Brasileirinho - Principal

Voltar ao Menu - Artigos

 

CHAMA ACESA

Por Cláudio Jorge

 

É pensando em todos os brasileiros amantes da cultura de sua terra que escrevo este texto falando de uma roda de Samba que conheci em Santo Amaro, São Paulo. Dedico este texto a estes brasileiros, que como eu, vivem a angústia do retrato atual da nossa realidade cultural. Depois desta noite, sempre que me referir a este assunto, falarei em cultura brasileira aparentemente ameaçada. Digo aparentemente por conta do que eu vi no "Samba da Vela". Foi animador. Um sopro de felicidade, prazer, esperança, alegria, amizade, uma emoção muito especial enfim.

Então, caro leitor, imagine através destas mal traçadas linhas o lugar e o fato que eu vou lhes contar. Vamos nessa.

Segunda feira, 20 horas. Salão central do Centro Cultural de Santo Amaro, São Paulo. Quando se chega por perto já se ouvem as vozes de homens e mulheres cantando um Samba. Cheguei na portaria curioso e animado, pronto para descolar logo uma latinha e cair dentro da roda. Na portaria, uma contribuição de R$2,00 para ajudar na produção dá direito a um caderno cheio de letras de música. Dou uma olhada rápida, não entendo propósito do caderno e vou em frente. Aí o primeiro choque. Cerca de duzentas pessoas em pé e sentadas em torno de uma mesa e uma vela acesa. Lá, Chapinha, os garotos do Quinteto em Branco e Preto e outros músicos tocavam e cantavam. A cada momento era chamada uma pessoa para ir lá e cantar seu Samba. Aí, meus amigos, a ficha começou a cair e o bicho pegou.

Os caras se encontram para cantar Sambas inéditos. Samba carimbado pelo sucesso não vale. No caderno, que é editado uma vez por mês, estão os Sambas que tiveram mais aceitação pelo público nas semanas anteriores. Todos cantam e aplaudem muito no final. Emocionante. O nível dos Sambas é alto e a faixa etária média é abaixo dos 30 anos. Enquanto a vela estiver acessa o Samba não pára e, dependendo do clima, que pra minha sorte estava especial naquele dia, o Samba segue mesmo com a vela apagada.

Fui gentilmente convidado a dar uma canja e quase chorei ao sentir a confirmação do que vi escrito numa faixa ao alto: "O silêncio é uma oração". A atenção para o que é ali cantado é total na primeira vez do Samba, "na volta" já rola até um coro e palmas e, se o Samba for daqueles, o pessoal levanta das cadeiras e sacode a poeira. Pra completar, não há sistema de som, nem serviço de bar. Apenas um pequeno gravador ao lado da vela que serve para gravar os encontros. Se existe um templo do Samba é lá no Samba da Vela. Inacreditável. Emocionante. Maravilhoso e como não podia deixar de ser, invejável.

Saímos de lá depois da meia-noite e a grande maioria se manda para pegar o último ônibus para os seus destinos. Os motorizados ou os que perderam a condução, se concentram bar em frente e aí tudo recomeça, só que regado a cervejas e vale cantar o que quiser.

Foi um grande presente de Natal que ganhei do Mano Heitor, parente do Martinho da Vila que lá me levou. Foi a confirmação de tudo que sempre achei e lá encontrei. Há uma grande juventude brasileira envolvida com a criação e divulgação do Samba brasileiro. Há um Brasil que não aparece no rádio nem na TV. Há uma chama acesa que nunca vai se apagar. É a chama da alma de uma juventude que fala português, toca tambor, cavaco e violão, canta e compõe num estilo altamente sofisticado musical e poeticamente falando.

O que eu vi lá em São Paulo foi uma verdadeira manifestação cultural que tem o Samba como objetivo principal. E mais, uma oportunidade que deveria ser imitada por todos que é parar para ouvir Samba. O lucro das bebidas, as gatinhas para paquerar e bate-papo enquanto o cara tá cantando fica lá para o bar, que é lugar disso.

Copyright © 2003. É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo do Brasileirinho para fins comerciais