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O VIRTUAL NO CARNAVAL

Por Candida Rosa Ferreira Costa

Introdução

Este trabalho pretende fazer uma reflexão sobre a influência do virtual sobre o espetáculo do Carnaval brasileiro. Nosso tema se refere às atividades de lazer da Comunidade situada no Morro da Mangueira no Rio de Janeiro. Lá está uma das maiores Escolas de Samba do Brasil, que envolve não só seus moradores como também pessoas de outros bairros da cidade, visitantes ou turistas da época do Carnaval. Nosso objetivo será o de relacionar o que se entende por virtualidade ou mesmo virtual neste espetáculo de repercussões internacionais, mas que é preparado num local específico através do trabalho incessante de pessoas inseridas nesta comunidade.

O Carnaval é uma festa folclórica de cunho religioso onde a carne é louvada e ovacionada por um determinado período de alguns dias. Seu cunho religioso tem origem na comemoração realizada quarenta dias antes da festa da Páscoa, que significa não só a ressurreição de Cristo como também o Perdão. Neste tempo evoca-se todo o percurso realizado na Semana Santa que culmina no domingo onde é celebrada a esperança e a alegria na religião cristã.

Os dias destinados às comemorações das festas da carne com o passar do tempo e dos séculos foram chamados de Carnaval. O termo se refere a três dias de festa que se completam na Quarta-Feira de Cinzas, destinada ao arrependimento dos excessos realizados nos dias anteriores. Essa festa é uma alegria, é algo maravilhoso e fantástico, tem data móvel e sua representatividade e manifestação é considerada relativa, adequada à comunidade e à cultura à qual está atrelada e influenciada, ou seja, podemos considerar que sua manifestação é virtual.

O Virtual na Filosofia Antiga

Desde a Filosofia Antiga falava-se do conceito de virtual, que aparece nos esboços e nas primícias do que vem a ser o termo do virtual, na verdade a sua real aparição se insinua no texto da filosofia, na metafísica, e aparece principalmente na obra de Platão e Aristóteles. Depois desaparece como conceito importante e reaparece na Idade Média. Mas é durante o final do século XX, por volta dos anos 90, que o termo virtual vai ser revivido com o advento da informática e da cibernética e introduzido como conceito teórico importante, sobretudo por Gilles Deleuze em sua obra.

Recentemente o teórico francês Jean Baudrillard produziu vários livros sobre o tema do virtual como, por exemplo, Simulacro e Simulação (1986), abordando temas concernentes à dissolução do sujeito ou à dissolução do indivíduo. Baudrillard trabalha também a psicologia social e o fenômeno contemporâneo do pensamento.

Na filosofia antiga os domínios da mente e os fenômenos do pensamento eram associados ao sobrenatural e a relação da pessoa com o sobrenatural era de convivência. Essa relação com o sobrenatural era muitas vezes relacionada com a religião ou com a ligação que se tinha com Deus. Os deuses na filosofia antiga tinham que ser tratados em segredo para o outro não conhecer a ligação e por isto eram protegidos para que o estrangeiro não participasse de seus rituais e conseqüentemente não tivesse espaço de domínio.

Nesta breve análise do pensamento filosófico, destacamos o movimento difundido por Heráclito, o filósofo mobilista, como é chamado, porque analisou o pensamento em movimento. Heráclito diz que "já que algo se move eu me movo junto, então dá para conhecer essa coisa. A coisa em movimento. Se a coisa se move ela se modifica". Para ele História é algo que não existe, porque nada se repete apresentando como exemplo a simbologia do rio, onde a água nunca volta ao mesmo lugar.

A idéia do movimento cresceu e tomou forma conforme crescia e tomavam forma as coisas de Deus. No princípio da filosofia os astros eram os deuses e os astros determinavam tudo: o dia, a noite, as horas, as plantações, as colheitas. As coisas eram relacionadas aos astros que eram relacionadas a Deus. Quem queria alguma mudança, alguma alteração no sistema e no curso das coisas tinha que pedir a Deus. E todos os pedidos e ofertas eram feitos e apresentados a Deus de forma que a vontade de Deus ao ser desejada já era manifestada. Deus, ao querer faz, ao querer acontece.

