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HERBERT VIANNA

Por Fabio Gomes

 

O líder d'Os Paralamas do Sucesso fala de criação, mercado, política, imprensa e das parcerias com Charly Garcia e Titãs nesta entrevista coletiva gravada em Bento Gonçalves (RS), em 9 de maio de 1992. Os Paralamas tocaram nesse dia na cidade, vindos de uma apresentação na noite anterior em Florianópolis (SC) e a caminho da excursão de lançamento de seu primeiro LP para o mercado latino-americano. Das contextualizações necessárias após 13 anos da gravação da entrevista, as mais curtas foram inseridas no texto, em itálico entre parênteses. As mais longas são apresentadas em notas ao final do texto.

BRASILEIRINHO - Vocês estão fazendo algum trabalho novo, tão preparando uma coisa nova?

HERBERT VIANNA - Não, esse disco (Os Grãos) é mais ou menos recente. A coisa de nova que a gente tá trabalhando não tá saindo no Brasil, que é nosso primeiro disco em espanhol. Amanhã a gente toca em Santo Ângelo, e na segunda-feira (11 de maio) a gente vai pra Buenos Aires, passa uma semana trabalhando e promovendo esse disco novo. Na outra semana a gente vai pro Chile e um pouco mais ao final de maio ou começo de junho, a gente vai pro México. O disco chama só Paralamas. É uma compilação das músicas mais conhecidas, com versões em espanhol. Algumas músicas foram regravadas. É um projeto bem cuidado. São dez países que tá saindo, incluindo Espanha e Estados Unidos.

BRASILEIRINHO - A música latino-americana seria um novo caminho, depois da África?

HERBERT - Não, acho que é o resultado da gente ter ido tanto a esses países, da gente ter tocado tanto e conhecido tanta gente na Argentina. A gente gravou, por exemplo, várias vezes com Charly (Garcia) - ele gravou em discos da gente, a gente gravou nos discos dele e tal. A gente conheceu outros músicos de lá. Fito Paez, pra mim particularmente, é um ídolo. É o autor de "Trac Trac".

BRASILEIRINHO - Que expectativa você tem em termos de conquistar mercado no exterior, além daquele que vocês já têm?

HERBERT - A nossa expectativa nesse caso é muito grande. Porque a gente desde 86 toca muito na Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Venezuela, Espanha, Portugal, França... Montreux a gente já tocou duas vezes, Estados Unidos a gente já tocou muito, tem uma população latina grande lá. Mas nunca teve um desdobramento porque a gente nunca tinha tido um disco gravado em espanhol. Então agora eu acho que a gente vai poder tocar no rádio, as pessoas vão poder comprar, ouvir em casa. Eu acho que vai ser uma coisa grande, eu espero que seja uma coisa grande, que a gente possa excursionar, tocar bastante. Expandir mesmo.

BRASILEIRINHO - No próximo disco, vocês vão optar por um outro caminho?

HERBERT - Não consigo imaginar. Porque a gente sempre, desde o começo, a gente fez muita coisa diferente. A gente misturou muita coisa sempre. Então, acho que se tem alguma regra que valha pros Paralamas é que vale qualquer coisa, a gente pode qualquer coisa, a gente pode fazer bolero. A única constatação que eu posso fazer é que agora a geração da gente já não é mais uma novidade, não é mais uma surpresa. A gente já passou dos 30 anos, a gente já passou dos 10 anos de trabalho, e as pessoas obviamente estão procurando coisas novas. Mas acho que as coisas boas atravessam o tempo e essa barreira difícil que é quando você deixa de ser uma novidade e você passa a ser uma coisa conhecida. Mas o nosso papel é lutar pra sobreviver e mostrar que a gente vai trabalhar enquanto a gente tiver coisas pra falar.

BRASILEIRINHO - O que seria esse algo para dizer?

