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Editorial - QUEM IMPEDE QUE A INFORMAÇÃO CHEGUE ATÉ VOCÊ?

 

Editorial da edição nº 3 (ano 2) de Visão do Alto, jornal comunitário experimental produzido pelos alunos do 3º semestre do curso de Jornalismo da Faculdade Social da Bahia (junho de 2004) e distribuído nas comunidades do Alto de Ondina, Travessas Manoel Rangel e Pedra da Sereia (Salvador, BA). Professores responsáveis: Rosana Zucolo e Ricardo Mendes.

"Não tenho interesse em fornecer informações a jornal pequeno ou a pessoas físicas!". A afirmação, pasmem, é de funcionários públicos. Repetidas vezes os repórteres de Visão do Alto ouviram representantes de empresas que exploram concessões públicas ou autoridades - que são pagas para agir em benefício da população - negar informações importantes para entendermos por que, por exemplo, um bairro não tem posto de saúde, ou como ter acesso a um programa social. Tem gente que bateu o telefone na cara de repórter.

Todo ano, ingressam, no mercado de trabalho baiano, jornalistas que são profissionalizados nas sete instituições de ensino superior (só na capital). Elas oferecem o curso de Comunicação Social para a preparação de profissionais qualificados, conscientes das responsabilidades de quem escolheu o jornalismo como área de atuação.

As universidades e faculdades estabeleceram uma metodologia de ensino que exige o exercício mais básico de cidadania: cobrar responsabilidades e checar informações antes de levá-las a público. Para produzirem o material, os alunos-repórteres têm, muitas vezes, que se dirigir a determinados órgãos a fim de obter a confirmação ou explicação de dados apurados pela redação do jornal.

Doze repórteres (OBS: de um total de 33) da equipe do Jornal Visão do Alto tiveram suas perguntas ignoradas ou foram agredidos verbalmente ao buscarem a posição de órgãos públicos ou particulares. Por acreditar que a grande maioria das pessoas em funções de responsabilidade não age desta maneira, temos a obrigação de trazer a público o nome das instituições que têm em seus quadros pessoas que desprezam o respeito ao outro, desprezam o direito à informação. Fazemos isto, exatamente, para que não aconteçam generalizações.

Tivemos problemas no IBGE, Coelba, HGE, Limpurb e Telemar. A repórter Camila Rezende conta que, ao procurar o Coordenador Geral de Assessoria de Comunicação da Telemar, teve como resposta: "Não tenho interesse em fornecer informações a jornal pequeno ou para pessoas físicas", aquela mesma frase do início deste texto. A funcionária que atende ao 0800 da mesma empresa desligou o telefone várias vezes durante o questionamento da repórter. A Assessoria de Comunicação da Coelba foi consultada mais de cinco vezes e comprometeu-se a retornar a ligação ou responder por e-mail. Já as funcionárias do Setor de Recursos Humanos do HGE (Hospital Geral do Estado) foram ríspidas com os alunos-repórteres e se recusaram a dar informações. Tiago Gonçalves conta que uma funcionária da Limpurb, que se identificou como Ednalva, além de omitir informações, também desligou o telefone antes da conclusão da entrevista.

O descaso dirigido aos estudantes de Comunicação revela, no mínimo, falta de respeito. Uma preocupação que surge a partir deste contexto é com relação à provável discriminação sofrida por jornalistas não pertencentes a órgãos ligados ao poder público ou aos que não estiverem em empresas de grande porte. E esse não é um problema para ser pensado, nem uma cobrança para ser feita apenas por quem é estudante de Comunicação: será que você está sabendo tudo o que é importante como cidadão? Se não está, quem não permite que a informação chegue até você?

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