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DE JOELHOS AOS VOSSOS PÉS:

Estudo da intensidade do tema religião na obra fonográfica do cantor

 Roberto Carlos no período 1961-2000 através da análise de conteúdo

 

 

FABIO DE OLIVEIRA GOMES

1076/96-6

Orientadora: MARIA BERENICE DA COSTA MACHADO

 Porto Alegre

                                                                                          2001

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4 - “EU VOU SEGUIR UMA LUZ LÁ NO ALTO”

            Até aqui, este trabalho apresentou uma revisão de conceitos de comunicação e os reflexos do avanço tecnológico sobre o ramo da comunicação constituído pela música popular, além da influência destes fatores nas mensagens emitidas pela Igreja Católica a partir da década de 1960, principalmente. Situando o catolicismo na escala evolutiva da idéia religiosa da humanidade, mostrou-se depois como a música sempre esteve a serviço da fé, particularizando-se o caso específico da relação entre música popular brasileira e Igreja nos anos 60, ocasião em que parte do clero pretendeu valorizar o iê-iê-iê para atrair fiéis. Embora não tenha se envolvido pessoalmente nas chamadas “missas do iê-iê-iê”, o então líder do movimento musical jovem brasileiro, Roberto Carlos, já tinha, para uma parcela do público e da crítica, sua imagem associada com religião. Para procurar entender como esse fenômeno se deu, passou-se então ao estudo da vida e da obra do artista, com especial atenção à sua carreira em disco, pela possibilidade de acesso permanente que este suporte proporciona ao público, contra a efemeridade das emissões de rádio e televisão. Também houve um aprofundamento na questão das relações de RC com a Igreja Católica e outras religiões.

A partir disso, tem-se o cenário adequado para estudar como o cantor trabalha a idéia religiosa em suas músicas.

 

4.1 - “À procura do caminho certo”: metodologia

Sendo a intenção do trabalho analisar mensagens emitidas na forma de música popular, a opção de método a ser empregado recaiu sobre a análise de conteúdo, pela adequação deste instrumento ao objeto. No dizer de Laurence Bardin, “cuando se tiene como tarea comunicaciones que se quiere comprender más allá de sus primeras significaciones, parece útil el recurso al análisis de contenido.” (Bardin, 1996: 21).

O método permite a superação das incertezas do pesquisador (que deve sempre se perguntar: “mi lectura es válida y generalizable?” - Bardin, 1996: 21) e o enriquecimento da leitura (reforçando ou invalidando a idéia inicial sobre o objeto). A técnica escolhida, por mais compatível, foi a da análise categorial, que “Funciona por operaciones de descomposición del texto en unidades, seguidas de clasificación de estas unidades en categorías, según agrupaciones analógicas”. (Bardin, 1996: 119).

 Bardin define a divisão do objeto em categorias como “una operación de clasificación de elementos constitutivos de un conjunto por diferenciación, tras la agrupación por género (analogía), a partir de criterios previamente definidos” (1996: 90), compreendendo duas etapas: o inventário (“aislar los elementos”, 1996: 91) e a classificação (“distribuir los elementos, y conseguientemente buscar o imponer a los mensajes una cierta organización”, 1996: 91).

A categorização condensa uma representação simplificada dos dados brutos a pesquisar, não devendo introduzir desvios no material. O objeto pode ser dividido em várias categorias, num sistema que permite a reorganização ao longo do processo, caso necessário. Numa análise que considere também o aspecto quantitativo (além do qualitativo), “las inferencias  finales son efectuadas sobre el material reconstruido” (Bardin, 1996: 91).

Bardin define a inferência como um “tipo de interpretación controlada” (1996: 103). A análise de conteúdo com inferência pode apoiar-se no emissor, no receptor, na mensagem (com ênfase no código ou na significação) ou ainda no canal. No presente trabalho, a ênfase será dada à significação advinda da mensagem (além do significado denotativo dos termos encontrados, considerar-se-á ainda o contexto onde eles ocorrem), apoiando-se também no emissor (no caso, o cantor Roberto Carlos) (“se puede plantear la hipótesis de que el mensaje expresa y representa al emisor”, Bardin, 1996: 103).

            Para a instrumentalização do presente trabalho, procedeu-se à audição de todos os discos de Roberto Carlos, para apurar-se quais as músicas em que se encontravam palavras relacionadas com a religião (“Deus”, “Jesus Cristo”, “Nossa Senhora”, “fé”, “crer”, “inferno”, “paraíso”, “anjo”, “santo”, “igreja”) considerando ainda as variações possíveis (ex: “crença”, “Maria”). Localizadas as músicas, foram procedidas nova audição e uma primeira leitura da respectiva letra, para a determinação da categoria em que cada canção se encaixaria. Nesta etapa, foi constatado o aparecimento em número bastante significativo nas músicas selecionadas dos termos “luz”e “olho o céu” (este, com muitas variações). Estes termos, então,  foram incorporados à análise, porque havia um indicativo que, para o emissor, eles possuíam uma conotação religiosa, talvez até mais importante que seus próprios significados denotativos comuns.

