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IMPRENSA CANTADA - TOM ZÉ

Por Tatiane Marchesan

 

Ele abre declamando arrastadamente "Dona Divergência" (Lupicínio Rodrigues - Felisberto Martins), onde proclama o fim das guerras, mas não nos lugares onde se encontram canhões e fuzis, e sim nos corações divergentes finalizando: "E eu, combatente atingido/ Sou qual um país vencido/ Que não se organiza mais". Pela faixa inicial, gravada ao vivo na abertura do Show Pela Paz, no SESC Vila Mariana em 2003, percebe-se que o ostracismo de Tom Zé nos últimos anos, misturado à depressão que viveu no período, acentuou sua melancolia, mas não o desfez da sua acidez. Isso é notável logo depois desse primeiro impacto, pois ele rebate Lupicínio com o rockinho à la Raul Seixas "Companheiro Bush", onde confirma a sua fidelidade à crítica debochada. Mesmo antes de estourar o conflito no Iraque o baiano já mandou um recado despachado: "Se você já sabe / quem vendeu/ aquela bomba pro Iraque/ Desembuche/ Eu desconfio que foi o Bush".

Produzido por Jair de Oliveira, e lançado pela Trama, o disco manda muito bem, pois acentua a personalidade de Tom Zé. O acabamento bem definido somado a arranjos trabalhados se contrapõe ao desprendimento do cantor - justamente nesse risco é que mora a qualidade e o respeito ao artista. Tom Zé, que é um tropicalista nato fruto da antropofágica mistura de tempos, não se "enquadradou" nem se reprimiu nesse formato. Toda essa confusão deu à sua obra a sua cara. Um bom exemplo da miscelânea provocativa de Tom Zé está na faixa "Desenrock-se", um xote que o compositor fez no momento em que foi convidado se apresentar no Rock in Rio. Quer algo melhor do que isso? Mais provocador? As misturas justamente acentuaram esse caráter. O CD em alguns momentos me soou meio Raul Seixas, depois Zeca Baleiro, por fim Mundo Livre S/A, mas aos poucos o que vem à tona mesmo é Tom Zé. Isto é muito bom. Todas as letras são fantásticas e sarcásticas... De imediato, meus pontos altos são, além das já citadas "Dona Divergência" e "Desenrock-se": "Sem Saia, Sem Cera, Censura" e "Vaia de Bêbado não Vale" (a versão tocada no bandolim por Renato Anesi, que transformou a música num choro contemporâneo). A angústia da melodia de "Língua Brasileira" também merece destaque, e, por fim, São Paulo, cuja letra transcrevo abaixo:

São Paulo

(Tom Zé)


São Paulo, quanta dor
São Paulo, quanto amor.

São vinte milhões de habitantes
De todo canto e nação
Que se agridem cortesmente
Correndo a todo vapor
E amando com todo ódio
Se odeiam com todo amor
São vinte milhões de habitantes
Aglomerados na solidão
Por mil chaminés e carros
Gaseados a prestação

Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito

São Paulo, quanta dor
São Paulo, quanto amor.

Salvai-nos por caridade!
Pecadoras invadiram
Todo centro da cidade
Armadas de ruge e batom
Dando vivas ao bom humor
Num atentado contra o pudor

A família protegida
O palavrão reprimido
Um pregador que condena
(um festival por quinzena)

Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito

São Paulo, quanta dor
São Paulo, quanto amor.

Santo Antonio foi demitido
E os ministros de Cupido
Armados da eletrônica
Casam pela tevê
Crescem flores de concreto
Céu aberto ninguém vê.

Em Brasília é veraneio
No Rio é barulho de mar
O país todo de férias
E aqui é só trabalhar

Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito.

Toda essa acidez melancólica embalada por um, quase coral de moças, sampleado com flashs de Luiz Gonzaga e em ritmo das alegrinhas baladas pops dos anos 70. Um avesso. Um tom, um Tom de Zé.

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