Brasileirinho - PrincipalVoltar ao Menu

CINCO PERGUNTAS PARA DJ DOLORES

Por Fabio Gomes

 

Entrevista realizada por e-mail em 26 de junho de 2004

BRASILEIRINHO – Quando você insere elementos populares, como o ritmo dos tamancos das mulheres que participam de festas nas ruas de Laranjeiras (SE), em sua música, me parece que você parte do ritmo contido ali para criar um som, evitando cair na tentação de apenas “citar” para dar um caráter “exótico”. Estou certo nessa impressão?

DJ DOLORES - Sim. Mas também não sei discernir o que você chama de “cultura popular” do que poderíamos chamar de pop internacional. Cresci ouvindo as duas coisas, como quase todos os meus amigos. Lembro-me que quando era criança, em Própria (SE), ia pras festas de marujada, pro boi, que envolviam toda a cidade. Mas nos alto-falantes tocava Roberto Carlos. Essa mistura sempre fez parte da minha vida e pra mim é tudo música de festa, coisa bacana pra alegrar o povo e fazer todo mundo dançar. Que nem uma boa noitada de eletrônica ...

B – Em “É o Frevo” e “Santa Massa Chegou”, é quase impossível identificar onde possa haver samples ou onde realmente os músicos estivessem tocando. Já na música que abre o filme Narradores de Javé, a bateria eletrônica está muito marcante (em todos os sentidos...). Você vem se preocupando em deixar os elementos eletrônicos aparecerem mais no arranjo?

DJ - Você está falando de timbres pois “Santa Massa ...” é cheia de samples mas de origem orgânica. Daí soa como se fosse “tocado”. Quase toda a percussão do Contraditório? é programada. Em Narradores ... a bateria está mixada bem na frente mas, se você reparar direitinho, apenas o kick e uns agudinhos são programados, a estrutura da música é de gente tocando ao vivo no estúdio. Curiosidade: o naipe de metais é feito por uns caras de Nazaré da Mata, cobras em maracatu, músicos que acompanham o Siba mas também têm uma banda de rock, são ligados no que rola por aí ...

B - Creio que você seja o pioneiro no uso da licença Creative Commons no Brasil, ao fazer um remix de “Oslodum” (Gilberto Gil), música da qual o ministro abriu mão da cobrança dos direitos autorais. Como surgiu a idéia desse remix?

DJ - O convite partiu do Gil e da revista Wired ("Oslodum" sairá num CD que acompanha o número de agosto da publicação americana, dedicado aos novos rumos da economia mundial). Acho importante tornar legal na Constituição algo que já está incorporado no dia-a-dia das pessoas que é o mp3, a cópia em cd-r, o uso de samples ... o discurso das grandes corporações de música é retrógrado, é conservador e mesquinho. A tecnologia muda a vida das pessoas, as relações comerciais e isso não é bom. Temos que repensar o jeito de ganhar dinheiro com música e esse não é um problema do consumidor, é um problema nosso, dos profissionais. O que não dá pra tolerar é ver gente que baixa mp3 sofrer processos milionários como acontece nos Estados Unidos. Precisamos também rever urgentemente conceitos como autoria, composição e a própria idéia de música ... a maioria das pessoas ainda tem em mente o conceito clássico de séculos atrás embora já tenhamos vivido a revolução do intérprete como autor através do jazz e da música popular ...

B - Como estão os preparativos para a gravação de seu próximo CD, Aparelhagem?

DJ - Desde fevereiro estou em tour com a Aparelhagem, meu novo projeto. Mas só tocamos duas vezes no Brasil. Já fizemos 2 tournês pela Europa, a última começou pelo leste europeu, e semana que vem embarcaremos para fazer os grandes festivais de verão europeu como o Womad, por exemplo. O disco está quase pronto e, sem falsa modéstia, está muito poderoso. O leque de influências se ampliou bastante.

B – Quando anunciei em Passo Fundo (RS), numa edição do meu curso Panorama Histórico da Música Brasileira, que ia apresentar “um trecho de ‘É o Frevo’, com DJ Dolores”, uma estudante mostrou-se preocupada – pelo uso do termo “DJ” (vai ver que ela achou que ia ouvir algo trance). Você considera que o fato de usar como nome artístico esse termo, “DJ”, associado a um nome feminino, ajuda ou atrapalha?

DJ - É ... as pessoas tem uma visão bastante estereotipada do que seja um DJ. Mas eu comecei assim, em 1989, e ainda me considero alguém mais capaz de manipular informações musicais que um músico exatamente. Quanto ao nome eu não sei se atrapalha ou ajuda mas tem um certo humor ... humor é uma forma de inteligência, você não acha?

(Agradeço à estudante de Publicidade da AESO, Cerize Ferrari, por auxiliar no contato com DJ Dolores. Fabio Gomes)

Copyright � 2004. � proibida a reprodu��o total ou parcial do conte�do do Brasileirinho para fins comerciais