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CAMERATA BRASILEIRA

Por Fabio Gomes

O grupo fala da preparação de seu primeiro CD, da necessidade de mudar de nome, da concepção dos arranjos e dos planos para o futuro

Entrevista gravada em 27 de novembro de 2003 no Mercado Público de Porto Alegre. OBS: Na ocasião, o grupo ainda usava o nome Camerata Alma Brasileira, passando a se denominar apenas Camerata Brasileira no início de dezembro.

FABIO GOMES - Estamos conversando com o pessoal da Camerata Alma Brasileira, que terminou de gravar esta semana o seu primeiro CD. Continua o nome Deixa Assim?

MOYSÉS LOPES - Continua Deixa Assim. Não mudamos nada ainda.

FABIO - O repertório é basicamente o que vocês vêm apresentando nos recitais e nas rodas de vocês ao longo desse ano?

MOYSÉS - É, na verdade toda essa série de recitais que a gente fez no segundo semestre foi em função de preparar esse repertório pro estúdio. Ao sairmos da primeira etapa de gravação, nós já tínhamos os arranjos. E aí a gente começou a ensaiar aquilo e estudar. Depois a gente correu atrás para fazer essas pequenas temporadinhas no interior, que era pra poder amadurecer o repertório em cima do palco antes de entrar no estúdio. Bah, cara, foi um processo muito bom. Mudamos, botamos coisas... (Quando) a gente foi viajar, levamos nosso técnico de som, Fernando Vier. Levamos um MD e gravamos o MD direto da mesa. Claro, a equalização era feita pro local, mas tudo bem. A gente só queria era ouvir e, realmente, a gente constatou que algumas partes dos arranjos não estavam soando exatamente como a gente imaginava. Aí tivemos uma segunda temporada, que foi na região de Caxias, ali já com os arranjos alterados e dali veio a versão final e que ensebou o dedo da gurizada pra entrar no estúdio.

FABIO - Tem algumas músicas que vocês tocam desde o ano passado, tipo "Um a Zero" (de Pixinguinha) que vocês já mexeram, que eu contei, umas cinco, seis vezes no arranjo. Isso vocês estudam antes, ou rola muito na hora?

RAFAEL FERRARI - Acho que esse exemplo que tu deu do "Um a Zero" não é muito bom, que é a única música que não tem arranjo das que a gente costuma tocar.

RAFAEL MALLMITH - Sim, por isso que a gente muda tanto. (risos)

FERRARI - Vai do clima que tá na hora, acho que esse é o arranjo. O clima que tá na hora, ela sai.

FABIO - Vocês comemoravam o gol, aliás, 4 vezes, tanto que eu ia pedir pra mudar o nome da música pra "Quatro a Zero", depois vocês pararam de comemorar, não sei...

FERRARI - O estádio tá meio vazio, a galera não grita tão alto. Tem tudo isso.

FABIO - No início do projeto Na Roda do Choro, no ano passado, vocês tinham um repertório mais variado e também recebiam bem mais convidados. A partir do momento que vocês focaram na preparação do CD, vocês passaram a ter um repertório mais definido e passou a ter uma cara mais de show do que de roda de choro. Vocês pretendem continuar com o formato atual ou voltar a fazer como era antes?

FERRARI - Bom, a questão do repertório era essa intenção mesmo, firmar o repertório, como o Moysés falou, para entrar no estúdio a ponto de bala. A questão dos convidados... a gente sempre procura ter um convidado, como teve o Batuque de Cordas, como teve o Tiago Piccoli, às vezes o Reminiscências - aí varia, a gente faz outras formações, com o Luís Machado, pra diversificar o repertório. A gente sempre procura convidar quem a gente sabe que está disponível pra tocar num projeto que existe pra formar público praquele gênero musical. Então o que tem ocorrido é que o pessoal que toca choro em Porto Alegre não se faz presente, não vem assistir, não entra em contato.

LUÍS BARCELOS - Quanto ao repertório, temos 4 arranjos novos, que tão bem legais, até.

FABIO - Quais são?

LUÍS- "Czardas", do Vittorio Monti, "Maxixado", do Henry Lentino... Ajuda aí.

MALLMITH - "Carinhoso" (de Pixinguinha e João de Barro).

FERRARI - "Diário".

LUÍS - "Diário", do Kim Ribeiro, e o "Carinhoso".

