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KARINE CUNHA

Por Fabio Gomes

 

A cantora-compositora fala do CD Fluida e de seu processo de criação

Entrevista gravada em Porto Alegre em 11 de julho de 2005

FABIO GOMES - Tu compões tanto, quase todo show tem uma música nova... Eu queria saber como é teu processo de composição. Vem a idéia já pronta, ou vem a música e depois vem a letra, como é que funciona?

KARINE CUNHA - Pensando nas músicas que estão aqui (no CD), posso dizer que cada uma teve um processo diferente. Por exemplo, "Expresso" foi pela letra. Eu quis fazer uma música sobre o café. Então comecei a listar os tipos de café. Isso aconteceu (também) com "É o Peixe!". O Marcus (Bonilla, compositor e violonista, marido de Karine) me deu todos aqueles nomes de peixe e aí eu pensei: "Tá, como é que eu vou chegar nos peixes? Vou contar a história dum pescador!" Aí comecei a imaginar, porque eu não conheço nenhum pescador, só pelas músicas do Dorival Caymmi, né? E aí aquela lista apareceu daquela forma. Eu escrevi os nomes e comecei a ver uma rima, mas que tivesse sonoridade. "Cereja" também foi assim, eu queria falar daquelas coisas, cereja, damasco, carambola, que eu achava interessante, e comecei a viajar na idéia. "Valsa de Harém" também foi pela letra. Se tu observares bem a letra, eu uso as mesmas palavras em frases diferentes.

F - É, tem uma estrutura na letra que tu reproduzes nas estrofes (estrutura conhecida como "variações tensivas").

K - Então, acho que na maioria das músicas, é pela letra. Mas aconteceu, por exemplo, "Água de Cheiro" foi junto a letra e a música, soprada. Ou (vêm) as primeiras frases e eu caminhando e desenvolvendo, cantando na rua... "Pedalload" foi assim, eu tava andando de bicicleta, atrás do Marcus e... (canta) "Pedalando menino, pássaro em duas rodas..." Então a gente fez toda uma volta, assim, pedalando, quando chegou em casa já tinha essa parte... Eu fiquei com a idéia, fui pro violão e continuei desenvolvendo. Geralmente vem alguma coisa, mas aí tem que desenvolver. E às vezes fica encalhado. Fica no papel, eu deixo guardado pra uma hora que eu tô a fim, com tempo... Não tenho uma disciplina "ah, todo dia, tal hora", não. Até porque na verdade, não é uma coisa totalmente racional, pelo menos pra mim não é assim. Tem gente que condena, acha (que) compositor é aquele que faz tudo racional, e já tem gente que gosta de Dorival Caymmi e sabe que ali só tem Deus, não tem um estudo, né? É uma coisa divina. Então acho que o que vale é a tua proposta. Vai depender do que aquela música tá pedindo. Às vezes ela tem uma idéia legal, mas aí falta uma harmonia legal, ou o ritmo não é ainda bem aquilo. Então tem um monte de coisa guardada, que ainda não tá legal.

F - Uma coisa que me chamou a atenção nessas músicas do CD: a única que é triste mesmo, de dor-de-cotovelo, é em francês ("Pitiê de Moi!"). E as outras músicas, a maioria passa uma alegria...

K - Que bom! (risos) "Pitiê de Moi!" veio só a melodia e aí eu achei que ela tinha esse clima francês, triste, melancólico, então inventei essa história desse amor impossível.

F - Superimpossível!

K - Eu fiz agora com a Ivete (Brandalise) o (programa) As Músicas que Fizeram sua Cabeça (na FM Cultura, Porto Alegre) e ela me perguntou se eu tinha dor-de-cotovelo. Eu disse a ela que eu não tinha, mas eu inventava. Que às vezes eu precisava ter a dor-de-cotovelo pra encaixar em alguma idéia. Aí eu pego o exemplo de um amigo, ou uma novela que eu vi, sei lá. Eu sou uma artista, e o artista cria coisas.

F - Nem tudo é autobiográfico, né?

K - Não.

F - Além do "Pitiê de Moi!", (só localizei nas músicas do CD) tristeza em outros, outras pessoas ou outros seres: a triste Janaína de "Chuva no Mar" e a tristeza das partidas de "Canção Aportada", o que me parece uma relação do rio com as lágrimas e a tristeza...