            Estabeleceram-se, então, as três categorias que dariam conta das diferentes formas de veiculação de termos ligados à religião na obra do cantor. As categorias eram, a saber:

            * explicitamente religiosa (A)- música que trata da religião ou de algum aspecto diretamente ligado a ela como tema principal;

            * implicitamente religiosa (B)- a utilização de palavras relacionadas com religião no texto poético da música introduz realmente um significado religioso secundário na canção, subjacente ao tema principal;

            * não-religiosa (C)- mesmo com a presença de vocábulos associados a religião, a música não tem caráter religioso.

            A Tabela 1 apresenta a discografia de RC em ordem cronológica, assinalando a ocorrência de músicas das três categorias em cada disco, permitindo estabelecer um percentual de músicas com termos religiosos em relação ao total de canções de cada disco.


ANO

DISCO

TOTAL DE

A

B

C

REPRESENTATIVIDADE

 

 

MÚSICAS

 

 

 

DO TEMA RELIGIÃO (%)

1961

Louco por Você

12

0

2

0

16,67

1963

Roberto Carlos

12

1

2

0

25,00

1964

É Proibido Fumar

12

0

0

0

0

1965

Canta a la Juventud

12

0

0

0

0

1965

Canta para a Juventude

12

0

1

0

8,33

1965

Jovem Guarda

12

0

0

2

16,67

1966

Roberto Carlos

12

0

1

1

16,67

1967

Em Ritmo de Aventura

12

0

0

0

0

1968

O Inimitável

12

0

0

0

0

1969

Roberto Carlos

12

0

0

0

0

1970

Narra Pedro e o Lobo

1

0

0

0

0

1970

Roberto Carlos

12

1

0

0

8,33

1971

Roberto Carlos

12

1

1

1

25,00

1972

Roberto Carlos

12

1

1

0

16,67

1973

Roberto Carlos

10

1

0

0

10,00

1974

Roberto Carlos

12

0

0

0

0

1975

Roberto Carlos

12

0

0

2

16,67

1976

San Remo 1968

12

0

3

0

25,00

1976

Roberto Carlos

12

0

0

0

0

1977

Roberto Carlos

12

0

0

1

8,33

1978

Roberto Carlos

11

1

0

0

9,09

1979

Roberto Carlos

10

0

1

1

20,00

1980

Roberto Carlos

10

1

0

0

10,00

1981

Roberto Carlos (em inglês)

10

0

0

0

0

1981

Roberto Carlos

10

1

1

0

20,00

1982

Roberto Carlos

10

1

0

1

20,00

1983

Roberto Carlos

10

1

0

0

10,00

1984

Roberto Carlos

9

1

1

1

33,33

1985

Roberto Carlos

10

0

1

1

20,00

1986

Roberto Carlos

10

1

1

1

30,00

1987

Roberto Carlos

10

0

1

0

10,00

1988

Ao Vivo

10

1

1

1

30,00

1988

Roberto Carlos

10

1

1

0

20,00

1989

Roberto Carlos

9

0

0

1

11,11

1990

Roberto Carlos

10

0

1

0

10,00

1991

Roberto Carlos

9

1

0

0

11,11

1992

Roberto Carlos (coletânea)

12

1

1

0

16,67

1992

Roberto Carlos

10

0

1

0

10,00

1993

Inolvidables

10

0

0

0

0

1993

Roberto Carlos

9

1

1

0

22,22

1994

Roberto Carlos

9

1

2

0

33,33

1995

Roberto Carlos

9

1

0

0

11,11

1996

Roberto Carlos

10

2

0

0

20,00

1997

Canciones que Amo

10

1

0

1

20,00

1998

Roberto Carlos

10

1

0

0

10,00

1999

Mensagens

12

12

0

0

100

1999

30 Grandes Sucessos

30

6

2

0

26,67

2000

30 Grandes Canciones

30

3

1

0

13,33

2000

Amor sem Limite

10

1

0

0

10,00

 

TOTAL:

556

45

28

15

15,33

(média)

           

Foram contabilizadas todas as músicas dos discos lançados por Roberto Carlos no Brasil, incluindo-se aí as regravações, os relançamentos e as versões em espanhol e em inglês.

            Na Tabela 2, são apresentadas, uma a uma, todas as canções onde foram encontrados os termos religiosos, determinando-se aí a categoria a que cada música pertence.   


TABELA 2 - MÚSICAS ONDE OCORREM TERMOS RELIGIOSOS

 

                                                                                                  MÚSICA

DEUS

JESUS

 

 

SRª

LUZ

OLHO

 

CÉU

CRER

INFERNO

PARA-ÍSO

ANJOS

SANTOS

IGRE- JA

NÃO É POR MIM

X

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SÓ VOCÊ

X

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ORAÇÃO DE UM TRISTE

X

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

QUERO ME CASAR CONTIGO

X

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ONDE ANDA O MEU AMOR

X

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PAREI, OLHEI

X

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

QUERO QUE VÁ TUDO PRO INFERNO

 

 

 

 

 

 

 

X

 

 

 

 

MEXERICO DA CANDINHA

 

 

 

 

 

 

 

X

 

 

 

 

ESPERANDO VOCÊ

 

 

 

 

 

 

 

 

 

X

 

 

É  PAPO FIRME

 

 

 

 

 

 

 

X

 

 

 

 

JESUS CRISTO

 

X

 

 

X

X

 

 

 

 

 

 