Podemos colocar outro ponto de referência que é o advento do Cristianismo e a existência de Deus naquela época do início da era cristã era invocado pelo nome de Iavé, que é o deus da ação, aquele que detém a força. Estes conceitos modificaram outros da mitologia da Grécia antiga, que acreditava em vários deuses no Olimpo, cada um destinado a uma especialidade, sendo o mais importante conhecido como Zeus. Neste tempo as oferendas e sacrifícios eram oferecidos para agradar e em busca de uma resposta da parte de Deus. A manifestação dessa resposta podia ser de várias formas, mas exigia uma manifestação de Deus.

Por volta de 70 d.C., começam a aparecer os textos com as figuras do mal representando Satã ou Satanás. Era o surgimento do bem e do mal e do princípio da contradição. A partir desse princípio a prática religiosa passa a ser generalizada, quem sabe até em busca de se realizar uma economia religiosa. Assim, os sacrifícios oferecidos eram de uma materialização mais simples.

Também naquela ocasião ainda não existiam as sistematizações da teologia e os Evangelhos, escritos depois do advento de Jesus Cristo para a formação de novos cristãos.

O Evangelho, escrito em várias versões, revela as parábolas como sendo palavras de um só Deus. Todas elas são produtos do imaginário da época e conseqüentemente da virtualidade. Determinam certas rupturas, por exemplo, quanto à política fundamental dos judeus, quanto ao comércio religioso instaurado e vigente de quem tinha posses, ou de quem fazia sacrifício. Nesta época, surgem os textos que compõe a Bíblia Sagrada. Assim é que a filosofia antiga tem esta relação com a religião e, sobretudo porque aí surgem os princípios da virtualidade.

Abandonaremos este percurso histórico e daremos um pulo para as concepções atuais sobre o virtual para podermos associar ao tema proposto do Carnaval no Brasil.

Virtualidade contemporânea

O que é o virtual? Na verdade é muito difícil falar sobre o significado da palavra virtual, pois virtual hoje qualifica muita coisa. Segundo o Dicionário Virtual Aurélio da Língua Portuguesa o termo virtual (do latim escolástico virtuale) é um adjetivo e pode ter vários significados como veremos a seguir:

1. Que existe como faculdade, porém sem exercício ou efeito atual.

2. Suscetível de se realizar; potencial.

3. Filosofia: diz-se do que está predeterminado e contém todas as condições essenciais à sua realização. [Opõe-se, nesta acepção o potencial (3) e atual (4).]

4. Informação: que resulta de, ou constitui uma emulação, por programas de computador, de determinado objeto físico ou equipamento, de um dispositivo ou recurso, ou de certos efeitos ou comportamentos seus.

Virtual conceitua, define e explica muitos significados. Basta explicar e dizer que é virtual que logo se entende o que é, e com o virtual cria-se a ilusão do entendimento, onde todos pensam que estão entendendo, cada um à sua maneira. Isso gera um total conforto no entendimento e serve para cimentar a significação de várias situações. Palavras como essa estabelecem links nas definições complexas das coisas atuais do mundo moderno. Neste sentido a palavra virtual tem excesso de significação e por isto mesmo há uma necessidade de negociar a todo instante o seu significado, seu espaço, em todo lugar. Depois dos filósofos que introduziram o virtual em suas obras, fica um hiato enorme e o conceito de virtual só vai reaparecer nas obras de Henri Bergson (falecido em 1941) e Gilles Deleuze (falecido em 1992).

Pierre Lévy, um dos estudiosos de maior renome mundial em sua obra principal, O que é o Virtual, define o virtual como uma palavra derivada do latim medieval, virtualis derivado por sua vez de virtus, força, potência. Segundo ele (p.15), na filosofia escolástica, virtual apresenta o que existe em potência e não em ato.

"O virtual tende a atualizar-se, sem ter passado, no entanto à concretização efetiva ou formal. A árvore está virtualmente presente na semente. Em termos rigorosamente filosóficos, o virtual não se opõe ao real, mas ao atual: virtualidade e atualidade são apenas duas maneiras de ser diferentes"

A interseção do virtual com o real proporciona o surgimento de novas formas de sociabilidade, denominadas por Pierre Lévy de comunidades virtuais. Segundo pesquisadores contemporâneos, estas comunidades são diferentes das reais, e ao mesmo tempo muito semelhantes. Em uma comunidade virtual, podemos colocar-nos diretamente num meio em que assuntos que nos interessam são debatidos e travar conhecimentos com indivíduos que compartilham de nossos interesses e que podem nos seduzir pela expressão escrita.