K - Pode ser uma tristeza minha ou essa coisa da criação mesmo. No caso de "Chuva no Mar", eu tava tomando banho de mar e começou a chover. Então aquela imagem das gotas no mar parecia o choro mesmo. E exatamente naquele dia, não sei se era 2 de fevereiro... bem pertinho de onde a gente tava tinha um altar pra Iemanjá, uma estátua e tal... Foi uma coisa bem instintiva, tava ali tomando banho e começou a vir essa idéia: "Quando a chuva cai no mar...". Até no primeiro momento eu achei muito didática a letra, mas por outro lado achei bonito ser uma coisa bem o que eu tava vendo acontecer. Resolvi deixar assim, as estrofes eu fiz naquela hora, só o refrão eu acho que fiz depois, e aí veio essa idéia de choro da Janaína. Depois eu fui pro violão, queria fazer um maçambique. Só que eu não sabia como é que era. Então ficou uma coisa parecida, mas não é, né? E ficou bem do jeito que ficou.

F - Ficou!

K - Cada vez mais eu tô demorando mais pra fazer, vem essa idéia e eu tô deixando cada vez mais passar mais tempo pra descobrir aquilo ali. Quando vem só um pedaço, se já tem algo da música, eu gravo, senão escrevo, e deixo guardado. Não necessito assim, sabe, ficar forçando, não, deixo que o tempo ou algo lá em cima decida o que é...

F - Conhecendo o teu processo de composição, me parece que, pra ti, a exposição da música ao público nos shows faz parte do processo de criação A partir disso, podes não alterar a composição, mas modificar alguma coisa de arranjo...

K - Eu acredito muito no amadurecimento. De tudo. Acho que a música só vai ficar pronta na medida que eu cantar, tocar ela, que uma coisa é eu tocar voz e violão, se tem algum outro músico junto, sempre vem alguma coisa, dá uma (outra) cara, porque o arranjo é uma roupa, né? Outra coisa que eu tenho feito é de tentar gravar a música, mesmo que seja voz e violão, pra ouvir, porque quando eu vou gravar é que eu percebo - "ah, essa frase não tá legal, ah, não tá fechando aqui a métrica", enfim, tu tens que fazer, sentir, conviver com aquela música, pra poder terminar. E o show acaba contribuindo nisso E isso também (ajuda) até na escolha do repertório (do CD), teve música que a gente apresentou e é como se ela não existisse, nunca ninguém comentou nada. Então isso é um sinal: ou ela não tá fechando no repertório, ou aquele arranjo no momento não é ainda (o melhor).

F - Dentro do circuito independente, tem poucos artistas que quando lançam o primeiro CD as pessoas podem pegar e dizer: "Que pena que não tem essa (música), não tem aquela..." Me chama a atenção "Água de Cheiro" não ter sido incluída, em função do título do CD - Fluida - ser uma palavra que consta nessa música.

K - Acho que a questão do título foi mais no início mesmo pra dar o nome do show, pra dar um mote pra coisa. Mas com o tempo foi se diluindo... (risos)

F - Foi fluidificando... (risos)

K - É, foi evaporando... (risos) Então lá pelas tantas, essa palavra na minha cabeça foi tendo outros sentidos. Não tanto essa coisa fixa da "Água". Até pode ver que a gente não teve um cenário, figurino, coisas concretas com água, nem tem esse lado ecológico - poderia ter, né?

F - Tem alguma coisa. "É o Peixe!"... Até "Pedalload".

K - É, se a gente for olhar até tem, mas não é uma coisa escancarada. Com o tempo entraram outras coisas, a própria "Cereja", "Na Subida do Morro", que não têm a ver com o tema. Mas a questão da "Água de Cheiro" foi isso: o Marcus, que é o produtor musical, achou que "Água de Cheiro" tava um pouco aquém, na questão do arranjo, ou até da composição, das outras músicas. Então acabou tirando. Eu, claro, tinha um carinho por ela, como por qualquer outra, gostava, mas é essa mesmo a função de qualquer produtor, entender o CD como um todo, sem ter carinho ou sentimento pelas músicas. Foi a opinião dele e eu respeitei, porque ele se propôs a fazer o trabalho. Mantive o agradecimento pro Luizinho Santos, que na gravação do meu CD demo fez o solo de flauta. No "Amado", eu tinha vontade de gravar com um grupo de choro. A Camerata Brasileira fez um arranjo maravilhoso, só que instrumental. A cantora não cabia ali dentro. Acho que é uma coisa que acontece, tanto que eu ouvi o arranjo, ensaiei com eles, e o Marcus achou que tava bem. Depois que eles gravaram foi que a gente se deu conta que era impossível. Era outra música. A gente até pensou em botar uma faixa bônus instrumental, mas aí era uma coisa tão diferente, talvez pra eles até nem interessasse, então ficou o agradecimento, porque eles foram superlegais e entenderam. Acho que é legal ter um diálogo, assim, ainda mais quando os dois tão crescendo, tão buscando coisas, né?