TODOS ESTÃO SURDOS

X

 

 

X

 

 

 

 

 

 

 

 

DEBAIXO DOS CARACÓIS DOS SEUS CABELOS

 

 

 

 

 

 

 

 

X

 

 

 

TRAUMAS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

X

 

 

A MONTANHA

X

 

 

X

X

 

 

 

 

 

 

 

ACALANTO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

X

 

 

O HOMEM

 

 

 

X

 

 

 

 

 

 

 

 

ALÉM DO HORIZONTE

 

 

 

 

 

 

 

 

X

 

 

 

AI QUE SAUDADE DA AMÉLIA

X

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CUSTE O QUE CUSTAR

X

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

MARIA, CARNAVAL E CINZAS

 

 

X

 

 

 

 

 

 

 

X

 

AMIGO

 

 

 

 

X

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

X

X

X

 

 

 

 

 

 

O ANO PASSADO

X

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NA PAZ DO SEU SORRISO

 

 

 

 

 

 

 

 

X

 

 

 

A GUERRA DOS MENINOS

X

 

 

X

X

 

 

 

 

 

 

 

ELE ESTÁ PRA CHEGAR

 

X

 

X

 

 

 

 

 

 

 

 

EMOÇÕES

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PENSAMENTOS

X

 

 

X

 

 

 

 

 

 

 

 

FIM DE SEMANA

X

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ESTOU AQUI

 

X

 

X

X

 

X

 

 

 

 

 

ALELUIA

X

 

 

X

 

X

 

 

 

 

 

 

CAMINHONEIRO

X

 

 

 

 

X

 

 

 

 

 

 

SABORES

 

 

 

 

 

 

 

 

X

 

 

 

PAZ  NA TERRA

X

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

VERDE E AMARELO

 

 

 

 

X

 

 

 

 

 

 

 

APOCALIPSE

 

 

 

X

 

 

 

 

 

 

 

 

AQUELA CASA SIMPLES

X

 

 

 

X

 

 

 

 

 

 

 

AMOR PERFEITO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

X

 

 

ÁGUIA DOURADA

X

 

 

 

 

X

 

 

 

 

 

 

IMAGINE

 

 

 

 

 

 

 

X

X

 

 

 

TODA VÃ FILOSOFIA

 

 

 

 

X

 

X

 

 

 

 

 

TODO MUNDO É ALGUÉM

X

 

 

X

 

 

 

 

 

 

 

 

AMAZÔNIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

X

 

 

QUERO PAZ

 

X

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LUZ DIVINA

 

X

 

X

 

 

 

 

 

 

 

 

HERÓI CALADO

X

 

 

X

X

X

 

 

 

 

 

 

NOSSA SENHORA

X

X

X

 

X

 

 

 

 

 

 

 

O VELHO CAMINHONEIRO

 

X

X

 

 

X

 

 

 

 

X

 

JESUS SALVADOR

 

X

 

X

X

X

 

 

 

 

 

 

O TAXISTA

X

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

QUANDO EU QUERO FALAR COM DEUS

X

X

 

X

 

 

 

 

 

 

 

 

O TERÇO

X

X

X

 

X

 

 

 

 

 

 

 

O HOMEM BOM

 

X

 

X

X

 

 

 

 

 

 

 

LAS MUCHACHAS DE LA PLAZA ESPAÑA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

X

CORAÇÃO DE JESUS

X

X

 

 

 

 

X

 

 

 

 

 

MEU MENINO JESUS

 

X

 

 

 

X

 

 

 

 

 

 

TODAS AS NOSSAS SENHORAS

X

X

X

X

X

 

 

 

 

 

 

 

TU ÉS A VERDADE, JESUS

 

X

 

 

 

 

 

X

 

 

 

 

 

 

 Explicitamente religiosa

 Implicitamente religiosa

  Não-religiosa

 

               

 

            Cabe assinalar que, nas regravações, nos relançamentos e nas versões em espanhol e em inglês, não houve alteração significativa da mensagem religiosa (mormente em relação aos relançamentos, que nada mais são que a mesma gravação de um disco editada num outro, não havendo alteração de mensagem possível). Das versões em espanhol, “Camionero” (“Caminhoneiro”) perdeu a referência a Deus contida na letra em português, ao contrário de “Jesucristo” (“Jesus Cristo”), “Luz Divina”, “Emociones” (“Emoções”) e “La Montaña” (“A Montanha”), em que a informação religiosa se mantém no mesmo nível que no original brasileiro. Entre as regravações, a exceção fica por conta de “Custe o que Custar”, devido à modificação que Roberto fez na letra quando a regravou, alterando o teor da mensagem, o que não aconteceu com “Quero que Vá Tudo pro Inferno” (no disco anual de 1975), “Ele Está pra Chegar” e “Emoções” (no disco Ao Vivo, 1988).

4.2 -  “A luz que vem do alto aponta o meu caminho”: análise e discussão

Contabilizando-se os resultados da tabela 2, constata-se que o termo com maior número de ocorrências foi “Deus” (presente em 27 músicas), seguido por “Jesus Cristo” e “luz” (22 cada), “fé” (19), “olho o céu” (12), “anjo” (7), “paraíso” (5), “Nossa Senhora”, “crer” e ”inferno” (4 cada), “santos” (3) e “igreja” (1), levando-se em conta as variações possíveis. Não se considerou a referência velada a estes termos, salvo em “Quero Paz”, onde “Ele” refere-se a Jesus Cristo, e em “Maria, Carnaval e Cinzas”, onde “Marias de santas” remete a Nossa Senhora. Nestes casos, a não se considerar estas referências, as músicas ficariam excluídas da análise, distorcendo o resultado.