Outro autor que associa comunidade com virtualidade é Anthony Giddens (2000), que argumenta que o indivíduo deseja fazer-se visível numa rede de pessoas que sejam capazes de ajudar e a quem ele também seja capaz de ajudar, provocando assim uma troca de relações. Giddens avalia ainda que uma das características distintivas da modernidade é uma interconexão crescente entre os dois extremos da "extensionalidade" e da "intencionalidade": de um lado influências globalizantes e, de outro, disposições pessoais. Quanto mais a tradição perde terreno, e quanto mais se reconstitui a vida cotidiana em termos de interação dialética, entre o local e o global, mais os indivíduos vêem-se forçados a negociar por estilos de vida particulares e uma série de possibilidades. O planejamento da vida organizada reflexivamente torna-se característica fundamental da estruturação da auto-identidade.

Segundo Giddens, em condições de alta modernidade, como ele denomina a pós-modernidade, vivemos em "um mundo de sentidos diferentes dos períodos históricos anteriores". Todos continuam a viver uma vida local, e os constraints do corpo asseguram que todos os indivíduos, a cada momento, estão contextualmente situados no tempo e no espaço. No entanto, transformações do lugar e a intromissão da distância em atividades locais, combinada com a centralidade da experiência midiática, modificam radicalmente o que "o mundo atualmente é". Isto se aplica tanto ao nível do "mundo fenomênico" do indivíduo quanto ao nível do universo geral da atividade social, na qual a vida coletiva é encenada. Apesar de todos viverem uma vida local, o mundo fenomênico é, na maior parte, verdadeiramente global.

Breve história do Carnaval

As festas populares na história da humanidade são sempre denúncia e anúncio. Denúncia pelo riso e pela ironia, de tudo o que entristece a vida, machuca as pessoas, suja o mundo e encarece o pão. Fome, doença, opressão. Anúncio do céu na terra que há de vir, com um planeta solidário e justo, costurado de festa, trabalho e afeição. O Homem, ao longo do tempo, passou a comemorar colheitas, chegadas de primaveras, independências, negação do inferno, permissões da carne.

As homenagens ao deus Dionísio ou Baco, com suas maravilhosas festas celebrativas, deram origem aos bacanais que com o passar dos séculos foram incorporados às permissões sem limites da festa da carne, que mais tarde veio a se chamar Carnaval.

O Carnaval no Brasil nasceu quase assim, uma parte veio do Egito antigo, outra parte foi retirada dos maravilhosos bailes de máscaras de Veneza. Foram os colonizadores portugueses que trouxeram o entrudo, o sincretismo religioso ensinou a seqüência das procissões que mais tarde veio a dar origem aos suntuosos desfiles. Tudo isso mesclado a uma válvula de escape oferecida pelos senhores aos escravos, nos dias que antecediam a Quaresma (período de quarentena - quarenta dias de resguardo para purificação antes da festa da libertação pelos pecados que é a festa da Páscoa). Essa festa foi se transformando em folguedo, folia, celebração das conquistas futuras e das inversões de papéis.

Como a religião era imposta aos negros e aos demais, o Carnaval se transformou na missa campal do povo brasileiro, onde a hóstia sagrada é substituída pelo pandeiro. O Carnaval virou quilombo temporário, onde os tambores soam em repúdio ao sofrimento imposto pelo regime e pelo sistema que prega ordem e progresso, ordem para as classes sócias desprivilegiadas e progresso para as classes altas. Claro que o governo tentou policiar e civilizar, à sua maneira, o Carnaval. Segundo ele, esse controle seria para evitar a baderna e para não virar bagunça, mas não teve efeito. O governo incentivou para que blocos de sujos e pequenos grupos se transformassem em escolas de samba. Mas a alegria é rebelde, a fantasia é desobediente e a ilusão, junto com a brincadeira, rompeu o cordão de isolamento que o governo tentou fazer. Hoje mais do que nunca, mesmo com todo o esquema empresarial da Liga das Escolas de Samba, é possível e preciso cantar, gritar e botar para fora as coisas que acontecem e que marcam a vida no cotidiano do povo brasileiro.

As manifestações estão presentes nas marchas, na música, nas cores, nas alegorias, nas fantasias, nas evoluções, na dança etc. Cada região do Brasil hoje tem sua diferente forma de se expressar na manifestação da mesma alegria. O Rio de Janeiro tem seu Carnaval onde os desfiles das escolas de samba disseminam a alegria, a cidade de Salvador tem seu Carnaval de rua, a cidade de Recife tem seus desfiles de bonecos etc. Cada um tem o seu Carnaval, cada um diferente, mas todos são referentes à festa do Carnaval.