F - Geralmente as pessoas lançam o primeiro CD com um repertório que já vem trabalhando nos shows, então show e CD ficam muito parecidos - o que não quer dizer que não seja bom, mas enfim, não tem essa efervescência do teu trabalho.

K - Bom, na verdade isso não é nenhuma mágica, muito pelo contrário, muito trabalho, né... O que talvez assim seja um diferencial meu é que desde o início eu tracei um plano pra chegar aqui. Eu tive uma oportunidade de ter uma música gravada e arranjada pelo Arte nos Trilhos, um projeto da Trensurb com a Apcergs. Eram apresentações nas estações de trem, eu participei dois anos desse projeto e eles quiseram fazer um CD (2001). Só que eles queriam composições autorais, pra não ter que pagar direitos autorais, e até pra dar uma oportunidade. Eles me perguntaram: "Tu não tens composições tuas?" Aí eu na época dei o "Amado" e o "Moreno", outro samba. Então escolheram o "Moreno", fizeram um arranjo, aí fui lá e só cantei. Achei legal, uma boa oportunidade de poder gravar uma música minha e um estímulo pra pensar: "Por que eu não pego as minhas próprias músicas e arranjo, chamo alguns músicos..." Minha idéia era essa, montar um show, apresentar esse show, amadurecer, tornar (o projeto) conhecido. Porque eu vejo que muitas vezes a pessoa lança um CD mas nunca ninguém ouviu falar daquela pessoa, porque ela fez um show uma vez, se enfiou no estúdio e foi gravar e dali a 8 meses ela vem com um CD. Só que ela desapareceu naquele tempo. E a gente sabe que a mídia é ingrata nesse sentido. Hoje a gente vai no programa de TV, mês que vem mudou o produtor, ninguém mais sabe que tu foste lá um mês antes. Na verdade, fazendo isso ou não, é difícil a gente se colocar na cabeça das pessoas como uma nova cantora, nova compositora. A pessoa já tem lá na estante o artista que ela gosta, que tá toda hora na TV, no rádio, e eu vou ser mais uma e ainda uma novidade, com um monte de coisas novas.

F - Sim, tem que batalhar um espaço.

K - Não é assim que eu seja alguma coisa fora do comum, não. Eu tive esse cuidado e deu certo - poderia não ter funcionado, né? Então acho que a gente cresceu com isso e as pessoas se abriram pra essa nova idéia. E claro que essas pessoas comentaram com amigos, e aí um vai chamando o outro. Na verdade foi isso. O projeto Fluida incluiu tudo isso, desde o momento de juntar os músicos, fazer aquele primeiro show, uma temporada de 8 apresentações, 4 fins de semana, no Basttidores Bar (de 21 de março a 12 de abril de 2003, sextas e sábados), pra pegar esse pique, pra acostumar as pessoas... Quando a gente faz um show, sempre vai ter um monte de gente que não podia ir naquele dia, então a gente tem que dar opções. Eu pensei nisso. Aquela temporada foi estratégica pra nós, músicos. Foi uma idéia da gente aprender. Eram músicos com quem eu nunca tinha tocado, a gente também precisa de tempo pra se afinar. Esse plano, também, acho que tem mérito principalmente com a coisa da mídia. Tem muitas pessoas que nunca foram no show, mas sabem que eu existo. O trabalho do músico independente é assim - infelizmente, por um lado, porque a gente se desgasta muito, porque além de cuidar das músicas, toda a questão de produção, vender show, e tudo mais, tem que estar pensando nisso: "Bah, daqui a 1 ou 2 meses vou ter que fazer um show, né?. E vou ter que conseguir uma materiazinha no jornal, porque senão ninguém vai!". E aí tu tens que saber lidar também com essa questão da mídia, porque na verdade tu estás fazendo um trabalho que não é o teu. Claro que assim aos poucos eu tô conseguindo achar parceiros. É o caso da (jornalista) Luciana Vicente, que foi minha aluna, é minha amiga hoje e se ofereceu pra fazer esse trabalho junto à mídia que foi maravilhoso, porque ela soube limpar o texto que eu fiz, ligou pros jornalistas, me representou, né?