Um dado relevante a considerar é que a utilização de termos religiosos é constante na obra do artista (afora um período de quatro anos no final dos anos 60).

Roberto Carlos costuma se apresentar, em diversas entrevistas, como “um homem de fé” (“Supero sempre qualquer problema com confiança: sou um homem de fé!”, in: Leme, 1979: 11; “Tudo o que eu faço está ligado a religião”, in: Cavalcanti, 1983: 74; “Eu sou um homem de muita fé, sim. De muita fé, de muitas orações”, declarou à Rádio Gaúcha em 1993). É assim também na canção “Emoções”, onde, para sublinhar o quanto é importante para ele reencontrar-se com a amada, ele vê a necessidade de definir seu estado de espírito: “Em paz com a vida/ E o que ela me traz/ Na fé que me faz/ Otimista demais”.

Nem sempre essa definição foi tão clara assim, porém. A faixa que abre o primeiro LP de Roberto Carlos, Louco por Você, “Não É por Mim”, apresenta uma forma inusitada de raciocínio. Descrente de que sua amada possa gostar dele (ou, pelo menos, chorar por ele), o cantor atribui tal relevância ao fato que afirma: se alguém convencê-lo disso, ele passará a acreditar em Deus. Simbolicamente, a carreira de RC se inicia entrelaçando dois dos principais temas das músicas que gravaria ao longo dos quarenta anos seguintes - embora, como se sabe, o tratamento dado ao assunto religioso tenha se modificado completamente.

Um cantor que se define como “muito religioso” não poderia, aparentemente, condicionar desta forma sua crença em Deus. Basta observar como, na fase religiosa, Roberto alterou parte da letra na regravação de “Custe o que Custar”: o que, em 1967, era “Será, meu Deus, enfim/ Que eu não tenho paz?” transformou-se em “Somente em Deus, enfim/ É que eu encontro a paz”. Uma dúvida dirigida a Deus foi modificada para uma afirmação, agora voltada ao público. Marcelo Ferla considera o fato “uma mudança que respeita os firmes dogmas religiosos seguidos pelo cantor” (Ferla, Roberto Carlos administra a majestade, Zero Hora, Porto Alegre, 07/12/1994). Já a revista Qualis, em nota não assinada, criticou: “Roberto (...) continua a fugir das principais perguntas feitas sobre sua vida particular e artística.” A troca dos versos foi assim justificada por ele: “Eu não ia me sentir bem cantando ‘será meu Deus enfim, que eu não tenho paz’”. (“O Rei” continua na mesma toada e sem responder perguntas. Qualis, São Paulo, janeiro de 1995).

Parece claro que o que Edson Ribeiro e Hélio Justo (os autores de “Custe o que Custar”) pretendiam era dividir uma angústia com Deus e não duvidar d’Ele. De qualquer modo, Roberto, na primeira música explicitamente religiosa que gravou, “Oração de um Triste”, chegara ao questionamento direto: “Que Deus me perdoe/ Se, às vezes, duvido de Sua existência”. Mesmo assim, antecede o possível confronto um pedido antecipado de perdão. Ou, por outro lado: quando o cantor chega a externar sua dúvida (Deus existe ou não?), ele já tem a resposta (sim). De outra forma, como abrir a canção pedindo-Lhe perdão?

Os outros registros de dúvidas dirigidas a Deus também O apresentam como um interlocutor onisciente. Tratam-se das músicas “Onde Anda o Meu Amor” (em que o cantor se lamenta por ter perdido a amada) e “Quero me Casar Contigo” (na qual ele, após pedir à amada que não o abandone, pergunta: “Meu Deus do céu,/ O que será de mim?”). Também é como interlocutor que Deus aparece no clássico “Ai que Saudade da Amélia”, mas apenas ouvindo.

O problema não consistiria, talvez, em se dirigir perguntas a Deus, e sim no caráter da dúvida. É o que parece acontecer em “Pensamentos”, onde Roberto transmite a convicção de sempre receber a orientação correta: “As perguntas que me faço/ São levadas ao espaço/ E de lá eu tenho todas as respostas que eu pedi”.

 Entre as músicas do início da carreira de Roberto, aparecem os únicos pedidos de auxílio em questões amorosas. A primeira é em “Esperando Você”: “Já fiz promessa e oração/ Pedi aos anjos que guardassem nosso amor”.  Promessas também são feitas em “Parei, Olhei”: “Fiz juras, fiz promessa para encontrar/(...)// Porém/ Se Deus/ Me der a graça de encontrar/ Aquela bonequinha não vai mais fugir/Pois com ela eu vou me casar.” Aqui, o apaixonado conta com a graça divina, mas, diversamente do que ocorre em “Esperando Você”, em “Parei, Olhei” ele colabora com o objetivo proposto (encontrar a amada), voltando ao local onde a viu e anunciando no jornal.