O Carnaval deixou de ser uma festa folclórica regional para figurar junto às grandes festas de âmbito mundial. O virtual fez com que o Carnaval ultrapassasse as fronteiras e os limites geográficos do nosso país, fazendo com que o mesmo fosse apresentado e vivido em outros horizontes. E como o conceito de virtual atual é bem recente, vamos reatualizar o que já foi dito anteriormente, ou seja, o que existe em potência e não em ato. Por exemplo: "as suas qualidades são mais virtuais que reais"; e às vezes na presença da iminência de um acontecimento ou de uma situação da qual já estão em ato as premissas, por exemplo: "duas escolas já estavam em virtual estado de vitória, houve um empate e temos duas escolas campeãs".

Na Física o virtual é oposto do real, do efetivo, a propósito de grandezas introduzidas por convenção com objetivos de pesquisa ou representação, por exemplo: "deslocamento virtual"; ou ainda de fenômenos ou entes que se apresentam sob aspectos não correspondentes à realidade, por exemplo: na ótica se diz "foco virtual, imagem virtual".

Hoje o Carnaval brasileiro é um acontecimento multimidiático, onde a mídia do mundo inteiro quer acompanhar mais do que simplesmente o remelexo dos quadris da passista da escola de samba, como também entender o enredo, explicar o tema e comentar o porque das cores e das formas das fantasias. E porque as pessoas querem o Carnaval? Por influência da mídia; para vivenciarem experiências que outras pessoas viveram, para ficar por dentro do que acontece, necessidade de fantasia, busca da situação ideal, construção de valores, lazer etc.

Com a evolução do Carnaval, procurou-se associar os diferentes motivos e encontrou-se um ponto em comum entre eles para conciliar a alternância entre o real e o virtual. O que se tem é uma aparente forma de desligamento da realidade para uma realidade melhor. E essa realidade melhor que se deseja, que se busca, nem sempre é real. Pode ser virtual. Esta realidade virtual mostrou-se não ser tão melhor assim do que o mundo concreto. A virtualidade esconde um monte de situações também. Jean Baudrillard (2002, p. 133) diz que: "A virtualidade aproxima-se da felicidade somente por eliminar sub-repticiamente a referência às coisas. Dá tudo, mas sutilmente. Ao mesmo tempo tudo esconde."

A virtualidade pressupõe um rito de passagem do concreto para o simulacro. Esta passagem tem o significado de separação, marginalização ou reparação.O ritual é como se fosse um sacrifício, uma forma de purificação. Assim o ritual dos ensaios nas quadras das escolas de samba revela também o sacrifício de economizar um ano inteiro para comprar e pagar a fantasia de Carnaval. A purificação poderia ser ver seu sonho realizado. Qualquer pessoa vai estar de alma nova lavada depois da passagem de uma boa festa de Carnaval, bem brincada e bem pulada. Essa pessoa pode até requerer um alvará de felicidade. O Carnaval é um exemplo de rito de passagem onde, durante este período, a pessoa se desliga da sua realidade. Mas como característica desse rito, a pessoa sempre volta à sua realidade. A música reforça e enfatiza o ritual de passagem. A música de Carnaval é sempre alegre e marcante, tem geralmente um mote de realização e felicidade, transformando verdadeiras derrotas em maravilhosas vitórias fantásticas, no Carnaval tudo acaba sempre terrivelmente bem. Aqui no Brasil tem até uma expressão que diz que vai "acabar em samba".

Temos exemplos mil. Citemos o samba "Orgulho de um Sambista" (Wando - Gilson de Souza, 1973)("Ganhei o Carnaval e você me perdeu"), que conta a história do mestre-sala que foi abandonado pela porta bandeira no dia do desfile, e no final a Escola de samba vence o concurso devido ao excesso de empolgação do mestre-sala na avenida, pois este para esquecer o drama do abandono se concentra na dança e acaba contagiando toda uma Escola de samba com a sua alegria, nessa música a letra versa entre amor, dor e vitória. O grande lema do Carnaval é de ser o dia da alegria e a tristeza nem pode pensar em chegar. Depois que tudo passa, quando tudo acaba, o que fica mesmo é a lembrança e a recordação da música e dos momentos vividos embalados por aquela melodia de folguedo, alegria, ilusão e fantasia.