MALLMITH - E o primeiro movimento ("Pixinguinha") da (suíte) "Retratos" (de Radamés Gnattali).

FABIO - O primeiro movimento da "Retratos" vocês já faziam no ano passado.

FERRARI - Não, é que nós fizemos um arranjo. A gente pegou o arranjo (de Radamés Gnattali para) a Camerata Carioca, que é uma redução (do arranjo original) pra um grupo - 3 violões, bandolim e cavaquinho - que a gente no primeiro momento adaptou para os 2 violões, onde os 2 violões faziam alguma coisa do 2º violão que tinha no arranjo de 3 violões. Aí eles misturaram, mesclaram, um fazia uma parte, outro fazia outra. Depois a gente modificou de novo, distribuindo as melodias por todos os instrumentos, coisa que não existe (no arranjo original) - é um concerto pra bandolim, né? É sempre o bandolim que está em destaque lá na frente. Nos 2 movimentos que a gente gravou, o 1º e o 2º, tá distribuído nessa concepção.

FABIO - Estão incluindo no CD então apenas os dois primeiros movimentos?

MOYSÉS - A gente não sabe. Até porque nós só fizemos contato com a viúva do Radamés, Nelly Martins, pra gravação do 2º ("Ernesto Nazareth"). Quando nós távamos no estúdio agora, na terça-feira (25/11), (dissemos) "Vamos gravar (o 1º movimento)", "Não vamos gravar", (eu disse): "Olha, cara, de qualquer maneira vai ser legal a gente gravar, ainda que não vá pro CD. Porque afinal de contas tamos num estúdio bom, os timbres foram bem feitos pelo técnico e tudo, vamos gravar." E aí a gente sentou e gravou. Se vai pro CD eu não sei. A gente vai ter que ver se vai caber dentro do nosso orçamento, que esse CD tá todo ele bancado, financiado por nós mesmos, não pegamos Fumproarte, nada. Ainda não escolhemos as tomadas que vão ser mixadas, tudo isso também tem uma morosidade própria da questão financeira. Nós vamos fazer o lançamento do CD em Porto Alegre (em 2004) em 1º de junho, comemorando o aniversário de 2º ano (do grupo) e lançando o CD.

FABIO - Bom, a gravação do CD terminou nessa terça-feira. Vocês já têm previsão do ritmo industrial da coisa agora...

MALLMITH - Fala pra ele.

FABIO - ...tipo mixar, masterizar, prensar... Por que até 1º de junho, dia que vocês vão lançar em Porto Alegre...

FERRARI - É, ele não tá sabendo.

FABIO - ... muita água vai rolar, e pelo jeito tem coisa que eu não tô sabendo aí.

MOYSÉS - É, tem coisa que tu não tá sabendo, uma coisa bem importante. Nós vamos ter que trocar de nome. Nós não podemos mais ser Camerata Alma Brasileira.

FABIO - Existe um grupo em Brasília com esse nome.

MOYSÉS - É, o Alma Brasileira Trio. Eles têm essa formação de trio desde 96 e entraram em contato conosco. Foi num momento que nós estávamos revendo, realinhando a nossa imagem por causa do nosso logotipo. A designer que tava encarregada da parte gráfica do CD achou que o logotipo não fechava com a música que a gente tocava.

FABIO - Aquele violão.

MOYSÉS - É. E aí, conversando, o Ferrari disse: "Ah, eu também acho".

FERRARI - Eu já falei antes (que a designer).