Além de duas comparações em músicas não-religiosas envolvendo anjos (a amada ausente é um “Anjo bom, amor perfeito/ No meu peito”, em “Amor Perfeito”; já em “Amazônia”, as árvores abatidas são “anjos feridos”), eles comparecem ainda em “Acalanto” -  uma canção de ninar que apresenta uma visão popular-tradicional do céu: “Lá no céu/ Deixam de cantar/ Os anjinhos/ Foram se deitar”  - e em “Traumas”, a primeira das duas músicas que fez comentando seu acidente na infância. Aqui ele menciona “os anjos que eu conheci/ No delírio da febre que ardia/ No meu pequeno corpo que sofria/ Sem nada entender”, lamentando-se que  aqueles anjos / Agora já se foram/ Depois que eu cresci./ (...)/Aqueles anjos no tempo eu perdi”. Pode-se atribuir a visão dos anjos, num delírio de febre, à iminência da morte que se apresenta numa ocasião como o acidente, mas a letra parece pender mais para, mesmo numa moldura “adulta”, a tradicional visão dos anjos como seres que teriam como missão guardar os seres humanos (esta tarefa, por vezes, pode ser confiada diretamente a Deus, como em “Aquela Casa Simples”). Ronaldo Bôscoli assim comentou a inclusão de “Traumas” em um show:

 

“Com muita dignidade, [Roberto] assumiu publicamente no show o ‘defeito’  físico. Eu e Miéle colocamos um telão (telão pra época), com uma catedral ao fundo, cheia de vitrais belíssimos. Sobre ele, aos poucos iam batendo ‘manchas de sangue’, que escorriam. Cortava para a imagem de um teto de hospital, cheio de luzes passando rápido - do ponto de vista de um cara sendo levado numa maca. E aí, no palco, Roberto aparecia e cantava ‘Traumas’. Um momento emocionante.” (Maciel e Chaves, 1994: 132)

 

            Mais uma vez, temos aqui a associação do cantor com símbolos ligados à religião: agora é uma catedral. Aliás, só há uma referência nas músicas de RC a “igreja”, em “Las Muchachas de la Plaza España”: “Hasta las campanas de la iglesia/ Cantan alegrías/ Para el corazón” - mas ele está na praça, ouvindo ao longe os sinos da igreja, enquanto admira as moças, e não no interior do templo.

            É bastante significativa a ausência de citações sobre a igreja, entendida como um local específico onde o ser humano estaria em contato com Deus. Roberto Carlos transmite a idéia de Deus está em toda a parte (“A luz que vem do alto/ Aponta o meu caminho/ É forte no meu peito/ Eu não ando sozinho/ Te vejo pelos campos/ Te sinto até nos ares/ Te encontro nas montanhas/ E te ouço nos mares”, “Fé”). A onipresença de Deus também aparece  em “Toda Vã Filosofia”: “Esteja onde eu estiver/ Creio em você/ Eu estou em segurança”. Se Deus se faz presente em toda a Sua criação, não há lugar inseguro para quem crê.

Mesmo estando em todos os lugares, Deus tem Sua morada no céu, de acordo com a tradição bíblica e popular. Assim sendo, olhar o céu faz com que RC se lembre da presença física de Deus ali, o que o alegra e reconforta. Esta imagem, como já foi dito, é peculiar no conjunto da obra religiosa de Roberto Carlos, aparecendo de forma recorrente, com algumas variações: “olho pro céu” (“Jesus Cristo”), “olho pro espaço” (“Fé”), “olho o céu” (“Aleluia”), “olho o horizonte”(“Caminhoneiro”), “olhando o céu”/”olho no alto” (Águia Dourada), “olha o céu” (“Herói Calado”, “O Velho Caminhoneiro”), “olhei o céu”(“Jesus Salvador”), “veremos no céu” (“Meu Menino Jesus”).

Outra imagem recorrente e peculiar à obra do artista é a “luz”. Para RC, a luz pode ser o caminho que o fiel deve seguir (“Todos Estão Surdos”, “A Montanha”, “Fé”, “Estou Aqui”, “Herói Calado”), o amor e a paz (“Pensamentos”) ou a promessa de um novo mundo (“Apocalipse”). Freqüentemente, a luz está associada diretamente com Jesus Cristo (“O Homem”, “Ele Está pra Chegar”, “Luz Divina”, “Jesus Salvador”) ou com Deus (“A Guerra dos Meninos”, “Aleluia” e “Quando Eu Quero Falar com Deus”). Em “Aleluia”, o cantor chega a estabelecer uma definição: “Deus, a luz maior, a explicação”. Sendo a luz tão fortemente associada a Deus, a Jesus ou mesmo à mensagem religiosa, nada mais natural que, em “O Homem Bom”, este, entre outras virtudes cristãs exaltadas, tenha “luz na alma e na sua voz”.

A palavra “fé” ocorre em duas músicas não-religiosas. Em “Amigo” (“Você, meu amigo de fé”) é aproveitada uma expressão popular significando “leal, de confiança”; em “Verde e Amarelo” (“Boto fé, não me iludo”), o artista dá vazão a seu entusiasmo com o Brasil, num momento de redemocratização com o fim da ditadura militar.