O Carnaval nos dias de hoje e o Carnaval Virtual

O Carnaval hoje é vivenciado como dias de lazer, de alegria, de folia, de extravasar, de exagerar, de desestressar. Nos transportamos para um mundo virtual. Às vezes temos uma imagem errada do que é a ilusão, a fantasia, do que é a realidade. Nos confundimos e nos frustramos seguindo expectativas que não são correspondidas. No Carnaval o país inteiro pára, se empolga e ao final do Carnaval infelizmente milhares de foliões ficam decepcionados, principalmente porque com o fim da euforia vem o retorno da dura realidade.

Entramos em um estado que passa de euforia à desilusão num curto espaço de tempo, como uma criança que ganha um brinquedo novo e descobre que ele não faz nada do que ela imaginava. Com a evolução da tecnologia, aprendemos também a melhorar essas fantasias, talvez sejam essas situações as mais conhecidas como realidade virtual. Tomemos como exemplo então o Carnaval onde os sons, as fantasias, as situações que se vê nos provocam sensações a um estímulo visual e sensorial que não existem, propriamente dito, ou seja, não são reais.

A grandeza do espetáculo se mescla com a beleza e se confunde com a monstruosidade do mundo virtual, exatamente por ser tão real, que nem sempre é perceptível notar que se trata de uma grande ilusão. O mundo virtual nos é tão real que o que se passa e o que se sente está tão presente, que chegamos a vivenciá-lo de maneira real e verdadeira. Por exemplo: as fantasias de Carnaval nos colocam, em certo grau, próximos a uma realidade tão dinâmica que extrapolam o nosso senso de realidade. A pessoa se veste com uma fantasia, vai para um lugar onde todos estão fantasiados também, vivencia aquela situação com todos que estão presentes ali naquele local, e depois tem que entender que é tudo só de brincadeira, tudo é só uma ilusão, é fantasia de Carnaval é virtualidade.

É comum a uma pessoa que gosta de Carnaval passar horas em seu mundo e não se aperceber do que se passa ao seu redor. Tem gente que está toda semana no ensaio da escola de samba. Aquilo se torna tão presente no seu meio que ela se transfere para aquela realidade, o que pode ser usada como válvula de escape. Também tem gente que vive nesse mundo porque depende dele, alguns trabalham com o Carnaval, são os operários da alegria.

Várias pessoas se refugiam em coisas e situações virtuais para dar vazão a frustrações e também para desestressar. O ato de chegar do trabalho e ir assistir uma novela ou um filme, ou ainda deitar e ouvir música é criar uma realidade virtual. Muitos pensam que o mundo virtual é aquele apenas ligado à internet, computadores, mídia eletrônica etc. Na realidade a virtualidade já nos contaminou a todos de tal modo que faz parte de nossas vidas.

O próprio Carnaval é uma extrapolação da realidade, onde você viaja em um mundo de fantasia, de lazer e alegria que transborda os sentidos com uma facilidade e com uma felicidade virtual, e onde um pobre coitado esquece as desilusões da vida e fica ao lado de celebridades curtindo o momento de glória onde a anarquia da felicidade e o compromisso do prazer se aliam à competência da organização para proporcionar o misterioso mundo da imaginação e da fantasia, onde o cidadão comum se iguala aos mais favorecidos economicamente e por quatro dias vive-se um estado de igualdade e alegria organizada, que tripudia das desigualdades e contradições do mundo civilizado, onde o patamar de compromisso se reduz a brincadeiras e são despidas as máscaras do preconceito para erguer a da solidariedade e da felicidade. E desfaz-se tudo na Quarta-Feira de Cinzas quando deixamos cair a fantasias de palhaço, Colombina, Pierrô etc. e nos vestimos com máscaras de responsabilidade, respeito, dignidade, que em um fundo branco se cobrem de hipocrisia, mas isso é uma outra coisa e voltemos à realidade virtual do Carnaval.

O Virtual no Carnaval

O Carnaval de hoje é apresentado como virtual ao ser pensado e programado na indústria do software. Qualquer escola de samba hoje programa o seu Carnaval de forma a apresentar um espetáculo atual, virtual, legal e real. Sabe-se que o virtual não é só imaginação porque produz efeito. Como sabemos este efeito é a manifestação magistral da cibercultura no cotidiano da vida, este fenômeno técnico encontra-se em movimentos sociais e culturais, muito bem retratados no livro Cibercultura, de Pierre Lévy (2003). Existe movimento social e cultural maior e mais expressivo que o Carnaval, onde a massa popular está sempre exigindo novos sentidos, vivendo um mundo de ilusão e fantasia em busca de satisfação e realização? No desfile há a busca de um objeto de fantasia para se realizar. Aqueles que não desfilam, a massa observadora, é que vai julgar e eleger o melhor ou o pior, assim sendo a massa observadora fica em silêncio e isso força a produção de sentido. Jean Baudrillard em A sombra das maiorias Silenciosas, diz à p. 33 que:

"O pensamento crítico julga e escolhe, produz diferenças, e é pela seleção que ele vigia o sentido. As massas, elas não escolhem, não produzem diferenças, mas indiferenciação - elas mantêm a fascinação do meio, que preferem à exigência crítica da mensagem. Pois a fascinação não depende do sentido, ela é proporcional à insatisfação com o sentido."

Já a imaginação não tem eficácia, principalmente dentro da área cognitiva, explica Pierre Lévy em As Tecnologias da Inteligência (1997). Para ele, "somente desta forma seremos capazes de desenvolver estas novas tecnologias dentro de uma perspectiva humanista, assim incorporando o técnico ao dia a dia."

Pierre Lévy diz ainda em O que é o Virtual? (p. 38) que:

"O aparecimento da escrita acelerou um processo de artificialização, de exteriorização e de virtualização da memória que certamente começou com a hominização. (...) Uma tecnologia intelectual, quase sempre, exterioriza, objetiva, virtualiza uma função cognitiva, uma atividade mental. Assim fazendo, reorganiza a economia ou a ecologia intelectual em seu conjunto e modifica em troca a função cognitiva que ela supostamente deveria apenas auxiliar ou reforçar".

Acontece assim: projeta-se uma simulação, realizando-a a seguir. O Carnaval da escola é projetado, desde o seu tema, com seu enredo e tudo o que tem direito, as alegorias, fantasias, tudo, primeiramente na tela do computador. O virtual no Carnaval é utilizado como instrumento para transportar a imaginação destinada a um acontecimento. O Carnaval no virtual acontece numa dimensão que não existe, mas que se constitui como poder criativo.

Em seguida Lévy (p. 41) diz que:

"O computador é, portanto, antes de tudo um operador de potencialização de informação. Dito de outro modo: a partir de um estoque de dados iniciais, de um modelo ou de um metatexto, um programa pode calcular um número indefinido de diferentes manifestações visíveis, audíveis e tangíveis, em função da situação em curso ou da demanda de usuários. Na verdade é somente na tela, ou em outros dispositivos interativos, que o leitor encontra a nova plasticidade do texto ou da imagem, uma vez que, como já disse, o texto em papel (ou o filme em película) forçosamente já está realizado por completo. A tela informática é uma nova máquina de ler, o lugar onde uma reserva de informação possível vem se realizar por seleção, aqui e agora, para um leitor particular. Toda leitura em computador é uma edição, uma montagem singular" .

No começo do século XX, as fantasias, as alegorias e os temas dos desfiles de Carnaval no Brasil eram projetados e desenhados em papéis enormes, em pranchetas ou mesas cheias de gente dando opinião. O computador aumentou essa velocidade no escrever, no calcular, no desenhar. Antes não se tinha essa oportunidade. Tinha o telefone, o correio, mas agora tem a internet, tem o e-mail. As escolas de samba oferecem suas fantasias pela internet, é só entrar na página da escola que se deseja desfilar e dar uma navegada, isto é, uma olhada, e escolher e comprar, simples assim.

Mais uma vez citamos Pierre Lévy (O Que é o Virtual, p. 38):

"Uma tecnologia intelectual, quase sempre, exterioriza, objetiviza, virtualiza uma função cognitiva, uma atividade mental. Assim fazendo, reorganiza a economia ou a ecologia intelectual em seu conjunto e modifica em troca a função que ela deveria apresentar".

O autor diz também, mais adiante (p. 148):

"A virtualidade não tem absolutamente nada a ver com aquilo que a televisão mostra sobre ela. Não se trata de modo algum de um mundo falso ou imaginário. Ao contrário, a virtualização é a dinâmica mesma do mundo comum, é aquilo que através do qual compartilhamos uma realidade. Longe de circunscrever o reino da mentira, o virtual é precisamente o modo de existência de que surge tanto a verdade como a mentira".

