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AS MILONGAS DE VITOR RAMIL

Por Fabio Gomes

 

O grande momento do concerto de Vitor Ramil com a Orquestra de Câmara do Theatro São Pedro (Porto Alegre), em 25 de abril de 2004, pra mim, foi a inédita "Mango" (música de Vitor sobre poema de João da Cunha Vargas), num arranjo de Vagner Cunha. A milonga começou sendo executada apenas em voz e violão pelo solista, numa marcação 4/4 um pouco acelerada, pouco habitual em sua produção. Pouco depois, a orquestra se integrou, com violoncelistas batendo no tampo do instrumento e a convidada Ana Paula Freire fazendo o mesmo nas costas do seu contrabaixo. Em seguida, os violinistas e os violistas também iniciaram esse tipo de percussão seca. A melodia ficou sustentada apenas pelo violão e pelo pizzicatto de alguns violinos (um dos quais empunhado e tocado como cavaquinho). Na maior parte do repertório, tanto Vagner quanto o outro arranjador, Celso Loureiro Chaves, partiram do estilo "poucas notas" de Vitor tocar, para "vestir" a composição com timbres orquestrais, mas nesta música a tônica foi a ousadia.

Outras melodias de Vitor feitas a partir de poemas de Vargas foram "Querência" (outra inédita) e "Deixando o Pago", um número solo de Vitor, que se atrapalhou com a letra na metade, tentou retomar, tropeçou de novo e pediu a ajuda da platéia, que até então se mantinha calada. O incidente foi atribuído pelo compositor ao fato de ter que se apresentar de manhã. Aliás, ele chegara no palco afirmando, bem-humoradamente, não ter acordado ainda. Mas não houve maiores prejuízos, salvo na voz um pouco desaquecida na primeira música ("Querência", que ficou bem melhor no bis) e um pouco (bem pouco) na arrebatadora "Ramilonga", em que o maestro Antônio Carlos Borges Cunha precisou "reger" o solista, para que ele cantasse um pouco mais rápido, a fim de a orquestra literalmente não perder o embalo...

Vitor busca expressar em sua música o que denomina "estética do frio" - em resumo, ela afirma que, assim como o samba e o frevo são convites à festa, à rua, frutos de uma cultura que convive com o calor permanente, é natural que do Rio Grande do Sul, onde existe o frio (ausente em outras partes do Brasil), surja uma manifestação cultural mais interiorizada. Mas ele já deixou claro também em depoimentos que a estética do frio é uma forma muito pessoal, sua, de lidar com essas coisas, não se constituindo em uma "regra" para a música gaúcha. Em função disso, Vitor prefere compor sozinho. Suas poucas parcerias (com José Fogaça, Arthur Nestrovski e os irmãos, Kleiton e Kledir) são do início da carreira. O que não o impediu de se tornar "parceiro" de poetas como João da Cunha Vargas, Fernando Pessoa ("Noite de São João") e Jorge Luis Borges ("Milonga de Manuel Flores", a primeira milonga que Vitor compôs, a partir do poema publicado no livro Para las Seis Cuerdas, de 1965).

Em "No Manantial", o músico Fernando Portela participou tocando cravo. O timbre barroco do instrumento ajudou a acentuar o caráter dilacerante da milonga. Foi a única música em que o volume de som da orquestra encobriu a voz de Vitor.

Já na canção arranjada por Celso Loureiro Chaves, "Indo ao Pampa", Vitor projetou mais a voz e a orquestração resultou num som cheio, envolvente, repetindo-se novamente o efeito de pizzicattos e batidas no tampo. O final da música, "de soco" num compasso ascendente, causou excelente efeito. Por sinal, Chaves foi convocado publicamente por Vitor para escrever um arranjo de "Estrela, Estrela", música que não estava no programa e foi tocada, apenas voz e violão, a pedido do público.

Resumindo, como disse um espectador na saída, "muito bom começar o domingo assim!".

O único "senão" do recital foi o atraso de vinte minutos, certamente motivado pela falta de prática com o sistema de distribuição antecipada de ingressos - eles podiam ser retirados na bilheteria do teatro a partir da quinta, 22, e esgotaram no mesmo dia. Faltando cinco minutos para o horário do início da apresentação (11h), uma fila de pessoas sem ingresso dava voltas no prédio. Sugiro adotar o sistema usado pelo Itaú Cultural (São Paulo): quando o espetáculo está marcado para começar às 19h30, quem já retirou ingresso tem cadeira garantida até as 19h20. A partir daí, os lugares são liberados. E às 19h30 a porta da sala é fechada, ninguém mais entra e o show começa.

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