Brasileirinho - PrincipalVoltar ao Menu

ROBERTO PORCHER E FERNANDA RAMOS

Por Fabio Gomes

 

Os vencedores do 6º Festival de Música de Porto Alegre, integrantes da banda Viramundel, falam da vitória e de sua carreira.

Entrevista realizada em 12 de dezembro de 2003

BRASILEIRINHO - Roberto, como tu começaste a compor?

ROBERTO PORCHER - Eu me lembro que eu tava no 3º ano do 2º grau. Eu tinha um amigo que trabalhava no colégio (Santa Rosa de Lima), era porteiro, e ele chegou, bateu na minha porta e disse: "Pô, cara, taí, tá pintando um festival novo, é o Festival de Porto Alegre, vamos escrever uma música, tem um prêmio legal, de repente a gente consegue divulgação". E eu: "Tá, mas eu nunca compus, como é que nós vamos fazer isso?" E ele: "Não, é fácil, tu vai ver, tu toca teclado tribem" - ele tocava trumpete - "vamos fazer uma letra e vamos mandar". E eu: "Tá", aí eu entrei nas pilhas dele, né? Nos juntamos, fizemos uma letra. Depois ele não teve mais muito tempo, eu dei uma melhorada na letra sozinho. Eu comecei a pegar gosto pela coisa, né? Eu escrevia e mudava: "ah, isso aqui não ficou bom, vamos botar outra coisa". Aí depois nós gravamos a música com a ajuda de uns amigos, que eram professores de música no colégio e mandamos pro Festival. Não classificou mas a alegria de ter gravado uma música minha foi muito grande. Então isso com certeza deu um empurrão inicial pra mim começar a compor e começar com essas histórias de banda, porque eu tocava teclado, estudava teclado, mas era eu sozinho no meu quarto. Isso me abriu uma janela pro mundo. Eu comecei (a pensar): "Vamos montar uma banda, vamos compor, vai ter o Festival no ano que vem de novo". O início da minha carreira de compositor foi através do 1º Festival de Música (de Porto Alegre, em 1998).

BRASILEIRINHO - Depois teve um momento marcante, no 4º Festival (em 2001), que tu participavas da banda Daniel e a Cova dos Leões.

ROBERTO - Isso aí. O Daniel (Hoeltz), excelente compositor, tem várias músicas boas. Ele já vinha fazendo um trabalho de arranjo das músicas dele pro Festival, passou pra 2ª fase, ele e mais dois colegas meus, o César Queirós e o Titeu Moraes. Os dois tavam acompanhando ele no violão e quando ele passou pra final, aí pintou o convite: "Vamos engordar a música, vamos fazer um arranjo mais elaborado pra impressionar na final". Me chamaram, curiosamente pra tocar violão, porque até então eu dominava mais o teclado. Preparamos a música, eu achei muito interessante porque ele fazia uma mistura de capoeira com pandeiro e ele usava os violões de uma forma percussiva. Isso acho que foi muito importante também no nosso arranjo, a gente abafava as cordas e fazia percussão no violão. Então eu acho que me acrescentou muito aquela experiência, porque me deixou assim: "Bah, eu ganhei! Mas eu não sou o compositor. Mas eu ganhei também! Afinal, o que que é isso? Não, mas eu quero ganhar como compositor, né?" Aí no Festival passado (5º Festival, 2002), eu já me juntei com a Fernanda Ramos, a gente fez algumas músicas, e ela classificou duas músicas só dela. Normalmente é uma só que passa. Mandamos as duas e não conseguimos nos classificar. Pôxa, eu tinha ganho como músico no Festival passado, aí no 5º Festival a gente chegou quase na última fase assim com duas músicas, e eu: "Não, não é possível, neste (6º Festival) vai ter que dar!" Então a gente se juntou, fez essa música ("Minha Parte") em parceria. Juntou as energias dos dois e mandamos ver, aí deu certo! (risos)

BRASILEIRINHO - Fernanda, queria que tu falasse de como é que tu começaste a compor.

