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BENDITAS AS SEMENTES DESSES FRUTOS

Por Vera Barbosa

Humildade, talento e bom gosto. Essas, algumas das principais - e indispensáveis - virtudes de um grande intérprete. Aliar técnica vocal à sensibilidade requer um cuidado todo especial, a fim de que o artista não mecanize seus gestos e, sobretudo, suas emoções. Márcia Tauil e as integrantes do grupo vocal "A 4 Vozes" são prova de que isso é possível. Em meio a tantas modernidades, elas fizeram um som puramente brasileiro e, com canções de domínio público e outras de grandes compositores da MPB, trouxeram o som de Minas e do Brasil para o palco paulistano. Um canto de fé e esperança, baseado na força e na simplicidade do povo brasileiro.

Márcia Tauil (centro) e A 4 Vozes - foto: Dani Lima

Acompanhadas de um quarteto de instrumentistas, as cinco vozes entoaram música popular brasileira da melhor qualidade. Com teclado (Mana Tessari), violão e baixo (Paulo Menotti Del Pichia), violão (Brau Mendonça) e percussão (J. C. Júnior), remontaram um cenário intimista e peculiar no ritmo do tambor e na apurada melodia das vozes. Numa noite genuinamente basileira, foi possível testemunhar uma apresentação singela, com afinação ímpar e expressividade à flor da pele. Certamente, quem esteve no Sesc Pinheiros (São Paulo), na noite de 7 de dezembro de 2005, saiu com um gosto de quero mais.

O show Natal Brasileiro é um grito de liberdade da MPB, tão manipulada pela mídia e pelo mercado fonográfico. Afinal, a riqueza da musicalidade brasileira está expressa nos bancos das praças, nos bares e bailes da vida, em cada esquina em que se vê um banquinho e um violão. Cantar o Brasil e assumi-lo em suas riquezas e mazelas é perceber sua gente e seu poder de encantamento e renovação. As inúmeras possibilidades de resgate da MPB, mesclando elementos sonoros de forma original - e simples -, expressam o valor do povo brasileiro e seus sentimentos, bem como sua cultura, originária de brancos, negros e índios.

A abertura já surpreende, com músicos e intépretes chegando pelo auditório, caminhando entre a platéia ao som de "Casa Santa" (canção de domínio público). Lentamente, dirigem-se ao palco e acomodam-se suavemente.

Na primeira parte do espetáculo, as irmãs Dora Otaviano (mezzo), Jurema Otaviano (mezzo-contralto), Jussara Otaviano (soprano) e a sobrinha Thatiana Otaviano (contralto) soltam a voz em canções de seu segundo disco, O Canto de Minas (Paulus, 2004). Originárias de Guaxupé (MG), trazem na voz a doçura e a pureza de quem nasceu na calmaria de uma cidade pacata e acolhedora. Ao mesmo tempo, mostram a força da mulher negra brasileira, tão necessária à luta diária de nossa gente. Cantam "Ave-Maria do Morro" (Herivelto Martins) à capela e dão mostras do que será o Natal Brasileiro do Sesc Pinheiros. Depois, vem "Casa Aberta" (Chico Lobo), "O Boi do Pindaré" (também de domínio público), "Santos Negros" (Cássia Maria), "Magamalabares" (Carlinhos Brown) e outras belas canções. Ouvi-las provoca sensações as mais diversas, como um sorriso puro, lágrimas emocionadas ou um atrevido cantar entre uma nota e outra - impossível não participar.

Em outro momento, é a vez de Márcia Tauil oferecer seu, igualmente, puro e forte canto. Também de Guaxupé, amiga de infância de Dora, foi convidada a participar de uma série de shows do grupo pelo Brasil. A moça do canto doce da bossa-nova junta-se ao "A 4 vozes" e soma sua delicadeza à noite de prece de Natal Brasileiro.

Aos poucos, ela está plena no palco e a satisfação de quem a vê e ouve é perceptível nos aplausos. Ao cantar "Cuitelinho" (domínio público recolhido por Paulo Vanzolini e Antonio Xandó), tantas vezes regravada pelos grandes da MPB, Márcia apresenta a última estrofe da canção, ainda inédita. Ela também interpreta "Cálix Bento" (letra adaptada por Tavinho Moura da Folia de Reis do norte de Minas Gerais), "Plenitude" (Miguelzinho Gabriel) e "Romaria" (Renato Teixeira). De seu segundo disco, Sementes no Vento (Dabliú, 2003), ela faz "Ensaio do Dia" (Eduardo Gudin - Costa Netto) e anuncia seu próximo trabalho, Leveza, para meados de 2006.

Entre as apresentações do "A 4 vozes" e Márcia Tauil, um caixeiro viajante (Adilson Oliveira) sobe ao palco para contar causos da gente mineira e declama, entre outros, "Soneto de Natal" (poema de Machado de Assis) e "Maria, o Menino Jesus e o Monge Malabarista" (texto de Paulo Coelho). Enquanto enrola um fumo de corda, fala do milho, do trigo, da dificuldade de quem vive no campo e, em dados momentos, com seu jeitinho bem mineiro, arranca risadas do público.

O encerramento se dá com as cinco mulheres no palco. Com maestria, elas interpretam "O Trenzinho do Caipira" (Heitor Villa-Lobos - Ferreira Gullar), num belo arranjo vocal. Em seguida, vem "Noite é pra festejar" (Ivan Lins - Vítor Martins) e o bis fica por conta de "Trem Azul" (Lô Borges - Ronaldo Bastos), com o público cantando junto.

Prestigiar nossas formas de expressão mais autênticas e levá-la aos quatro cantos do mundo com orgulho de ser brasileiras. Essa é a semente, admiravelmente, plantada por essas grandes mulheres.

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