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VIRGÍNIA ROSA FENOMENAL EM HOMENAGEM A CLARA NUNES

Por Fabio Gomes

 

A cantora Virgínia Rosa vem se dedicando a lembrar os 20 anos de saudade de uma grande voz do samba: Clara Nunes. O repertório da mineira guerreira é a base do espetáculo Esse Teu Cantar, que o Itaú Cultural (São Paulo) apresentou em 7 de novembro de 2003.

Foi um show esplêndido, em que Virgínia demonstrou estar num grande momento de sua carreira. Felizmente, imitar Clara nem lhe passou pela cabeça. Sua voz de timbre agradabilíssimo esteve sempre bem colocada, adequada ao clima de cada canção, ou melhor, a cada variação de clima dentro de cada canção. Ela se mostrou forte já no início, em "Juízo Final" (Nelson Cavaquinho - Elcio Soares); a mesma força, acrescida de doçura, se fez presente em "Menino Deus" (Mauro Duarte - Paulo César Pinheiro) e "O Mar Serenou" (Candeia), de chorar de tão lindo, um dos pontos altos do fim de tarde.

Outro momento "nó-na-garganta" foi "Conto de Areia" (Romildo - Toninho), em que o violão de 7 cordas de Dino Barione iniciou apenas emoldurando a doçura na voz de Virgínia, preparando para o momento de "fortíssimo" da interpretação a partir da entrada do pandeiro de Douglas Alonso. Mas ela ainda se mostrou malandra num samba pouco conhecido de Ismael Silva, "Ninguém Tem de Achar Ruim". Já a ternura foi a marca da valsa "Ai, Quem me Dera" (Vinicius de Moraes), em que Virgínia esteve firme nas várias subidas de tom da melodia e cantou lindamente as notas ligadas do final, em que o tom descia, enquanto o violão lembrava Toquinho na introdução e no solo. Logo em seguida, os dois fizeram o sambão "Nação" (João Bosco - Aldir Blanc - Paulo Emílio), ela doce e soltando a voz, o violão muito bom dando conta sozinho de melodia & ritmo - nesta música, bem como na anterior, Douglas esteve ausente do palco. Pouco depois da sua volta, foi a vez de Barione descansar, enquanto Douglas acompanhava ao pandeiro um samba forte cantado em outro idioma, acredito que em japonês. Provavelmente era nesta língua também parte da citação de "Morena de Angola" (Chico Buarque), em que Barione esteve excelente na baixaria.

Nem só de Clara viveu o repertório desse dia. Virgínia fez alguns dos números de seu primeiro CD, A Voz do Coração, como "Pressentimento" (Elton Medeiros - Hermínio Bello de Carvalho), em que sua interpretação foi sucessivamente lânguida, forte e doce, enquanto o violão ia comendo solto no samba; um vocalise em que o tom ia baixando precedia a citação de "O Morro não Tem Vez" (Tom Jobim - Vinicius de Moraes), em que ela cantou forte, imitou cuíca e dançou, enquanto o violão levava o samba às últimas conseqüências. Merecidamente, o número foi aplaudido em cena aberta. Já em "Vãos" (Itamar Assunção), Virgínia conseguiu aliar de forma ímpar sua voz à suingante melodia, numa interpretação bastante difícil, ainda mais dançando, enquanto o violão fazia a festa, indo do samba quadrado ao samba de roda, passando por citações do estilo de pontuar a melodia que Jorge Ben fazia no início dos anos 70 - e, a todas essas, o pandeiro, firme e forte. Grande surpresa foi o arranjo flamenco para "As Rosas não Falam" (Cartola).

Em um dos momentos mais emocionantes do show, Virgínia cantou chorosa "Mãe Preta" (Piratini - Caco Velho), acompanhada apenas por uma base de teclado pré-gravada, acionada por Dino, enquanto a iluminação do palco se resumia a um spot que, do fundo do palco, emoldurava a cantora. Nessa hora ocorreu talvez o único deslize da apresentação, em que a base, em volume razoavelmente alto, cobria por vezes a voz de Virgínia.

No bis, o trio esteve excelente no samba-enredo "Portela na Avenida" (Mauro Duarte - Paulo César Pinheiro). Virgínia, tocando chocalho, alternou doçura e força em sua voz, enquanto Douglas, na bateria, deu uma de Haroldo Ferreti (do Skank) e inverteu a marcação dos tempos a partir do trecho "vêm chegando na cidade, na favela...".

Na boa, um dos melhores shows que vi na minha vida!

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