Brasileirinho - Principal

Voltar ao Menu - Artigos

 

A INFLUÊNCIA DO CACIQUE DE RAMOS NA OBRA DE CARLOS VERGARA

Por Fabio Gomes

 

O artista plástico Carlos Vergara integrou, ao lado de Antônio Dias, Rubens Gerchmann e Roberto Magalhães, um movimento de arte de vanguarda que, a partir da mostra Opinião 65, pretendia criticar a ditadura militar brasileira.

Ao contrário de seus colegas, porém, Vergara utilizava em seus trabalhos uma linguagem que era considerada “chocante” pelo crítico Paulo Sérgio Duarte – a pintura a óleo! Temas novos exigiam técnicas novas, entendia o crítico. Sem saber dessa opinião (os dois só foram se conhecer pessoalmente em 1979), Vergara espontaneamente aderiu à pop art, como já faziam os demais integrantes do movimento, por sentir a necessidade de usar outras linguagens para expressar o que pretendia – o que se tornou uma constante em sua obra. No começo dos anos 70, aconteceu o “desbunde” de parte de sua geração, e Vergara voltou-se para o trabalho de documentação fotográfica dos desfiles do bloco carnavalesco Cacique de Ramos, do qual era freqüentador.

Parte desta produção, realizada entre 1972 e 1975, integra a mostra Viajante, exposta de maio a setembro de 2003 no Santander Cultural, em Porto Alegre. Vergara esteve no Santander debatendo sua obra junto com Duarte no dia 24 de junho de 2003, e revelou a vasta extensão da influência do contato com o Cacique de Ramos em sua obra artística.

Em seu mergulho no carnaval, Vergara enxergou na fantasia usada pelos componentes do Cacique (uma gravura em vinil para ser cortada e vestida, com o desenho de um índio de cocar e os dizeres Dos 7.000 integrantes do Cacique de Ramos eu sou 1) uma manifestação artística coletiva:

- Na sociedade individualista, um grupo se revelava horizontal. Minha formação comunista identificou-se nesse aspecto do Cacique.

A opção pela fotografia ocorreu porque, diferentemente de seu colega Roberto Magalhães, ele não se considera capaz de pintar seu tema à primeira vista:

- A foto é um recurso importante para facilitar o desenvolvimento da idéia, inclusive com a projeção da imagem, como um slide.

A partir da projeção das fotos, Vergara desenhava e pintava temas e personagens do carnaval ao longo dos anos 70. De repente, porém, sua atenção deslocou-se dos foliões para a platéia, acabando por fixar-se na grade que divide o bloco do público:

- A grade ficava imantada com a energia de ambos. Fiz uma serigrafia sobre isso.

À serigrafia (um trabalho sem título), de 1980, seguiu-se o quadro Grade, de 1983, além de uma longa série de pinturas (também sem título) a partir de 1981.

Esta série, conhecida como “fase dos losangos” durou toda a década de 80. O fim desta fase foi assim justificado por Vergara no Santander:

- Os marchands adoravam, mas aquilo para mim não tinha mais desafio nem significado.

Desde então, o artista só voltou a se debruçar sobre sua fase carnavalesca ao aprontar a atual exposição. As fotos originais, reveladas por ele mesmo, haviam mofado. As da mostra Viajante foram escaneadas, tendo algumas delas sido ampliadas e plotadas.

Copyright © 2003. É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo do Brasileirinho para fins comerciais