia gritou: “O senhor merece!” Plauto, emocionado, chora. Em seguida, lágrimas enxugadas, agradece o atendimento recebido no Hospital São Lucas da PUC, elogiando desde a dedicação dos profissionais até a limpeza – e novamente lhe vêm as lágrimas.

A propósito do hospital, Plauto executou em primeira audição sua valsa “Ao São Lucas”, que prometeu incluir no próximo disco que gravar. Depois do clássico “Flor Amorosa” (Calado), o homenageado mencionou que tocaria “só mais uma”, mas um senhor pediu “Brejeiro” (Ernesto Nazareth) e Plauto não se fez de rogado, mandando ver com o Clube do Choro.

Num momento de grande emoção, o músico, comovidíssimo, pediu a Deus que nos acompanhasse e manifestou seu desejo de tocar para os amigos até seus últimos dias de vida. Para encerrar, Plauto escolheu “Sempre no Meu Coração” (Ernesto Lecuona – Kim Gannon). A esta altura, Mann retornou ao palco, preocupado porque o flautista estava tocando há mais de 45 minutos. Ficou acertado então que Plauto tocaria quanto tempo quisesse, mas não haveria bis – até porque já se falava nos bastidores em realizar outro show.

Pelo sim, pelo não, Plauto desta vez fez mesmo só mais uma: sua versão de “Amigos para Sempre” (que começa lenta e depois vira samba). Novamente o público aplaude de pé, mas compreensivelmente não pediu “mais um! Mais um!”.

Na primeira parte do show, o destaque foi a dupla Humberto Gessinger (dos Engenheiros do Havaí) no violão e Renato Borghetti na gaita-ponto apresentando o novo arranjo xote-balada para “Toda Forma de Poder”. Uma surpresa foi o número executado pela dupla Hique Gomes e Nico Nicolaiewski, uma canção em espanhol, incluída na temporada latino-americana de Tangos e Tragédias. A abertura ficou a cargo do trio de Frank Solari (ele na guitarra, Roger Solari no baixo e Kiko Freitas à bateria), com um choro elétrico. Também se apresentaram Jazz 6, Luís Carlos Borges & Marcello Caminha, Neto Fagundes & Ernesto Fagundes, Bebeto Alves, Elton Saldanha e Nenhum de Nós.

O espetáculo já vinha sendo articulado há algumas semanas, com muitos artistas querendo se apresentar e homenagear Plauto, combinando-se então que cada um faria apenas uma música, exceção feita ao Clube do Choro. Logo, já de saída os organizadores perceberam que seria necessária grande movimentação de bastidores (troca de músicos, afinação, ajustes) e haveria intervalos, por vezes longos, a cada apresentação. A solução adotada foi muito habilidosa: Henrique Mann, presidente da Agadisc (Associação Gaúcha do Disco Independente), faria a apresentação do evento, vindo à boca de cena enquanto no palco, atrás da cortina, os ajustes eram feitos. Em suas intervenções, Mann buscou conscientizar os músicos quanto à criação de um fundo de previdência para a categoria, citando o exemplo do próprio Plauto, que toca há 58 anos e não tem aposentadoria. Os órgãos de classe, como a Ordem dos Músicos, apenas fiscalizam o exercício da profissão. Já o ECAD não quis abrir mão de 10% da bilheteria, mesmo sabendo do destino da renda e da situação do homenageado. Segundo Mann, o ECAD se orgulha de não liberar direitos nem para o Hospital do Câncer Infantil! Mann mencionou ainda que todos os artistas que se apresentaram assinaram a liberação das músicas, visando não pagar nada ao ECAD. O público aplaudiu em peso.

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