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MARISA ROTENBERG: A ARTE-FINAL DA NOVA MPB

Por Fabio Gomes

 

A cantora fala do CD Na Batida e das parcerias com Nei Lisboa e Mônica Tomasi

Entrevista gravada em 2 de outubro de 2003 no Bourbon Shopping Country (Porto Alegre)

BRASILERINHO - Marisa Rotenberg, teu CD Na Batida completou em setembro um ano de lançamento. Quais são os planos imediatos e futuros na tua carreira?

MARISA ROTENBERG - Estou absolutamente feliz com este um ano de carreira do meu CD. Tive a felicidade de ganhar dois prêmios Açorianos este ano, melhor CD de MPB e melhor espetáculo. O disco independente tem um processo bem mais lento de as coisas acontecerem, até por falta de verba. Meu disco foi financiado pelo Fumproarte. A gente, quando cria esses projetos, planeja a produção do CD e o show de lançamento. Só que não se fez até hoje um Fumproarte pra administração da carreira desse trabalho. Antigamente se dizia: "Pô, é difícil gravar um disco". Hoje não, (se) tu faz um bom projeto, tu faz um disco. Só que, hoje, que que se diz? Hoje é difícil se levar um disco adiante.

B - Bom, a questão então seria: gravei e lancei o CD, e agora? Como vou divulgá-lo? Como vou vendê-lo?

M - As viagens que eu fiz pro interior foram todas participando de Feiras do Livro, que são oportunidades que a gente tem de poder ter um transporte, um cachê para realizar o espetáculo. É difícil tu planejar uma turnê pelo interior do Estado por bilheteria. As rádios vão começando a tocar porque gostam do teu trabalho - as rádios que não têm jabá. Rádios que têm jabá é inviável, absolutamente inviável tu rodar. Eu não posso me queixar de mídia, porque aqui em Porto Alegre eu rodo direto na FM Cultura e na 102.3 - (antiga) Gaúcha FM. Tô rodando também desde que lancei meu disco na Itapema FM, uma das melhores FMs de Florianópolis (SC). Enfim, as rádios que não têm jabá e que acreditam verdadeiramente na qualidade artística do trabalho, elas rodam. Pelas rádios do interior isso também não é muito diferente, têm as que cobram jabá e outras que não cobram. Nessas que não cobram tu tem a oportunidade de mandar o disco, os caras começarem a rodar e aí tu chegar lá e alguém já ouviu falar em ti, né? Minha idéia é nesse ano, na medida do possível, me colocar como artista dentro da minha cidade, fazer meu nome em Porto Alegre e no interior do Estado. Agora pra 2004, eu tenho planos de levar meu trabalho pro Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Belo Horizonte... Ah, inclusive Belo Horizonte a gente mandou material e já está rodando em algumas rádios de lá, dei entrevista recentemente na rádio Mania de MPB. Eu fico muito feliz porque o trabalho é reconhecido, ele não passa despercebido na mão das pessoas. Quando chega e as pessoas ouvem, vêem que é um trabalho de qualidade, pela própria produção do Totonho Villeroy, que é um músico e compositor de primeira linha. É um cara que tá extremamente bem relacionado em todo o Brasil com diversos compositores. Graças a ele eu cheguei a composições inéditas do Pedro Luís ("Um Desejo Só"), do Lenine, do Dudu Falcão ("Lua de Dezembro"). Tive oportunidade de conhecer pessoalmente essas pessoas, são pessoas geniais, incríveis mesmo! O próprio convívio com Totonho, já enraizado no Rio de Janeiro, com todas essas pessoas, pra mim gerou um crescimento profissional maravilhoso, de não ser "mais uma" cantora independente, e sim uma cantora produzida pelo Totonho, que canta Lenine inédito ("Tá Tudo Bem, parceria com Dudu Falcão), que canta Pedro Luís inédito. Esse ano pra mim foi muito gratificante também a parceria que tenho feito com a cantora e compositora Mônica Tomasi. Eu já conhecia ela de nome, não conhecia pessoalmente. Em (9 e 10 de) abril, quando fiz o show de comemoração aos dois prêmios no Abbey Road (Studio Pub), ela compareceu, se identificou com o meu trabalho e a gente ficou de conversar. Ela me convidou pra participar do show Varal, que ela fez no Teatro de Arena (1 a 3 de agosto de 2003) e ficou uma delícia. As vozes timbram, a gente tem o mesmo gosto por música brasileira, os (nossos) estilos soam muito parecidos. Eu acho a coisa mais legal que tem (é) tu te juntar às pessoas bacanas e fazer um trabalho junto, né? Não ficar aquela coisa de concorrência. Se existe uma identificação, tanto de vida quanto de gosto musical, eu acho mais é que a gente tem que dar as mãos, um falar bem do outro e o público identificar isso, reconhecer isso, valorizar isso e consumir a nossa música.