F - É, já era uma coisa que tu não precisavas estar fazendo pessoalmente.

K - Eu acho que o músico independente tem esse mérito de batalhar muito até conseguir um produtor, um empresário... Porque a gente é um em sei lá quantos milhões. Mas acho assim: eu decidi fazer isso, ninguém me obrigou, né? Eu não reclamo, muito pelo contrário, dou graças a Deus que esse CD tá aqui, que tem pessoas que tão curtindo, que tão procurando... Eu espero que esse CD agrade outras pessoas, possa me levar pra outros projetos, além dos planos dos outros CDs, que estão na gaveta. Idéias eu tenho muitas, músicas eu tenho muitas, mas minha produção é muito além do que eu posso fazer, dentro dos recursos e das condições que eu tenho. Então por um tempo eu tenho que me frear e ir à luta pra vender esse disco, enfim, ele é um produto que tem que ser vendido, não pode ficar parado, né? E aí tenho que ter uma visão de empresário, saber vender, produzir o material. Então tô na fase de inventar coisas pra promover esse produto, e esse trabalho não tem nada a ver com música. Mas eu tenho que fazer isso, porque eu não posso me dar ao luxo de pagar uma propaganda na TV. Vou ter que me mexer pra vender, inventar formas, e claro, buscar o diferencial, porque esse CD é diferente de tudo o que existe. Eu sei que eu tenho muito que aprender, mas eu acho assim: se tem pessoas que gostam, pessoas que vão no show, que compram o disco, é porque tem alguma coisa boa. Porque ninguém tem obrigação de fazer isso! (risos) O que eu vou buscar agora é ter uma outra visão, não ter só essa visão artística, mas também uma visão comercial, se eu quiser que o CD vá adiante. O trabalho tem um valor artístico e eu tenho que saber dizer isso, eu tenho que acreditar nisso e ter uma argumentação comercial. Claro, junto com isso, eu quero vender esse show de lançamento, que é uma oportunidade de estar ali divulgando o disco, antes até de eu mesma promover outros shows.

F - Fizeste três shows de lançamento e um coquetel. Nesse circuito de lançamento tu conseguiste atingir o que esperavas de resposta do público e exposição na mídia?

K - Acho que na mídia foi maravilhoso. Na verdade, não foi nenhuma mágica. Em todos os shows, eu fiz a mesma coisa que agora pra esse. Claro, nunca tive uma assessoria de imprensa. Mas acho que em termos de material foi o mesmo. A única coisa que teve foi a intervenção de uma pessoa do meio. E, claro, o mote de uma notícia. Além de divulgação específica, porque a gente não pode ficar contando que vai sair no jornal, tem que mandar e-mails, material... Eu acho que o que vale é muito isso, esse boca-a-boca. O público que vinha vindo nos shows, praticamente todas as pessoas que me apoiaram foram. Então achei que pessoas novas não teve muito. O mais legal foi rever pessoas, sabe, amigas da minha mãe, de anos, que nunca mais eu tinha visto... Minha mãe ligou pra todo mundo, teve uma caravana, ela ia até contratar uma van pra levar... Em termos de vendas, o Fluida foi o CD que mais vendeu na Livraria Cultura (Porto Alegre) em sessões de autógrafos. Vendeu o triplo da média. Então isso foi uma coisa que eu fiquei muito contente, né? Claro que a maioria - sei lá, 70% - das pessoas que compraram eram conhecidos, mas também tiveram algumas pessoas que ouviram falar, queriam muito mas não puderam ir no show, aí acabaram indo lá (no coquetel). Então foi muito legal. E aquela coisa, né, os shows deram muito mais trabalho, foi muito mais estressante, claro que foi superlegal fazer esses shows, mas o coquetel, pra mim, acho que foi o que teve mais sucesso, fora, claro, a questão do glamour. A Livraria Cultura hoje tem um destaque, é muito legal que eles te dão a oportunidade de o teu CD estar à disposição do público deles.

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