FERNANDA RAMOS - A minha história com a música vem desde criança. Eu fazia coral na escola, daí um tempo eu parei, voltei a cantar em barzinho, com uns amigos da minha mãe. Eu era bem novinha e eles já eram músicos profissionais, mas sempre (atuei) como intérprete. Quando eu conheci o Roberto, ele até me incentivou: "Vamos compor junto, vamos ver o que que dá". E eu gostava muito de escrever poemas. Então eu comecei a pegar os meus poemas e dar um outro formato pra eles, formato de música, o Roberto colocava as melodias pra mim, às vezes... Aí a gente começou. A gente teve uma química legal pra trabalhar com composição, por gostar dos mesmos estilos de música, ter as mesmas preferências musicais. O ano passado foi onde a gente mais compôs junto e trabalhou junto, tanto que eu classifiquei duas músicas minhas (no Festival) e chamei o Roberto pra gente montar uma banda praquela etapa. Apesar da gente não ter classificado pra final, foi quando a gente viu que a gente dava certo. A gente montou a Viramundel e a partir dali, de um ano pra cá, a gente trabalhou junto e eu sempre digo que o trabalho aparece quando o trabalhador tá pronto, né? Eu acho que o Festival do ano passado serviu pra gente ver que a gente tinha capacidade, que a gente gostava do que a gente fazia, a gente se dava bem trabalhando juntos, não só eu e o Roberto como toda a Viramundel, e de um ano pra cá a gente veio se esforçando bastante nos arranjos das outras músicas próprias que a gente tem. Quando surgiu essa oportunidade de ir pra final do Festival foi muito bom, a gente fez um arranjo aí com a cara do Festival, aquilo que a gente achava que seria necessário pra ter o diferencial num festival de música. Tanto que essa música difere um pouquinho do estilo próprio das outras músicas da banda. E foi, aconteceu, uma alegria enorme, depois de anos, o Roberto que vem desde o 1º Festival, eu venho desde o 5º, é fantástico no 6º Festival tu poder dizer: "Conseguimos!".

BRASILEIRINHO - Qual é o estilo predominante das músicas que vocês fazem e são interpretadas pela banda Viramundel?

ROBERTO - Olha, o estilo predominante é a mistura dos estilos, eu acho! (risos)

FERNANDA - Ah, o predominante é pop.

ROBERTO - É pop, com certeza. É uma música com apelo popular. Uma música que não é pra ti tocar pra músicos ouvirem, tá, que o pessoal costuma fazer isso. Não é experimentalismo direto, apesar de eu ter como ídolo o Hermeto Paschoal, entendeu, eu não busco aquela escola, completamente. Eu busco uma música popular, que vai tocar no rádio, a pessoa vai ouvir, vai gostar...

FERNANDA - A gente pega aquela fórmula que a gente tem uma idéia que vai ter uma boa repercussão pra quem tá ouvindo e não entende de música. A gente pega aquela fórmula e coloca um elemento aqui, um elemento ali, diferente daquele padrão, daquele pacote que tá na grande mídia. Alguma coisa a gente tenta inovar de uma forma bem... não como o mestre Hermeto, né (risos), a gente vem muito mais suave. A gente tenta dar um toque diferencial, mas dentro do formato pop.

ROBERTO - Até porque eu acho que, além dessa coisa, desse cuidado com os arranjos, de fugir um pouco do jargão as próprias letras, as composições, eu vejo algo de muito especial assim, não só nas minhas, mas principalmente as do Felipe Vargas, que é o outro compositor da banda. Ele, não sei se tem que ver com o que ele faz, que ele faz Psicologia, mas ele traz todo um outro lado de ver o mundo, usando figuras de linguagem, e eu acho que isso aí traz uma dimensão pra banda que tu não encontra em qualquer banda, né? É algo que a pessoa tá escutando a música, tá vendo a cena, mais ou menos isso.

BRASILEIRINHO - É uma coisa interessante também que tenha mais de uma pessoa compondo na banda, porque muitas bandas são extensões da personalidade do vocalista-compositor-guitarrista, que é a pessoa que acaba concentrando todas as atenções. É legal que existam bandas assim em que, digamos, o poder é repartido mais democraticamente.

ROBERTO - Não, com certeza, é uma preocupação a gente não ter cada um a sua função. Todo mundo trabalha junto, decide junto as coisas, tanto é que eu toco teclado e violão; a Fernanda canta e toca teclado; o Felipe toca...

FERNANDA - Guitarra.

ROBERTO - Violão, guitarra e canta; aí o Daniel, ele toca bateria, percussão, faz uns backing vocals; o Leonardo, que é baixista também, manda guitarra, então a gente tenta fazer essas misturas, pra não deixar padrão. Todo mundo é Viramundel.

FERNANDA - É, nós temos 3 compositores 5 arranjadores. Na hora de arranjar todos participam. Então acho que isso ajuda também a ter aquele pouquinho de hibridismo, que o Felipe tanto gosta dessa palavra, a banda híbrida.

BRASILEIRINHO - E a banda híbrida tá com planos pós-festival, já pensando em 2004?