HERBERT - Acho que a pessoa precisa ter autocrítica de perceber, por exemplo, que você musicalmente não tem nenhuma novidade pra acrescentar, que em termos poéticos ou em termos de crônica que a tua letra possa fazer, você não tem nenhum ponto de vista novo. É não lançar um disco só por lançar, sabe? Não fazer música só por fazer, só pra lançar e ver se a música toca no rádio, aí você faz show, não sei o quê. Isso não existe no nosso plano de vida, na nossa concepção. A nossa idéia é de, quando a gente tiver um trabalho que seja consistente, diferente, estranho, de alguma maneira provocador, que faça com que as pessoas tenham algum tipo de reação, mesmo que seja uma reação como a do (jornalista Luís Antônio) Giron (l) ou de quem quer que seja. Tudo que a gente fez nunca passou desapercebido.

BRASILEIRINHO - A grande indignação deles é porque você fazia uma letra superpolítica, agora tá mais romântica.

HERBERT - Mas tem horas que você faz uma coisa, tem horas que você faz outra. Pode ser que daqui a um mês saia uma coisa legal que seja política, pode ser que não. É questão de momento.

BRASILEIRINHO - Como é que você analisa esse momento político do Brasil, cheio de denúncias de corrupção? (2)

HERBERT - No meu ponto de vista - quer dizer, quem sou eu, a gente passa pequenas mensagens através das coisas que a gente escreveu, agora... Do meu ponto de vista particular, só uma reforma espiritual grande, que extraísse o egoísmo das pessoas, que fizesse todo mundo raciocinar de uma maneira diferente, ia mudar. É claro que um pouco a política ajuda, mas acho que a solução pra isso é uma solução mais profunda. O Brasil foi colonizado de uma maneira em que o país colonizador era muito forte, tomava todas as decisões. Então a gente se acostumou a não tomar decisão e esperar pelos outros, enquanto que, por exemplo, os Estados Unidos, que foram colonizados pela Inglaterra, tinham essa coisa de responsabilidade individual. Cada um é responsável pelas comunidades, pelas atividades comunitárias e tal. Então todo mundo sabe que cada um fazendo, o todo vai melhorar. No Brasil, não, a gente espera que alguém faça pro todo melhorar. E nunca vai mudar.

BRASILEIRINHO - Essa história de colocar o Paralamas, a Legião Urbana e os Titãs como um triunvirato do rock brasileiro, isso aí prejudica ou auxilia? Como é que funciona isso aí?

HERBERT - Acho que nunca funcionou nem de uma maneira nem de outra. A gente realmente tem uma colaboração com os Titãs, a gente tocou junto com eles no Hollywood Rock (1992). A gente tem um projeto de fazer uma excursão brasileira grande (3), tem vários shows no exterior que a gente tá pra fazer também. Mas esse negócio não ajuda, não atrapalha, não acontece nada. Na prática, não se reflete.

BRASILEIRINHO - Como você vê a crise do rock no Brasil hoje? Sobraram poucas bandas, as vendas caíram... há uma queda no mercado?

HERBERT - Olha, no subúrbio de Recife hoje tem gente que tá comendo lixo, as frutas podres que caem do caminhão os caras pegam e comem. Os médicos ganham muito pouco. Os professores ganham praticamente nada. Tem muita gente desempregada, tem muita gente subempregada. A miséria é geral, então num país como esse, onde as pessoas não têm o que comer, não têm saúde, não têm onde estudar, obviamente música e muito mais ainda rock'n'roll ou qualquer coisa que seja pura diversão não significa nada e não tem a menor importância. Tem que acabar com tudo para que as pessoas caiam na realidade nua e crua. Não tem como lutar pra mudar essa situação através da imposição da música pras pessoas. Quando as pessoas têm roupa, quando elas têm comida e quando elas têm casa, a música é uma diversão. Mas se elas não tem isso, a música é uma coisa supérflua que não interessa.