MOYSÉS - É, ele já tinha inclusive falado: "Olha, eu acho nosso logotipo infantil". Tá, nós tamos questionando isso, vem uma mensagem deles - muito educada, muito polida: "Temos um problema, também estamos lançando um CD que já tá pronto". Ainda não chegou na mão deles mas tá pronto. Aí passamos a conversar entre nós e também com essa profissional a esse respeito. E nós resolvemos fazer um total realinhamento de identidade, passando inclusive pela troca do nome. Mudança de postura de grupo... Que bom que aconteceu agora. Eu acho que a questão do CD vai passar por esse realinhamento. Nós tivemos muita sorte que isso aconteceu agora. Complicado ia ser se a gente tá com o CD pronto, tá com um monte de coisa armada e descobrir que ia ter que trocar de nome. Até mesmo porque, Fabio, esse pessoal de Brasília, tchê, tá construindo o nome Alma Brasileira desde 96, nós não temos o direito de virar uma pedra no sapato deles agora. Inclusive eles responderam hoje o nosso e-mail. Cara, a resposta deles foi maravilhosa, eles nos agradeceram. Acima de tudo, nós somos todos músicos e conseguimos resolver um problema desse dentro duma total civilidade. Tomara todo mundo se espelhe nesse tipo de coisa. (Leia mais sobre a mudança de nome em Por que a Camerata Brasileira Mudou de Nome). Nós podíamos estar nos lamentando, mas eu acho que tá sendo um processo muito bom, nós tamos redefinindo o caráter do grupo, pra procurar um nome em função disso e aí refazer tudo, voltar com a questão gráfica do CD, mas eu acredito que até junho a coisa já esteja tranqüila. A idéia é procurar estar com o CD na mão em abril. Inclusive é bem provável que a gente lance em Santa Catarina antes. Nós tamos com planos de ir pra Santa Catarina em maio, pra fazer o lançamento do CD lá. Já tenho contato com alguns produtores locais, é fundamental a presença de um produtor local porque nós não conhecemos a cultura local. Então a gente corre o risco de tocar no lugar errado. Em outubro nós temos uma turnê em 8 cidades do interior, fora isso tem convites pra voltar em Santa Maria, em Pelotas, provavelmente nós vamos ao Paraná, tá pintando alguma coisinha em São Paulo. Planos tem aos montes, promessas tem bastante, (mas) só acredito na hora do preto no branco, negócio concretizado, né? Com calma a gente vai construindo esse 2004 da mesma maneira que a gente construiu 2003. Mesmo assim, 2003 foi muito bom, nós vamos fechar o ano com quase 50 apresentações, quer dizer, pra um grupo novo de praticamente um ano de mercado eu acho que foi muito bom.

FABIO - Quando vocês iniciaram, (o grupo) já era um quinteto, só que houve nesse período uma mudança de um componente.

FERRARI - Quando a gente iniciou a intenção era de ser um quinteto, mas era um quarteto, na verdade. Não tinha o percussionista. Aí nessas buscas por um percussionista a gente acabou convidando o Sidney (Lentino), pai do Henry (Lentino, do grupo Tira Poeira)...

MOYSÉS - Nós ficamos um tempão sem...

FERRARI - Sem percussionista.

MOYSÉS - Ficamos meses, cara, ah, uns dois, três meses. Aí nós tínhamos compromisso, o Chorinho na Godoy, e o Sidney veio tocar conosco.

FERRARI - Ele disse desde o início que ele não queria compromisso, não queria entrar em nenhum grupo, que ele mesmo ia ver se ele conhecia alguém pra tocar. Dizia pra gente: "Ó, tem que arrumar alguém da idade de vocês", a gente dizia: "Não, isso é besteira".

MALLMITH - É, na verdade ele já tinha passado por muita coisa em termos de viajar com o Henry e já não queria mais se envolver tanto na correria com tocar. Então ele (disse) que talvez chegasse um certo momento ele podia não querer mais e nos deixar empenhados. Então sugeriu que a gente já começasse a procurar outro percussionista, foi bem numa época de férias, dezembro, janeiro e fevereiro. Tu vê, ele foi bem legal nessa questão.

FABIO - E aí então surgiu no grupo o Ânderson Balbueno.

ÂNDERSON BALBUENO - É, aí apareci... (risos)

FABIO - Como foi que eles te convidaram?

ÂNDERSON - Bom, eu já conhecia o Luís já há uns dois anos. Só que eu não tocava choro, não conhecia ainda o gênero, era mais do samba.

FABIO - É, a tua forma de tocar pandeiro deu um molho mais de samba para o grupo.

ÂNDERSON - Mas é que o choro e o samba são muito próximos. Em fevereiro de 2003, o Luís me convidou pra eu tocar com o grupo. Aí eu comecei a escutar o básico que todo músico que toca choro tem que escutar, que é Pixinguinha, Jacob (do Bandolim), Waldir Azevedo... E bom, comecei a tocar choro, comecei a tocar com o Alma Brasileira, final de fevereiro pra março.

FABIO - Aquele pessoal que tocou com vocês ali nas rodas no ano passado, vocês chegaram a sondar alguém: "Olha, tamos precisando de um percussionista?"

MOYSÉS - Não, das rodas não...

FERRARI - Não apareceu nenhum! O único que apareceu era o Solano, que já toca com o Reminiscências.