Em “Águia Dourada”, uma música da temática ecológica, apenas é constatado que ela voa próxima de Deus, que, no entanto, não é invocado para que os homens aprendam a cuidar da natureza, como acontece em “O Ano Passado”, ou para que cessem as guerras (“Paz na Terra”, “Quero Paz”), ou reconheçam a importância do trabalho dos humildes (“Todo Mundo é Alguém”, “Herói Calado”).

Da mesma forma que a águia, voando, se aproxima d’Ele (“Meus pensamentos/ Sempre te encontram/ Voando perto de Deus”, “Águia Dourada”), o homem também pode fazer o mesmo, subindo numa montanha, por exemplo. “A Montanha” é um amostra exemplar das características básicas das músicas religiosas de Roberto Carlos. Além da já citada proximidade de Deus, aqui o cantor não formula nenhum pedido pessoal (pede pelas estrelas e pelas crianças, agradecendo mais adiante,  e pela gratidão dos homens, da qual ele, por assim dizer, dá um exemplo). Mais ainda, a melodia e a letra da canção comentam-se mutuamente, enriquecendo a mensagem. O gênero da música é marcha, que sugere a idéia de movimento, caminhada (“eu vou subir”, “toda minha escalada”). O coro seria, então, o mundo (“o mundo me ouvir e acompanhar”). O tom da música, inicialmente dó maior, sobe continuamente, concluindo em mi maior, o que representa que, durante toda a canção, ele continua subindo a montanha, ficando ainda mais perto de Deus, e quanto mais grato (após as duas primeiras estrofes, a letra só traz agradecimentos), mais sobe.

Essa característica de subir o tom da melodia (embora em nenhuma outra música analisada aqui ela suba tanto), de todo modo um procedimento comum em música romântica, é costumeiramente utilizado por Roberto para anunciar a presença de Deus na canção. É assim em “A Guerra dos Meninos”, “Fim de Semana” e “Caminhoneiro”. Em “Aleluia”, o processo se altera um pouco: o tom sobe logo depois que Deus é mencionado. Mesmo que a melodia não suba, é comum (talvez por hábito composicional) Roberto falar em Deus no final da letra, quando não se trata da categoria explicitamente religiosa: “O Ano Passado”, “Só Você” e “O Taxista”. Já em “O Velho Caminhoneiro”, ele menciona São Cristóvão, Jesus e Nossa Senhora.

Outro recurso musical para ressaltar a menção a Deus é a alteração, por alguns momentos, do ritmo predominante na composição (um recurso chamado por Julio Medaglia de “silêncio expressivo”: “O corte abrupto [...] chama imediatamente a atenção do espectador que, assim, assimila a frase com muito mais gana. O silêncio e não o som deu uma carga expressiva maior àquele fragmento do texto”, Medaglia, 1988: 310). O ritmo fica mais lento, por vezes apenas um órgão ou um violino sustentam a voz do cantor,  e em seguida, volta-se ao andamento anterior. Isto ocorre em “O Ano Passado”, “Fim de Semana” e “Aleluia”.

O céu não aparece relacionado nas músicas de RC com o paraíso. Existem quatro menções não-bíblicas do paraíso em sua obra (A única aparição de “paraíso” com o sentido bíblico é em “Imagine”, que será analisada ao final deste capítulo). A primeira é na canção que homenageia Caetano Veloso, “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos”. Lançada em 1971, quando o compositor baiano encontrava-se exilado em Londres, a música compara a areia branca da praia ao paraíso. Depois, em “Além do Horizonte”, Roberto apresenta uma versão do paraíso onde, diferentemente da pregação católica, existe o amor carnal. As outras menções, de forma mais suave, seguem esta linha. Em “Na Paz do Seu Sorriso”, ele diz à amada: “Perco o juízo/ Pois o paraíso é o que você me dá”. “Sabores” parte da mesma idéia: “E sinto tanta paz nesse sorriso/ Que às vezes penso estar no paraíso”. O paraíso, aqui, seria apenas um lugar, ou antes, uma situação muito agradável, não havendo caráter religioso.

Da mesma forma, configura-se a questão envolvendo a música “Quero que Vá Tudo pro Inferno”. Analogamente a “paraíso” nas músicas comentadas acima, com “inferno” Roberto pretendia designar algum lugar ou situação muito ruins (em “Mexerico da Candinha”, ele reclama: “A Candinha quer fazer da minha vida um inferno”), nos quais ele não queria estar (naturalmente preferindo o calor proporcionado pela amada), e não o inferno cristão para onde iriam os pecadores arder em chamas eternas.  Mas esta interpretação não prevaleceu, na época. O poeta Augusto de Campos, em artigo publicado em 14 de outubro de 1966 no Correio da Manhã, comentava:

Cúmulo do paradoxo, já há notícia de que surgiram no Recife romances de cordel narrando o confronto do rei do iê-iê-iê nacional com Satanás, glosando o tema da música ‘Quero que Vá Tudo pro Inferno’.” (Campos, 1993: 62)

 

            Caetano Veloso, em dois momentos, menciona pressões que Roberto teria sofrido da Igreja Católica por causa da música. A primeira menção é no artigo de 1986 para a Folha de São Paulo já citado no item Roberto Carlos e a Religião:

Roberto Carlos teve problemas com os bispos, no início da carreira, por causa da inesquecível canção ‘Quero que Vá Tudo para o Inferno’. Parece que recebeu pressões para escrever ‘Eu te Darei o Céu’. Tais pressões o impressionaram demais. Todo mundo esqueceu? (Fonseca: 1993, 90)

 

            O outro momento foi em seu livro Verdade Tropical:

“Roberto Carlos, um grande talento e um espanto de carisma (...) poderia, com boas razões, ser chamado de o Elvis do Brasil: em plena maturidade da bossa nova, tornou-se um fenômeno de vendas cantando o quase-rock ‘Quero que Vá Tudo pro Inferno’, recebeu reprimendas das autoridades eclesiásticas (e então compôs ‘Eu te darei o céu’) e foi chamado de rei, título que ostenta até hoje, sem que ninguém lho negue, quando canta baladas sentimentais para um público de meia-idade.” (Veloso, 1997: 46)

 

            Como já foi visto, na época da Jovem Guarda as relações do artista com o clero já eram boas e freqüentes, mesmo após o lançamento de “Quero que Vá Tudo pro Inferno” - aliás, música-tema da campanha do agasalho que a Igreja apoiou. Não parece plausível que Roberto, na época, se sugestionasse com “reprimendas”. A celeuma que uma versão da música causou nas “missas do iê-iê-iê” foi mais pelo fato de ser um rock do que pelo termo “inferno” em si, que não foi pronunciado dentro da igreja. De todo modo, o argumento de Caetano Veloso cai por terra a um simples exame do disco que se seguiu ao de “Quero que Vá Tudo pro Inferno”: ao lado de “Eu te Darei o Céu”, o disco Roberto Carlos (1966) contém a faixa “É Papo Firme”, falando de uma garota que “Manda tudo pro inferno/  E diz que hoje isso é moderno”. O livro de Roberto, Em Prosa e Versos, também não apóia Caetano. No texto da crônica Eu te Darei o Céu, ele fala de saudade da amada e de promessas de felicidade romântica, associado a flores, passarinhos e o azul do céu (cf. Roberto Carlos, Em Prosa e Versos, vol. 1, 1967: 100) .

            Atualmente, Roberto não inclui “Quero que Vá Tudo pro Inferno” em seus shows. A julgar pelas aparências, seu maior sucesso da Jovem Guarda (ausente da coletânea 30 Grandes Sucessos, por exemplo) não seria considerado por ele compatível com sua fase religiosa.

            Esta fase, aberta por “Nossa Senhora” em 1993, evidencia uma sensível mudança na forma de expressão da religiosidade por RC. De “Jesus Cristo” (1970) a “Luz Divina” (1991), a forma como ele se dirigia a Deus e a Jesus era sempre respeitosa, mas havia uma idéia de intimidade: “você, meu Pai” (“Jesus Cristo”), “você é meu escudo” (“Fé”), “Jesus, meu amigo” (“Luz Divina”), “Cristo, meu amigo” (“Estou Aqui”). Era possível ao fiel dizer a Jesus: “Quero caminhar do seu lado e segurar sua mão” (“Luz Divina”).

            A partir de 1993, no entanto, o artista adota um tom reverencial. Quem antes chamava Deus de “você” passou a recorrer aos pedidos de intercessão comuns à tradição católica: “Interceda por mim, minha Mãe,/ Junto a Jesus” (“Nossa Senhora”).  Na mesma música, a mão a ser estendida pela Virgem Maria era pedida pelo fiel “de joelhos” . Roberto também se ajoelha em “O Terço” e “Todas as Nossas Senhoras”, ambas igualmente dirigidas à Virgem Maria (antes da fase religiosa, reitere-se, a Virgem só havia aparecido numa referência velada em “Maria, Carnaval e Cinzas”).

            A forma musical de expressão da religiosidade de Roberto também registrou mudanças a partir da fase religiosa. Inicialmente suas músicas religiosas (como “Jesus Cristo” e “Todos Estão Surdos”) eram as faixas mais pop dos discos da fase romântica. “A Montanha”, como foi visto, era uma marcha, um ritmo tradicional brasileiro. Em “O Homem”, “A Guerra dos Meninos” e “Ele Está pra Chegar”, o arranjo de orquestra é solene e triunfante, ao passo que as guitarras de “Apocalipse”, mais o coro entoando um vocalise constante, chegam a soar ameaçadoras para as “mentes em eclipse”. Em “Ele Está pra Chegar”, ainda, observa-se um coro gospel, também presente em “Aleluia”, “Luz Divina” e “Todo Mundo é Alguém” - e em todas elas, especialmente na última, ocorre o esquema chamada-e-resposta característico do canto antifonal.  Durante a fase religiosa, predominam as melodias tranqüilas, com pouco ritmo, a voz de Roberto dobrada sublinhando os principais trechos, acompanhamento à base de órgão ou teclados, geralmente sem coro. Quando há coro, como em “Coração de Jesus”, pode ocorrer o entretecimento de vozes. Ou seja: ao menos conceitualmente, Roberto Carlos traz ao público contemporâneo o canto gregoriano (que aparece formalmente em algumas sustentações de nota em “O Terço”, tendo como único antecedente “Oração de um Triste”).

