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ZIZI POSSI "PARA INGLÊS VER E OUVIR"
(E BRASILEIRO QUESTIONAR!)

Por Vera Barbosa

 

Faltando um pedaço. Não, não é canção de Djavan. Refiro-me ao show de Zizi Possi, em 14 de agosto de 2005, no Teatro Shopping Frei Caneca (São Paulo). Não questiono o excelente repertório (que misturou irmãos Gershwin, Cole Porter, Bob Marley, Queen e Beatles), tampouco os reconhecidos talento e versatilidade de Zizi, dona de uma voz belíssima e de cujos floreios e técnicas vocais todos falam bem - inclusive eu. Entretanto, nesta apresentação (e por mais que Zizi demonstrasse intimidade com a letra das canções), a intérprete não esteve plena. Talvez pela gripe, notável desde a primeira canção, e da qual ela mesma falou quase no final do show. O fato é que havia uma lacuna entre Zizi e seu público.

O figurino de Fábio Namatami não a deixou muito à vontade. Havia, ali, uma Zizi presa, sem liberdade de movimento. Sempre indago sobre o papel dos figurinistas, pois creio que cada um devia ser o seu próprio. Afinal, ninguém melhor do que nós para saber o que nos veste confortavelmente. E conforto deveria vir antes de beleza estética ou adequação de repertório. Talvez eu esteja equivocada e Zizi me desminta, mas eu a vi sob um tremendo desconforto no palco.

Aprecio muito o trabalho de José Possi Neto, seu irmão, como diretor, mas, desta vez, tenho algumas ressalvas. Os músicos poderiam estar mais integrados ao espetáculo - o que só ocorreu com o maestro. A cada canção, era a ele que a diva se dirigia, exceto no momento de apresentar a banda. No mais, Marcos Paiva (baixo) e Alexandre Damasceno (bateria) ficaram à parte. Era Jether Garotti Jr., piano e teclados, o centro das atenções. Possi Neto também poderia ter dado asas à irmã, para que voasse entre acordes e nuances de sua personalidade. A Zizi que vi estava com passos, caras e bocas muito marcados, sem liberdade de criação, totalmente limitada ao que foi previamente concebido. Caio em outro questionamento: técnica demais inibe a criatividade? E respondo: sim, porque prefiro um intérprete espontâneo, que libere seus sentimentos no que canta.

O que houve de bom foi o "bate-papo" de Zizi com a platéia. Em alguns momentos, ela se dirigiu ao público para falar de sua alegria em estar ali, sobre a paixão pelo repertório e o prazer de cantar aquelas canções. Dentre tantos sucessos que marcaram época - Frank Sinatra ("Fly me to the Moon"), Mama Cass ("Dream a Little Dream of Me"), Cole Porter ("Love for Sale"), Peggy Lee ("Why Don't You Do Right?" e "Fever"), Nat King Cole ("The Very Thought of You"), Rod Stewart ("I Don't Wanna Talk about It"), Carpenters ("Close to You" e "We've Only Just Begun"), Johnny Rivers ("Do You Wanna Dance?") e outros -, destaques para a interpretação de "Redemption", de Bob Marley (de cuja canção Zizi fez uma leitura não-reggae), "Love of my Life", do Queen (que Zizi iniciou a capella), e "Come Together", dos Beatles, que surpreendeu o público com uma Zizi mais roqueira, de voz mais grave e potente.

Para quem esteve no teatro, será difícil dissociar o que viu do CD, que, segundo Zizi, deve sair com o DVD entre outubro e dezembro deste ano. É esperar para ver o DVD e saber se, no dia de sua gravação, Zizi estava mais completa, mais entregue. Talvez as imagens revelem a face complementar deste artigo.

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