MOYSÉS - O que a gente fez foi conversar com o Fernando do Ó e pedir pra ele que nos indicasse alguém. Ele nos indicou um baita percussionista, o Binho. Muito bom. O Binho foi muito legal, ele tocou conosco e ele disse assim: "Cara, vocês precisam um percussionista de plantão, sempre com vocês." A gente precisa ter alguém que vá lá, que vá nos ensaios...

FERRARI - Que ajude nos arranjos...

MOYSÉS - Isso a maioria dos percussionistas não quer. Querem ser free (free-lancer). E pra nós o perfil do free não servia. Pela natureza dos arranjos que a gente toca... nosso repertório é muito arranjado, com muito cuidado, tem muito detalhe, não é "vamos lá, vamos ver no que vai dá". Tchê, a gente sua sangue nos ensaios! E foi o que o Ânderson topou fazer. Entre nós (de harmonia), beleza, a gente distribui a partitura e vamos ver o que que vai dar. Mas aí entre pegar e ouvir e decorar a entrada e saída e resposta de pandeiro... Pandeiro não é um acompanhamento. Ele é exatamente um integrante mais, tem tanta importância, tanto peso quanto qualquer outro. Por isso que a expressão "bater um pandeirinho" pra nós não serve. Ou vai tocar, ou não vai fazer nada.

MALLMITH - Tem grupos que tocam de uma forma mais tradicional, com arranjos que o pandeiro realmente acompanha, que não é bem a nossa proposta.

ÂNDERSON - Hoje em dia, aquela idéia que a percussão é um instrumento de base, de dar o pulso da música, isso aí é ultrapassado. Tem arranjos em que em vez do pandeiro dar o pulso, (quem dá) é a harmonia, o violão de 7 cordas... É o caso da bateria no jazz, um instrumento de solo.

FERRARI - A nossa concepção de grupo, o trabalho que a gente faz é totalmente diferente de grupo de choro tradicional. Não quer dizer que seja melhor nem pior, é diferente, só isso. Onde todos os instrumentos têm o mesmo peso, o mesmo valor e a mesma responsabilidade dentro dos arranjos, tanto na hora de tocar, quanto na hora de fazer os arranjos, na hora de debater, de mudar o que tem que ser mudado, é sempre assim. Se não tiver aquela frase, aquele trecho onde o violão vai fazer tal resposta não sei onde, já dá um problema. Eu não sou o solista, ou o violão é o solista, não, mesmo quando o violão de 6 tá solando, fazendo a melodia principal, tem todo um trabalho de contraponto, de fraseado por trás, aonde a percussão também se encaixa pra completar.

LUÍS - Coisa legal também, por exemplo, tem arranjos em que o violão de 7 sola. Assim como o pandeiro sola também. Tem um arranjo em que o Ferrari faz contraponto de contrabaixo que nem o 7 cordas tava fazendo antes. Então é muito legal isso, de inverter os papéis, entende? Isso é legal, o cavaquinho tanto solar, quanto fazer contraponto como fazer harmonia. Todos os instrumentos assim. Isso é muito legal. Experimentar.

MALLMITH - Se um tem algum problema particular e não pode comparecer no ensaio, o ensaio é desmarcado; se um não consegue ir tocar, não tem como ter alguém pra substituir. Não é que nem num (outro tipo de) grupo, "Ah, chama o Fulano", "Ele faz o pandeiro, eu faço o 7, tu faz o cavaquinho". Pra nós, não, porque todo mundo tem uma função...

FERRARI - Pré-determinada.

MALLMITH - ...e sem aquela pessoa a coisa não anda. É bem a cara do grupo.

FABIO - Vocês ensaiam 2 vezes por semana?

MOYSÉS - 2 vezes é o normal. Na proximidade de compromisso, são 3 vezes...

FERRARI - O ano todo a gente ensaiou 3 vezes.

MOYSÉS - É que o ano inteiro era compromisso. São 15 horas, mais ou menos, por semana, de ensaio, fora o que a gente faz sozinho em casa.

FABIO - E essa mesma preocupação vocês transpuseram pro grupo paralelo Samba de Fato.

FERRARI - É, também é um grupo, não é um ajuntamento. Faz o quê, uns nove meses que a gente tá junto (no Samba de Fato), teve alguns compromissos já, já tocou por aí, fez algumas apresentações, no âmbito mais de ensaiar, definir algumas coisas, repertório, se conhecer, como a gente fez no Alma Brasileira.

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