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UM SER DE LUZ - SAUDAÇÃO A CLARA NUNES

Por Tatiane Marchesan

 

Saiu pela gravadora Deck Disc Um Ser de Luz, uma singela homenagem em dose dupla a Clara Nunes, produzido por Paulão 7 Cordas. Esse trabalho bonito, respeitoso ao samba feito naqueles tempos, e com bons arranjos (para mim, mesmo que alguns não concordem), reforçou a sensação triste, e boa, de que a Mineira é realmente insubstituível. Bem... tenho que dizer: sou fã confessa da Clara Nunes, tanto pela sua força como por suas belas interpretações. Uma verdadeira Iansã, mulher de personalidade! Pasmem, esse é o mesmo motivo pelo qual eu adoro a Adriana Calcanhotto. Essa gaúcha, dentre as cantoras e compositoras contemporâneas é uma das que tem essa força. Apesar da sua voz peculiar, ela faz música pra ela, do jeito que acredita na arte. O Mundo Livre S/A é assim também. A meu ver, a Clara é isso. Só cantou o que quis, e tudo que escutamos com ela sempre vai ser muito particular. Talvez esse seja o motivo pelo qual não posso dizer que amei o disco, por que a cada música eu pensava: "Meu!!! Com ela é melhor!!!". Agora, certamente, é uma das homenagens mais bonitas que já ouvi, justamente pelo respeito à atmosfera daquele momento, sem ser saudoso por demais. Mesmo fiéis aos arranjos mais tradicionais do samba, se o disco for bem trabalhado pode ser que comecemos a escutar em vários pagodinhos da moda, pérolas como "Na Linha do Mar" ou "Você Passa e Eu Acho Graça", pois ele é bem acessível. Pode ser tocado facilmente numa rádio comercial. Isso é muito bom, pois a boa música não pode ser privilégio de jovens com pais de bom gosto... Foi traçando um paralelo com o disco da Alcione, Claridade, que eu concluí que o recato harmônico da produção é o maior mérito de Um Ser de Luz. Os efeitos desnecessários no disco da maranhense o tornaram muito aquém do que ele poderia ser. Escutem e me contem.

Falando do repertório, quando vi o release, pensei... "Que chato... Tudo o que já temos em qualquer coletânea". Me enganei, e muito. Tem, realmente, todos os sucessos da Clara, mas existem pérolas que, para mim, ainda estavam na ostra. Ao final, estas ficaram entre as minhas favoritas, talvez pelo fato de minha memória não poder fazer comparações. Falo em especial da música "Basta um Dia" (Chico Buarque), cantada por Helen Calaça. Moça de voz límpida, muito parecida com a da Ana Luiza que gravou recentemente com o Guinga no seu Noturno Carioca. Fiquei de queixo caído... Muito boa... Aquele tom angustiado, bem acentuado pelo grave dos instrumentos de cordas dedilhados... Nossa, até dói de tão bonito... Já fiquei pensando como essa música deve ser com a Clara...

Os destaques de interpretação, apesar de vários nomes de peso, pra mim ficam com:

Pontos baixos:

A Teresa Cristina está impecável, mas gostei mais dela cantando Paulinho da Viola. Dona Ivone Lara também, apesar de jóia rara, tem ares de vó e a Clara, voz de mulherão. Mas as duas também merecem os louros.

O grande valor desse trabalho é a homenagem, por isso acredito que as críticas que fiz foram bem tendenciosas. Creio que o objetivo não era traçar comparativos, mas, me desculpem, foi inevitável. Passei uma semana inteira escutando Claridade, com o nosso famoso sabiá... Aí fica muito difícil tentar ser imparcial. Enfim, o disco vale muito a pena, só tenham como precaução não escutar a nossa Iansã por no mínimo uma semana.

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