B - Eu assisti a apresentação da Mônica Tomasi na Casa de Cultura (Mário Quintana, 30 de setembro de 2003) e, realmente, ela trabalha bastante com o samba e também tem uma raiz pop. Isso a gente identifica também no teu trabalho. Inclusive o teu CD, ele é quase dividido em blocos, ele abre com um bloco de música pop, depois tem um bloco mais MPB e no final vai alternando um pouquinho. Isso é uma coisa proposital ou é o natural da tua trajetória? Como tu te sentiu quando teu CD recebeu o prêmio de melhor disco de MPB? Ele não é um disco apenas de MPB. Ou é, na tua visão?

M - Eu classificaria hoje (como) a nova MPB. Se a gente for classificar MPB clássica, eu colocaria Chico Buarque, Milton Nascimento, Elis Regina, João Bosco, João Gilberto, Gilberto Gil, esse povo todo dessa geração, esses grandes talentos como a nata da MPB, a MPB clássica. Eu posso dizer que a minha música se encaixa na nova MPB, que é a MPB que o Lenine faz, que o Zeca Baleiro faz, esse pessoal da nova geração que mistura a MPB com o pop. Seria um MPopB, porque eu não posso dizer que meu CD é puramente pop ou puramente MPB. Ele é a nova MPB. Por isso essa leitura que às vezes te soa mais pop, às vezes te soa mais MPB, acho que isso aí é a cara da nova MPB.

B - A inclusão de músicas do Lenine, Dudu Falcão, Eugênio Dale ("De Perto" e "Lápis") e outros compositores, digamos, não-gaúchos, se deu ao natural pelo fato de estares trabalhando com o Totonho Villeroy ou foi uma idéia tua? Porque é muito comum os artistas gaúchos gravarem apenas autores gaúchos no primeiro CD...

M - Isso se deve muito à minha admiração por esses compositores. Eu não escondo nem um pouco a minha origem, eu sou porto-alegrense nata, mas eu sou também brasileira. Desde o início, quando me reuni com o Totonho, eu disse: "Olha, Totonho, eu não quero que as pessoas saiam dizendo que é um CD de cantora 'gaúcha', eu quero que as pessoas digam que é um CD de uma cantora brasileira que nasceu em Porto Alegre". Eu não quero carregar a bandeira do Rio Grande do Sul pelo mundo afora. Eu carrego no sentido de dizer de onde eu sou, mas eu quero fazer da minha música uma música brasileira, uma música pro Brasil e pro mundo curtir. Nesse disco também tem duas parcerias minhas como compositora, eu ainda iniciei nesse primeiro disco meio tímida, eu tô experimentando o meu jeito de compor. Eu acabei explorando mais a Marisa intérprete do que a compositora. Eu pretendo no meu próximo disco inverter a coisa, puxar mais a Marisa compositora e cantar menos outros autores.

B - Nas tuas parcerias, uma com o Gelson Oliveira ("Teu Silêncio não é Mudo"), a outra com o Totonho Villeroy ("F. Valentine's Day"), tu fizeste a música, a letra, foi meio a meio, como é que foi?

M - Nessas canções eu fiz a letra. No caso da música com Totonho, eu fiz uma parceria com a letra também, ele fez a música e toda a idéia da música é dele. Eu entrei com sugestões de letra pra finalizar a canção, digamos que eu fiz o acabamento da música na parte da letra.

B - A arte-final.

M - A arte-final, exatamente. No caso da parceria com o Gelson, não, eu fiz a letra toda e o Gelson musicou a canção.

B - Gostaríamos que tu falasse um pouco da tua colaboração com o Nei Lisboa. Tem música dele ("Por Aí") no Na Batida, ele participa cantando junto contigo (em "F. Valentine's Day")... mas essa história já tem alguns anos de parceria, não é uma coisa de agora.

M - Teve um show da banda Venerável (Venerável Lama), do Alex Alano e do Fausto Prado, que eu participei, lá no Ocidente (12 de abril de 2000). Fui dar uma canja junto com eles e fui apresentada pessoalmente pro Nei Lisboa por uma amiga minha e ele disse que já tinha escutado falar de mim, que tava louco pra conhecer meu trabalho e coisa e tal. Depois desse show, em abril de 2000, se fez uma festa-ato no Zelig para angariar fundos pra ajudar um jornalista da Zero Hora que sofreu um acidente super-sério e tava tendo uma despesa enorme com hospital. E nesse show eu me encontrei com o Nei e ele chegou e me disse:

- Eu vou subir no palco agora, vou cantar. Tu sabe alguma música minha de cor?

- Ah, eu sei, eu sei "Rima Rica, Frase Feita".

- Vamos fazer?

- Vamos.