Por exemplo: no Carnaval carioca as escolas de samba procuram levar e apresentar algo de novo mesmo que seu tema por vezes nos transporte para tempos idos, ou ainda quando as escolas homenageiam alguém, ou então quando se auto-exaltam em suas maravilhas e fantasias. O que se faz na avenida e na hora da apresentação é realizar em ato aquilo que foi primeiramente planejado e projetado no virtual da tela do computador, mas que antes também foi concebido na imaginação, no pensamento e na mente. Sendo assim quando a idéia sai da cabeça para o papel a idéia é registrada, quando sai do registro para o computador a idéia é digitada e quando sai do computador para o galpão do barracão a idéia é manifestada, e do barracão para a avenida a idéia é apresentada e realizada.

No caso do Carnaval essa realidade virtual quando expressa e potencializada tem data, local e hora para acontecer. Acontece no sábado e no domingo de Carnaval, no Rio de Janeiro, no Sambódromo, na Passarela do Samba, onde cada Escola com seu tempo de desfile pré-determinado, um mundo de fantasia e ilusão para ser vivenciado por quase duas horas e depois o resto da vida para lembrar, ou seja, um verdadeiro mar de lembranças no mundo das recordações. Carnaval é isso: uma alegria que fica ou que vai embora. Ou que se acaba... Depende. É uma alegria que se cria, não é uma coisa assim que nasce. Essa alegria é criada em cima do cotidiano, do dia-a-dia, de fatos que acontecem na vida do povo.

Quando a lei do inquilinato se tornou vigente devido à onda de despejos e aumentos abusivos dos aluguéis, foi escrita uma marcha que dizia: "Daqui eu não saio, daqui ninguém me tira..." ("Daqui não saio", de Paquito e Romeu Gentil, 1950); quando uns delegados ordinários resolveram dar uma de moralistas e santificar o Carnaval do Rio de Janeiro proibindo a genitália desnuda, aparece um samba dizendo "Tem bumbum de fora pra chuchu qualquer dia é todo mundo nu" ("E Por Falar em Saudade", samba-enredo de Almir de Araújo, Balinha, Marquinho Lessa, Hércules Corrêa e Carlinhos de Pliares para a Caprichosos de Pilares, 1985), exaltando, criticando e satirizando a decisão legal. Uma verdadeira celebração virtual, pois ali ninguém estava comemorando aquela lei ridícula, estavam fazendo exatamente o contrário, estava todo mundo revoltado por ter que desfilar no Carnaval da avenida vestido; e todo mundo que estava ali naquela situação queria mesmo era estar pelado.

Jean Baudrillard, no conto A Grande Faxina do seu livro Tela Total (p. 29) nos diz que:

"A purificação é a atividade primordial deste fim de século, do qual três quartos serviram, antes de tudo, à acumulação de males, de violências, de corrupção e de culpabilidade. Assim, encontramo-nos diante de um fantástico resíduo, comprometidos com um trabalho de luto ilimitado relativo a todas essas peripécias, ideologias e violências. (...) Os meios de comunicação de massa e a classe política pagarão caro, a valer, sobre o nosso imaginário, perdendo todo crédito e toda credibilidade".

Em outra obra, A Ilusão Vital (2001, p. 84 e 85), afirma:

"É isto o que chamo de ironia objetiva: existe uma forte probabilidade, quase uma certeza, de que sistemas serão desfeitos por meio de sua própria sistematicidade. Isto é verdadeiro não apenas para estruturas técnicas, mas também para as estruturas humanas. Quanto mais estes sistemas políticos, sociais e econômicos avançam em direção à sua própria perfeição, mais eles se desconstróem. Isto é muito claro no campo da mídia e da multimídia, onde, por causa de um excesso de informação, perdemos o acesso à informação real e aos acontecimentos históricos reais. (...) Levado a extremos de sofisticação e desempenho, a um ponto de perfeição e totalização (como é o sistema virtual de redes e informação), o sistema atinge o seu ponto de ruptura e implode tudo por ele mesmo. Isso não ocorre por intermédio das ações de qualquer sujeito crítico ou de quaisquer forças de subversão: isso ocorre por meio da ultra-realização e reversão automática, pura e simples".

Então ali na fantasia do Carnaval a escola apresentou caricaturas de bundas de fora e alegorias representando a tal da genitália desnuda só para ridicularizar a proibição e também para desobedecer à ordem determinada, não poderiam trazer o nu em pessoa então trouxeram como tema, ou seja, de uma forma virtual trouxeram a tão polêmica genitália desnuda em ato e potência total!

