Brasileirinho - Noel Rosa - O Barbeiro de Niteroi

Brasileirinho - PrincipalVoltar ao Menu

 

O Barbeiro de Niterói
(versão conservada por Almirante)

1º ato

Dom Bartolo, português rico, dono de uma casa de secos e molhados. Quer casar com Rosina (mulata), sua pupila. Rosina foi vista em Niterói, pelo bicheiro Alma Viva, quando era perseguido pela polícia. Para despistar a Central, mudou de cara e de nome. Passou a ser Lindoro, o Empresário. Lindoro, influenciado por Fígaro, canta na porta da Rosina:

Condeno o teu nervoso
Que não tem razão de ser
Sou bom e generoso
E a prova disso hás de ter
No meu torrão natal
Me chamam de herói
Já tenho capital
E brevemente compro Niterói...
Condeno o teu nervoso
Que não tem razão de ser
Sou bom e generoso
E a prova disso hás de ter
Condeno o cinema
Que é mau conselheiro
E não é o meu sistema
Esbanjar dinheiro.


2º Ato

Rosina escreve a Lindoro um bilhete, que será entregue por Fígaro. Fígaro previne Rosina de que Lindoro irá visitá-la. Há uma cena de ciúmes entre Dom Bartolo e Rosina. Dom Basílio, professor de canto de Rosina, avisa a Dom Bartolo que o bicheiro Alma Viva está em Niterói. Alma Viva, disfarçado em Empresário, exibe sua carteira profissional e consegue falar com Rosina. Dom Bartolo, que é sócio benemérito do Centro Dramático, desconfia da identidade de Lindoro, quando este entrega um bilhete a Rosina. Há barulho, mas Lindoro faz-se reconhecer pelo Diretor do Centro.

Envio estas mal traçadas linhas
Que escrevi a lápis
Por não ter caneta,
Andas perseguido
Para que escapes
Corta o teu cabelo e põe barba preta.

Notícias tuas não encontrei
Em vão te procurei,
Mas ontem te encontrei
E este bilhete no "Fígaro" encontrei,
Sem mais para acabar
Recebe o beijo eu que vou mandar.
Eu amo... Com amor não brinco!
Niterói, 30 de outubro de 35.

3º Ato

O bicheiro Alma Viva, disfarçado em Lindoro, o Empresário, procura Dom Bartolo, dizendo-se enviado de Basílio, professor de canto. Bartolo quer que ele dê uma lição de canto a sua pupila. Esta recusa, a princípio, mas depois canta a ária "Precaução Inútil". Fígaro chega para fazer a barba de Dom Bartolo e rouba a chave que abre a porta da varanda. Surge Basílio, que não estava doente, conforme Lindoro dissera. Fígaro e Lindoro convencem Basílio de que ele está febril e despacham-no depressa. Dom Bartolo surpreende os projetos de rapto entre Alma Viva e Rosina.

Eu vi num armazém de Niterói
Um velho que se julga herói
E teima em ser conquistador
Lá no Banco do Brasil
Depositou mais de três mil
Botando água no vinho do barril
Seus lábios só se abriram pra falar,
Das velhas contas a cobrar
Dos que morreram sem pagar...
Eram lábios agressores,
Dois grandes cobradores
Dos seus devedores.

Seu cabelo tinha a cor
De burro quando foge
Do amansador
Seus olhos eram circunflexos,
Perplexos e desconexos,
Mãos de usurário
Braços de sicário,
Corpo de macaco chipanzé maduro
Enfim eu vi nesse velhote
Um imortal Pão Duro.

4º Ato

O rapto está marcado para meia-noite. Tempestade. Basílio vai buscar o Padre para casar Rosina com Dom Bartolo. Bartolo faz uma trancinha entre Rosina e Lindoro. Rosina iludida aceita Bartolo como esposo. Fígaro e Alma Viva entram pela janela; acalmam Rosina e provam que Lindoro, o Empresário, é o bicheiro Alma Viva. Chega Basílio com o Padre, que casa Rosina com Alma Viva. Fígaro, vendo Bartolo desanimado, diz filosofando:

- "Quando a juventude e o amor estão de acordo para enganar um velho, tudo que este fizer para impedir, deve-se chamar 'Precaução Inútil'".