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SIMONE - TÔ VOLTANDO

Por Vera Barbosa

 

Sábado, 16 de abril de 2005. No Directv Music Hall (São Paulo), os ingressos para as duas apresentações de Simone estão esgotados. São 22 horas e presumo que o show vá começar. Não sei bem o que espero, apesar de ter lido boas críticas a respeito do último álbum, Baiana da Gema, que traz canções inéditas de Ivan Lins, e originou o show. Afinal, nos últimos anos, houve muitas ressalvas quanto ao repertório de Simone, que teria fugido ao controle de qualidade existente nos discos do início de carreira, quando foi mais autêntica e expressiva.

Com atraso de 20 minutos, lá vem ela. As cortinas se abrem, o cenário e a iluminação de Dany Nolan - que traz no currículo trabalhos com Tina Turner, Peter Gabriel e Sting - anunciam o tom do espetáculo. Sobre cortinas brancas, com delicados motivos florais, desfilam luzes em tom pastel, alternando-se em suaves nuances de azul, rosa, laranja, verde... Este será o único recurso utilizado durante toda a apresentação e, nem por isso, menos bonito de se ver.

O repertório foi costurado com poucas canções do novo álbum, todas de Ivan Lins: "Dandara" (parceria com Francisco Bosco), "Baiana da Gema" e "É Festa" (com Paulo César Pinheiro), "Saravá! Saravá!" (composta com Martinho da Vila) e sucessos de discos anteriores, sobretudo, dos anos 70 e 80. Entre eles, "Jura Secreta" (Sueli Costa e Abel Silva), "Encontros e Despedidas" e "Maria Maria" (Milton Nascimento - Fernando Brant), "Sob Medida" e "O que Será" (Chico Buarque), "Outra Vez" (Isolda), "Falando Sério" (Mauricio Duboc - Carlos Colla), "Tô Voltando" (Mauricio Tapajós - Paulo César Pinheiro). Em "Começar de Novo", "Vitoriosa" e "Vieste" (compostas por Ivan Lins e Vítor Martins), Simone proporcionou os melhores momentos do espetáculo, mexendo com as emoções da platéia. O mesmo se repetiria no bis: ao cantar "Alma" (Sueli Costa - Abel Silva), ela abriu o coração, extravasando. A boa surpresa ficou por conta de "O Amanhã" (João Sérgio), que encerrou o show e levantou os espectadores, que se espremiam por entre as apertadas mesas do Directv. (A propósito, essa falha ocorre desde quando a casa chamava-se Palace e nunca lhe foi dada a devida atenção. Paga-se caro demais e tem-se conforto de menos.)

A banda (que, como Simone, vestiu branco, em figurinos de Chiquinho Spinoza), foi formada por Ricardo Leão (direção musical e teclados), Waltinho Villaça (guitarra e violão), Tavinho Menezes (guitarra e violão), Caca Colon (bateria), Fernando Souza (baixo) e Zero (percussão). Os arranjos, apesar dos bons músicos, não inovaram nem surpreenderam. A performance de Simone, sua boa interpretação e a felicidade na escolha do repertório foram responsáveis pelo bom nível do show. No todo, valeu por sua volta às origens, cantando músicas de qualidade, que eram sua marca registrada no passado, e homenageando Ivan, forte influência em sua carreira e cujo talento é indiscutível.

Simone por Dani Lima

Começar de novo é para poucos. É preciso humildade para reconhecer quando a mudança se faz necessária. Artistas superestimados têm certa dificuldade em assumir que as coisas não vão bem. Simone, que dividiu a direção do show com Sandra Pêra, optou por simplicidade e foi justamente isso que garantiu que não pecasse. Com a decisão de retomar suas tendências musicais, demonstrou ter-se reencontrado com o público e com a mídia. E, principalmente, consigo mesma. Quando lhe perguntei a definição de Simone hoje, ela respondeu-me "Sou eu!", como quem se redescobre após 31 anos de carreira.

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