ROBERTO - Bah! Eu costumo comentar e brincar com o pessoal assim: "Será que nós vamos entrar no Festival 2004?" Que eu tenho dúvidas se eu tiver lá, por acaso, na final, se eu vou ganhar o prêmio duas vezes consecutivas. Então a gente tá pensando em focar outros lances agora, tentar fazer mais uma estratégia de divulgação, buscando outros espaços. Vamos nos informar que que precisa pra concorrer ao Açorianos, vamos trabalhar shows em teatro. Agora a gente tá com contato com uma produtora que gostou da banda, tá investindo um monte, então a gente vai buscar um selo pra gravar um CD. São projetos mais externos, mas nunca deixando de lado o pessoal do Festival. Até por eu ter participado da história do 4º Festival com o Daniel Hoeltz, eu tô em contato com ele direto, a gente quer movimentar aí o pessoal da Prefeitura e dos festivais. A gente tá até combinando de os seis vencedores que tiveram até agora formarem uma equipe legal. Vamos agitar, vamos tentar fazer shows dos vencedores, vamos dar um suporte pra quem constrói o festival, de repente dar idéias. A gente que já ganhou tem várias opiniões pra passar que podem melhorar o formato, né?

FERNANDA - O Festival, a gente acha que é uma boa porta de entrada, principalmente pra quem ainda não teve oportunidade de mostrar o seu trabalho. Então acho que quem já conseguiu chegar, ser vencedor do Festival, tem que se unir e dar suporte pras novas produções que vão vir. Roberto falou dos nossos projetos a médio prazo, a longo prazo. A curto prazo, eu diria que é a gente estar na rua fazendo show pra ter contato com o público, porque é o que move a gente, né?

BRASILEIRINHO - E esses projetos a curto, médio e longo prazo da Viramundel são compatíveis com a tua continuidade n'A Falha de Santo André?

ROBERTO - Com certeza (risos). Assim, ó: eu tenho mais 4 bandas além da Viramundel. Eu, às vezes, acordo e penso: "Quem sou eu? Como é que eu faço tanta coisa?" Porque eu tenho uma rotina muito louca, cara, eu dou aula todos os dias de manhã, entende, eu tenho aula todos os dias de tarde na faculdade, eu faço Direito, tem aulas particulares que eu dou de noite e daí sobram ainda algumas noites pra trabalhar com mais 4 bandas além da Viramundel, pra namorar (risos), pra descansar e pra estudar pras provas da faculdade. Então, às vezes, tem épocas do ano que o pessoal me liga, não posso falar, porque é uma loucura. Mas com certeza, cara, a gente tenta dar o melhor em cada espaço que a gente tá ocupando. Então eu, com o Jorge Herrmann, o pessoal d'A Falha de Santo André, tenho um compromisso de compor junto, de arranjar as músicas, de fazer todo um trabalho de teatro. É uma banda (que) tem um som bem do Sul. Nós usamos tambores, coisas tribais. O Jorge tem uma forte escola do minimalismo, ele usa poucos elementos, sons mântricos, assim, de absorver toda a atmosfera do ambiente e eu acho isso muito legal. Não pretendo largar a Falha - a menos que nós façamos muito sucesso (risos). Se a gente virar um Titãs da vida, bom, aí eu consigo um tecladista até melhor que eu pra eles, e eu vou fazer meu sucesso, mas por enquanto vamos tentar conciliar tudo, né?

BRASILEIRINHO - Roberto, um dos integrantes atuais da Viramundel, o Felipe, ele já é um parceiro teu de mais tempo, né?

ROBERTO - É, o Felipe... eu falei antes que eu tive um conhecido que me propulsionou a começar a compor, e teve os conhecidos que me propulsionaram a começar a tocar com banda. Foi na mesma época, do 1º Festival também. E um deles foi o Felipe. A gente estudou no mesmo colégio. Resolvemos montar uma banda ali de ex-alunos do colégio, alguns ainda estudavam ali. Essa banda foi coordenada pelo Clóvis, que era o professor de música. A gente teve essa banda por um longo período, mais de 3 anos de coisas boas e coisas ruins acontecendo, e essa convivência ajudou muito no que é hoje a Viramundel, a gente passou a se conhecer, porque pra ti ter um colega de profissão tu não pode só: "bom dia", "vamos trabalhar", "tchau". É uma coisa que acaba envolvendo um pouco mais. O Felipe se tornou um parceiro tanto nas horas em cima do palco quanto fora do palco, então acho que com certeza tudo que a gente acumula de experiência na vida vai nos ajudar algum dia.

Copyright © 2003. É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo do Brasileirinho para fins comerciais