Nem ensaiamos nada. No palco, tava o Paulinho Fagundes, o guitarrista Paulinho Superkóvia, não me lembro se tinha mais um baixista também tocando, o Nei, e aí tá, eles começaram a cantar algumas músicas e aí o Nei me chamou pra cantar "Rima Rica, Frase Feita e foi um arraso. Fui ovacionada lá no Zelig, foi muito legal! O Nei se arrepiou, quando a gente desceu do palco ele disse: "Meu Deus, que maravilha, vamos conversar, vamos conversar!". Em setembro de 2000, fui convidada pra cantar na (Sala) Radamés Gnattali (no Auditório Araújo Vianna) e o embrião do Na Batida surgiu com (esse) show. Eu pensei: "Bah, agora tá na hora de eu começar a experimentar músicas inéditas de outros compositores pra sair meu disco." É o conceito, só músicas inéditas. Então eu tive a felicidade de ganhar as músicas do Fausto Prado ("Vaso de Flor"), Alex Alano ("O Amor não Erra"), tinha feito uma parceria com o Gelson, e eu pedi pro Nei Lisboa uma música inédita. Na época ele tava compondo (as músicas do CD) Cena Beatnik e me apresentou: "Olha, eu tenho 4 músicas que eu fiz aqui, eu quero que tu escolha uma delas, é tua". Quando eu ouvi "Por Aí" eu me apaixonei de cara pela letra, pela melodia, por tudo, foi uma música que me tocou demais, disse "Quero essa aqui". Aí em outubro de 2000, o Nei Lisboa fez o primeiro show de Cena Beatnik, antes de lançar o disco, ele começou a apresentar as músicas. Aí ele me disse:

- Olha, vou fazer uma temporada no (Theatro) São Pedro, tu não quer cantar "Por Aí" e "Rima Rica, Frase Feita"?

- Pô! Com certeza!

Então pra mim foi uma super-honra participar das quatro noites (5 a 8 de outubro de 2000). Também fui ovacionada no Theatro São Pedro! Muito, muito emocionante, porque eu tava cantando pro público do Nei, e eu me vi naquela platéia, porque eu também sou fã do Nei. Então foi um encontro de emoção e de alegria. Até o Renato Mendonça (jornalista de Zero Hora) elogiou, publicou que uma das coisas mais legais do show era a minha participação. O Nei fez uma nova temporada em (8 a 10 de) fevereiro de 2001 e me chamou de novo. Foi legal. Fiz também com ele show em Novo Hamburgo, quer dizer, ele começou a botar meu nome na roda, através do trabalho dele. Até que em 2001, no primeiro semestre, ele gravou (o CD) Cena Beatnik. Aí ele me disse:

- Olha, tu me desculpa, vou gravar a canção ("Por Aí").

- Não, não tem problema, mas eu também vou gravar essa canção!

Eu ganhei o Fumproarte no meio do ano, em agosto de 2001, e ele já tinha lançado o Cena Beatnik em junho. Então, na real, "Por Aí" é a única canção que não era inédita, só que acabou ficando uma nova leitura, completamente diferente. A gente selou uma amizade muito legal, eu e o Nei.

B - Então aí tu convidaste o Nei pra fazer uma participação vocal no Na Batida.

M - É, exatamente, já que ele me deu esse presente de participar de 2 temporadas do Cena Beatnik, eu convidei ele pra cantar no CD, ele prontamente aceitou e não só aceitou gravar a canção como também fez o show de lançamento do CD comigo, ele também cantou essa música lá no Theatro São Pedro.

B - Além de cantora e compositora, tu também tens um envolvimento com o teatro bastante forte, inclusive atualmente com o projeto do Theatro do Abelardo. Gostaria que tu falasses sobre isso.

M - Antes de me dedicar à carreira de cantora, eu desenvolvi uma carreira no teatro, como atriz. O último trabalho adulto que eu fiz foi um musical. Fiz a Jacobina (na peça) Jacobina, Uma Balada para o Cristo Mulher, com direção do Camilo de Lélis. Fiz muitos espetáculos infantis também com o Zé Adão Barbosa. Hoje eu tenho uma produtora, sou associada ao Alexandre Fávero, diretor do espetáculo Saci Pererê, A Lenda da Meia-Noite, que é um espetáculo de teatro de sombras. A gente tem a Carta Zero Produtora de Arte, há 7 anos, com foco pra teatro pra empresas. Eu sou associada agora (também) ao Mário de Balenti, diretor do Theatro do Abelardo e do espetáculo O Cavaleiro da Mão de Fogo, que tá em cartaz no Bourbon Shopping Country no 2º piso. É um espetáculo de marionetes de fio e sombras no qual eu também tenho uma participação artística. Eu faço a voz da princesa Tranças de Ouro e canto dois solos da trilha musical composta pelo Celau Moreira.

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