Já em A Sombra das Maiorias Silenciosas, Baudrillard se expressa da seguinte forma (p. 33):

"Obtém-se a fascinação ao neutralizar a mensagem em benefício do meio, ao neutralizar a verdade em benefício do simulacro. Pois é neste nível que os meios de comunicação funcionam. A fascinação é sua lei, e sua violência específica, violência massiva sobre o sentido, violência negadora da comunicação pelo sentido em benefício de um outro modo de comunicação".

No Carnaval de 2003 a escola de samba Estação Primeira de Mangueira trouxe como tema Moisés e os Dez Mandamentos, satirizando as manipulações que as denominações religiosas estão fazendo com a fé. A mídia carioca perguntou: "e isso o que é? coisa do Demo? tentação do capeta? rebeldia? desobediência? desgosto manifestado em alegria virtual?" .Pensando no autor que aqui trabalhamos encontramos sua opinião sobre o virtual: "Ao contrário, a virtualização é a dinâmica mesma do mundo comum, é aquilo que através do qual compartilhamos uma realidade" nos ensina Pierre Lévy (1996, p. 148).

O Virtual no Século XX e no Século XXI

Nesses últimos séculos a evolução científica e os acontecimentos na área tecnológica se desenvolveram de forma muito acelerada. Evoluiu da máquina de escrever ao computador, da internet à globalização, para a informação mundial. O mundo real atual é constituído também pelo digital e pelo virtual de maneira natural. Ninguém mais se admira com nada só por ser um produto de última e mais avançada tecnologia, mesmo porque em se tratando de virtual as coisas tem uma volatilidade impressionante. Tem vida real meteórica: mal nasceu e já morreu, eventos começam, duram pouco e logo se acabam.

O mundo digital é constantemente substituído por novidades e tecnologias de ponta. Voltando ao autor Baudrillard (2001 p. 86):

"As coisas tornaram-se tão aceleradas, que os processos não se inscrevem mais numa temporalidade linear, numa revelação linear da História. (...) De qualquer maneira, não podemos contar com o pretexto de um desenvolvimento insuficiente do aparato científico, intelectual ou mental".

Esta rapidez e esse consumo são resultado do dispositivo de simulação que se tem disponível. Para Pierre Lévy o virtual tem existência, não é falso, existe. O virtual É. No mundo das coisas onde ele foi criado, a solução do problema está na sua realização criativa. No processo criativo está a ponte entre o problema real e a solução. No Carnaval este processo começa na idéia e termina na avenida, com o término do desfile de Carnaval. E entre um e outro, ou seja, entre o inicio e o fim está todo o aparato do acontecimento da produção do mundo, da alegria, da fantasia, do mundo da ilusão virtual. Ilusão virtual porque é ilusão, é fantasia, mas é também realidade, também é verdade.

A solução do problema nada mais é do que o acontecimento e produção de coisas novas. Para Pierre Lévy, inteligência artificial seria a digitalização da mente redimensionando a virtualidade. É que o virtual é a representação simbólica. A linguagem digital é o estado tecnológico do acontecimento virtual, onde o mundo das idéias não é determinado pelo mundo das coisas. O mundo digital é determinado pelo virtual, acontece em algum lugar que existe, a gente não sabe onde, mas que aparece na tela do computador.

Esta realidade é apresentada em simulação real, nasce então o que Jean Baudrillard chama de hiper realidade de simulação. Este termo está presente no seu discurso em vários capítulos do livro A Troca Simbólica e a Morte (1996), no texto A Ordem dos Simulacros e o Hiper Realismo da Simulação. Baudrillard discorre e examina o que ele define como o assassinato do real pelo virtual. Em um mundo de cópias e clones, no qual qualquer coisa pode se tornar presente em um instante pela tecnologia, segundo ele nós não podemos mais falar em realidade.

Conclusão

Carnaval virtual é a simulação da realidade. Como estamos em um mundo virtual e real ao mesmo tempo, é necessário aprender a tirar conclusões que serão as mais diversas possíveis, e mesmo assim cada qual terá a sua, e se dará por satisfeito. O fato é saber, entender e viver que o Carnaval inegavelmente provoca alguma reação em nossas vidas, em nossos corações carregados pelos sabores e dissabores da vida real, e que por uns instantes ou por uns dias, nos afasta de uma vida pacata cidadã e nos reporta a um mundo diferente organizado sem barreiras ou regras, que nos prendem sem esforços e sem grades, por nossa vontade própria de escapar do real, de viver a fantasia, de viver a ilusão, de viver uma outra realidade mesmo que virtual.

Bibliografia

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