            “Tu És a Verdade, Jesus” (2000), a mais recente música englobada na análise, já parece apontar para um novo tipo de relação de Roberto com a religião. Continuam a melodia lenta e a voz dobrada. Mas volta-se ao tratamento íntimo para com Jesus (‘tu” e “você”) e a imagem de caminhar juntos (“E estou seguindo/ Segurando a sua mão”).

            O caráter mais reverencial não vem a constituir num impedimento do acesso direto, entretanto. Em “Quando Eu Quero Falar com Deus”,  Roberto afirma que isso pode se realizar a qualquer hora, bastando elevar o pensamento, voltando a lembrar a presença de Deus em toda a natureza. Esta composição parece ser uma resposta a “Se Eu Quiser Falar com Deus”, que Gilberto Gil fez para Roberto, este não a tendo gravado. Numa entrevista concedida em 1996, quando já havia lançado “Quando Eu Quero Falar com Deus” (sem que os jornalistas presentes à coletiva tivessem feito uma relação entre as duas obras), ele justificou: “Não gravei, justamente pelo tipo de letra. Gil não está exatamente falando de Deus. Ali está simbolizando, de certa forma. Não é a forma como gosto de falar”. (In Sanches,1996: 5). A respeito, Gil comentou:

 

“O que chegou a mim como tendo sido a reação dele, Roberto Carlos, foi que ele disse que aquela não era a idéia de Deus que ele tem. ‘O Deus desconhecido’. Ali, a configuração não é a de um Deus nítido, com um perfil claro, definido.” (Gil, 1996: 240).

 

 

            Um tanto deslocada da idéia geral que está presente na maioria das composições aqui analisada é “Imagine”. Tratando predominantemente da paz, o clássico do ex-beatle John Lennon pede às pessoas que imaginem não haver paraíso, inferno ou religiões, todas as pessoas constituindo uma irmandade. O céu seria apenas o céu e não o paraíso (neste ponto, ao menos, há uma concordância: Roberto não associa paraíso e céu, como já foi visto). Mas não se pode deixar de perceber uma discrepância em relação ao pensamento de RC. A paz, em suas músicas aparece associada a Deus, tanto na temática pacifista quanto na religiosa (“O bem maior:/ A paz, o amor e Deus!” - “A Guerra dos Meninos”).

            “Imagine” faz parte do disco Ao Vivo (1988), onde foi gravada em inglês por Roberto em dupla com a cantora Gabriela. Enquanto ela canta o início da composição, Roberto lê um texto sobre a paz, falando de Pablo Picasso e John Lennon, passando a acompanhar a menina a partir do refrão. Desta forma, intencionalmente ou não, ele não pronuncia os versos em que Lennon propõe não haver religião, inferno ou paraíso. Mesmo considerando que a gravação é em inglês, um código não completamente dominado pelo receptor (o público brasileiro), fica patente esta ambigüidade: a preocupação de Roberto em não figurar como emissor de uma parte da mensagem que contraria sua fé, embora, por outro lado, esteja-a veiculando no seu disco-periódico.


CONCLUSÃO

                       

“Eu sou o que canto.”

(Roberto Carlos, em entrevista ao Fantástico. TV Globo, 1994).

 

“Agora, é importante ressaltar uma coisa: Roberto não faz tipo. Ele efetivamente leva as crenças e manias a sério. Não é curtição mesmo. Todas as vezes, antes de entrar num palco, ele faz uma oração. Concentra-se e ora com sinceridade. Às vezes com a mãe, Lady Laura.” (Maciel e Chaves, 1994: 134)

 

            A proposta deste trabalho foi avaliar o conteúdo de uma mudança de caráter na emissão de mensagem, partindo do exemplo concreto da transformação do repertório de Roberto Carlos de romântico para religioso. Efetivamente, como foi visto, a mudança aconteceu, podendo ser localizada a partir de 1993. A mudança consistiu num maior destaque dado às músicas religiosas e ao virtual desaparecimento de canções com acentos eróticos, tônica de sua obra por um largo período. As músicas eróticas mostraram-se incompatíveis, na visão do cantor, com a intensificação de sua postura religiosa, sendo então descartadas.

            Dentro da própria linha religiosa, ainda, verificou-se a alteração da forma de expressar o sentimento cristão. De uma relação quase íntima com Deus e Jesus Cristo, expressa em músicas ritmadas com influência gospel, RC passou a cantar sua fé de forma reverencial, em canções que musicalmente traziam de volta, de forma conceitual, aspectos do canto gregoriano.

            Estabelecido o que, quando, como e em que se processou a mudança, temos os elementos para inferir o por quê. A alteração ocorreu devido a três fatores: o relacionamento do cantor com Maria Rita, católica fervorosa que o aproximou do movimento Renovação Carismática; o amadurecimento do artista, tanto o que o passar do tempo proporciona quanto o gerado pelas dificuldades pessoais que enfrentou recentemente (doença e morte da esposa, reclusão); além disso, era um caminho apontado desde o início em sua obra. Desde cedo Roberto tratava de assuntos ligados direta ou indiretamente à religião, principalmente em seu aspecto popular (do qual ele nunca se afastou), e sempre teve sua imagem associada à fé.  Desta forma, a tendência natural do artista foi renovada por seu amor e acentuada na dor.

 

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