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SAMBA RIACHÃO

Por Fabio Gomes

 

Confesso que ouvir o nome do sambista baiano Riachão sempre remetia minha lembrança a "Cada Macaco no Seu Galho", não só por ser efetivamente sua obra mais famosa (muito em função das gravações de Caetano Veloso e Gilberto Gil em 1972, na volta do exílio, e em 1993) como por ser praticamente a única executada fora da Bahia. Assim sendo, foi uma grata surpresa assistir o filme Samba Riachão, de Jorge Alfredo (2001). É daqueles filmes em que se sente que o diretor buscou ser o mais fiel possível ao espírito do homenageado.

Jorge Alfredo acertou em cheio ao optar pelas seqüências longas com grandes planos. Só assim seria possível que o espírito de Riachão "coubesse" no filme. Perfeito para as seqüências em que ele está contando um episódio, que o faz lembrar um samba, que ele já começa a cantar, dançando e batucando em qualquer mesa próxima (que estruturam quase o filme todo).

Não se trata de uma biografia. Aqui e ali, surgem os dados oficiais: seu nome é Clementino Rodrigues, nasceu em 1922, foi eleito Melhor Cantor do Rádio Baiano em 1959, trabalhou como contínuo em banco... Seria pouco para definir Riachão. Melhor deixar o próprio nos conduzir pelas ruas e vielas de Salvador, fazendo de cada momento um pretexto para lembrar um antigo samba. E são muitos os sambas lembrados. Os colegas de banco relatam que, ao levar documentos entre setores da agência, em cada sala ele entrava cantando.

A figura de Riachão manteve-se inalterada com o passar do tempo. Já em sua participação no filme A Grande Feira (Roberto Pires, 1961), lá está ele com seu imenso sorriso, seu bigode, seu boné, sua toalhinha enrolada em volta do pescoço e seus anéis em quase todos os dedos. Interessante notar como na época do filme de Pires Riachão lembrava fisicamente Lupicínio Rodrigues - até o bigode e o sorriso eram parecidos!

Mas, se Riachão ficou fiel a sua imagem, sendo aclamado pelos blocos de carnaval e pelo público de artistas mais jovens (os fãs de Daniela Mercury o saudaram num show como "lindo, tesão, bonito e gostosão"), os novos meios de comunicação surgidos na segunda metade do século passado não demoraram a remeter o sambista para uma espécie de limbo. Acostumado a cantar em auditório de rádio sempre com luz branca, Riachão estranhou os holofotes da TV Itapoã, ao participar de um programa no começo dos anos 60. Além disso, o ar-condicionado da emissora o incomodou, a ponto de ele precisar aspirar tabaco para não espirrar em cena (o que, naturalmente, gerou novo samba: "Pitada de Tabaco"). O fim da programação ao vivo das rádios baianas ao longo daquela década também cortou um canal de comunicação direta entre o sambista e seu público. No rádio, Riachão sempre cantava um samba de sua autoria, geralmente recém-composto. De um tudo ele fazia motivo para compor. Uma baleia encalhada junto à área central de Salvador motivou a música "O Umbigão da Baleia" - que, como dezenas de outras apresentadas no filme, permanece inédita em disco (um convite a quem for ver a fita: fiquem até o final dos créditos e espantem-se como eu com a enorme quantidade de sambas inéditos que o filme registrou).

Felizmente parte da produção de Riachão encontra-se gravada. Além de alguns discos na JS, recentemente saiu um CD seu produzido por J. Velloso, com gravações documentadas pelo filme e das quais participaram Carlinhos Brown, Caetano Veloso, Armandinho (que em dado momento, fora do estúdio, improvisa sobre "Cada Macaco no Seu Galho"), Tom Zé, entre outros. Todos eles (mais Dorival Caymmi, Bule-Bule, Gilberto Gil e Tuzé de Abreu) dão depoimentos sobre o focalizado e sobre o samba na Bahia.

Cumprimento Jorge Alfredo por sua postura ousada de ao identificar boa parte dos entrevistados como "sambista". Ousada porque nos acostumamos nas últimas décadas a só chamar assim pessoas que façam exclusivamente samba e, de preferência, sejam de origem e condição humildes, mais ainda se forem de cor negra. Essa classificação incluiria naturalmente Riachão e Bule-Bule, mas deixaria de fora Tom Zé e Caetano.

A tese defendida pelo filme da origem baiana do samba acaba ficando um pouco deslocada, até porque boa parte do material apresentado a esse respeito refere-se ao Rio de Janeiro dos anos 1920. Nesses momentos o filme fica menos risonho e perde bastante do ritmo. Para mim ficou claro que Jorge Alfredo acredita na origem baiana do samba, embora tenha veiculado um depoimento, o de Gil, que localiza a possível origem do ritmo "numa área de influência que vai da Bahia em direção ao norte, a Pernambuco".

Fica difícil destacar este ou aquele momento do filme. Todo ele cria uma atmosfera de simpatia e de intimidade com Riachão que é como se realmente ele tivesse percorrido conosco Salvador - ou melhor dizendo, a cidade da Bahia.

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