BRASILEIRINHO - Uma reportagem da revista Veja te colocou no bloco dos ressentidos da música brasileira, junto com Tom Jobim, Chico Buarque... (4)

HERBERT - Isso aí eu não tenho nenhum constrangimento de falar. Esse cara - Alfredo Ribeiro, um jornalista do Rio - é um jornalista extremamente medíocre. É uma mentalidade que ainda prevalece no Brasil, de as pessoas, pra autopromoção e pra promoção dos veículos em que elas trabalham, imaginar que a maneira mais fácil é você chegar e mandar um pau. Não é que, por exemplo, eu seja megalomaníaco a ponto de achar que o nosso trabalho é inatacável. É claro que o cara pode atacar e achar péssimo e não sei o quê. Agora, se um cara medíocre como esse pega um espaço enorme e fala "Caetano Veloso é um imbecil"... Caetano fez declarações a respeito de uma coluna que ele (Alfredo Ribeiro) assina com o codinome de Tutty Vasques. Então ele pega isso e faz uma matéria, fala que todos os músicos no Brasil são ressentidos e que todos ganham muito dinheiro com música, quando nenhuma das duas coisas é verdade. Se tem alguém que tá feliz e bem na vida são pessoas como Caetano Veloso, que tem lucidez, é das poucas pessoas lúcidas que têm nesse país. Então isso aí é arremesso de ressentimento à distância.

NOTASVoltar

(l) Não consegui identificar a que texto de Luís Antônio Giron o entrevistado estava se referindo.

(2) A revista Veja de 29 de abril de 1992 trazia uma entrevista de Pedro Collor, irmão do presidente Fernando Collor de Mello, denunciando o "esquema PC" de tráfico de influência e corrupção instalado dentro do governo federal. O Congresso Nacional instalou uma comissão parlamentar de inquérito em 26 de maio para investigar o caso. Collor foi afastado das funções de presidente em 29 de setembro, com a aceitação da denúncia pela Câmara dos Deputados, e renunciou a 29 de dezembro, minutos antes de o Senado Federal votar seu impedimento.Voltar

 

(3) O projeto só se concretizou em 1999, através da turnê Sempre Livre Mix, com 13 shows em vários estados, como Espírito Santo, Paraná, Distrito Federal, Goiás, São Paulo, Rio Grande do Sul e Bahia.Voltar

 

(4) A matéria Bloco dos ressentidos - Cresce a turma dos artistas que falam mal do país enquanto faturam cada vez mais dinheiro e prestígio, de Alfredo Ribeiro e Virginie Leite, publicada na editoria de Cultura da Veja de 22 de abril de 1992, apontava Tom Jobim, Caetano Veloso, Chico Anysio, Chico Buarque, Dercy Gonçalves, Herbert Vianna, Millôr Fernandes, Sérgio Ricardo e Pelé como "ressentidos" contra a imprensa Já Ziraldo e Tim Maia não só seriam ressentidos, mas também os únicos que assumiriam isso publicamente. Gilberto Gil e Marieta Severo eram classificados por Alfredo e Virginie como artistas "serenos", por evitarem as queixas públicas. Transcrevo o trecho da matéria sobre Herbert:

"Herbert Vianna, dez anos de estrada à frente dos Paralamas do Sucesso, é um recém-ressentido que já sonha como o dia em que vai parar de dar entrevistas. 'No futuro, se Deus quiser, não vou mais falar com ninguém da imprensa', anuncia. Ele não gostou da maneira como o último LP da banda, Os Grãos, foi tratado. 'O tom era de que nós tínhamos feito alguma coisa interessantinha no passado', reclama. Se alguém deduzir que o talentoso Herbert está se queixando, ele vai ficar mais chateado ainda."

Segue a parte da matéria citada por Herbert a respeito de Caetano:

"O ressentido tem razões que a própria razão desconhece. É capaz, a exemplo de Caetano Veloso, de travestir-se de anjo ou demônio para tratar do mesmo assunto. Em um momento, ele aplaude a crítica, 'ainda que imbecil e injusta', como fonte de estímulo do artista. 'Quando o cara é interessante, tudo o que acontece com ele tende a se tornar interessante, até agressões descabidas podem ser úteis', explica o doce Caetano. No instante a seguir, ele vira bicho. 'Teve um imbecil, um canalha, um idiota do Rio de Janeiro que se achou no direito de me xingar, me chamou de marketeiro.' Referia-se ao cronista Tutty Vasques, da revista Veja Rio, que em artigo publicado em novembro do ano passado [1991] satirizou as declarações repetidas pelo cantor em todas as entrevistas que concedeu às vésperas do lançamento do LP Circuladô." Voltar

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