Brasileirinho - Noel Rosa - O Barbeiro de Niteroi

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O Barbeiro de Niterói
(versão publicada por J. Máximo e C. Didier)

1º ato

Overture

Rosina: Dom Bartolo! Já estou cansada de aturar o senhor e sua casa de secos e molhados!

Dom Bartolo: Calma, Rosina! Estás nervosa hoje, meu benzinho?

Rosina: Sim, senhor! Estou nervosa e o senhor sabe por quê.

Dom Bartolo: Por quê?

Rosina: Então o senhor não sabe que minha neurastenia é causada pelo excesso de trabalho e pela falta de distração? Eu trabalho mais que uma escrava e me divirto menos que uma freira. O senhor nunca me deu mil e cem réis para um cinema!

Dom Bartolo: (canta Condeno o Teu Nervoso)

Condeno o teu nervoso
Que não tem razão de ser
Sou bom e generoso
E a prova disso hás de ter
No meu torrão natal
Me chamam de herói
Já tenho capital
E brevemente compro Niterói...
Condeno o teu nervoso
Que não tem razão de ser
Sou bom e generoso
E a prova disso hás de ter
Condeno o cinema
Que é mau conselheiro
E não é o meu sistema
Esbanjar dinheiro.

(Batem à porta)

Polícia: Abra em nome da Lei!

Dom Bartolo: Ah! É a polícia! Pode entrar! Eu sou negociante honesto.

Polícia: Nós estamos procurando o bicheiro Alma Viva e... parece que ele entrou aqui!

Dom Bartolo: Viste o Alma Viva, Rosina?

Rosina: Se o senhor não viu, muito menos eu! A última vez que o vi foi anteontem, quando entreguei a lista que o senhor mandou.

Polícia: Até logo! Se o senhor encontrar esse bicheiro telefone para o distrito.

Dom Bartolo: Está bem!

(Barulho de porta que se fecha)

Rosina: Boa-noite, Dom Bartolo! Já são horas de dormir!

Dom Bartolo: Boa noite, Rosina, e... não se esqueça de levantar mais cedo para conferir a caixa antes do armazém abrir.

(Na rua)

Alma Viva: Ó, Fígaro! Como vais?

Fígaro: Alma Viva!? A polícia anda à tua procura. Tem cuidado! Todos os meus fregueses da barbearia já sabem que estás em Niterói!

Alma Viva: Agora, eu mudei de nome e me chamo Lindoro, o empresário. Vou pôr um bigode postiço e raspar o cabelo. Ficarei horrível e irreconhecível.

Fígaro: Soube que estás apaixonado pela Rosina. É verdade?

Alma Viva: É. E quero que me auxilies.

Fígaro: Por que não cantas agora debaixo de sua janela? Aqui está o meu violão! Rosina é louca por uma serenata.

Alma Viva: É esta a janela?

Fígaro: É! Pode começar!

Alma Viva: (dá uns acordes no violão e canta)

Ordena, fala, insinua,
Dize o que queres de mim,
Jardineiro...

Dom Bartolo: Ó, seu jardineiro! Vá cantar no jardim zoológico! Eu trabalhei o dia inteiro e... você não me deixa dormir.

Alma Viva: A serenata não é para o senhor!

Dom Bartolo: Que não é para mim eu bem sei! Você pensa que Rosina se deixa iludir com cantigas?

Alma Viva: O senhor está fazendo mais barulho do que eu e... daqui a pouco o guarda municipal nos vem meter o pau!

Dom Bartolo: Eu faço barulho porque estou na minha casa e... ninguém me prende. Você é que vai preso!

(Apitos, gritaria)

Fim do 1º ato.

2º ato

Rosina: Fígaro! Eu preciso que você me faça um favor!

Fígaro: Com muito prazer, dona Rosina! O que manda?

Rosina: Queria que você entregasse este bilhete ao Alma Viva. Mas... não deixe dom Bartolo perceber!

Fígaro: Já adivinhei o que a senhora escreveu no bilhete! Naturalmente, não gostou da serenata e pede para que ele não a procure mais! Não é isso?

Rosina: Nada disso! Eu vou ler para você ouvir... (canta Envio Estas Mal Traçadas Linhas)

Envio estas mal traçadas linhas
Que escrevi a lápis
Por não ter caneta,
Andas perseguido
Para que escapes
Corta teu cabelo e põe barba preta.

Em vão te procurei,
Notícias tuas não encontrei
Mas, ontem, te escutei
E este bilhete ao Fígaro entreguei,
Sem mais, para acabar
Recebe o beijo eu que vou mandar.
Eu amo... Com o amor não brinco!
Niterói, 30 de outubro de 35.

Fígaro: Muito bem, dona Rosina! Aí vem dom Bartolo! Até logo!

Rosina: Até logo, Fígaro, e... obrigada!

Dom Bartolo: O que é isso, Rosina?

Rosina: Nada!

Dom Bartolo: Não mintas! Entregaste um bilhete ao barbeiro! Para quem? Responde, Rosina!

Rosina: (gaguejando) O... o... bilhete que eu mandei foi... foi para o sapateiro.

Dom Bartolo: Sapateiro!

Rosina: Sim, senhor! O sapateiro está demorando a mandar os meus sapatos!

Dom Bartolo: Não mintas, Rosina. Já me disseram que tu gostas de um tal Lindoro, empresário!

Rosina: (rindo) Quá! Quá! Quá! Que gente mentirosa...

Dom Bartolo: Rosina! Tu és muito mais moça do que eu. Mas...

Rosina: Mas... o quê?

Dom Bartolo: Eu sou o único homem que pode te fazer feliz. Tenho prédios... dinheiro no banco...

Rosina: Seu dinheiro não me interessa.

Dom Bartolo: Se o meu dinheiro não te interessa... a mim, então, muito menos. Bem que aquele Chico Viola tinha razão quando cantava:

Amor! Amor!
Não é para quem quer
De que vale a nota, meu bem,

Sem o puro carinho da mulher?

Rosina: (também cantando)

Quando ela quer!

Os dois: (ainda cantando)

Amor! Amor!
Não é para quem quer
De que vale a nota, meu bem,

Sem o puro carinho da mulher...
Quando ela quer!

Fim do 2º ato.

3º ato

(Pancadas na porta)

Dom Bartolo: O que deseja?

Alma Viva: Eu sou o empresário, me chamo Lindoro e vim dar uma aula de canto a dona Rosina.

Dom Bartolo: Mas o professor de canto de Rosina é dom Basílio.

Alma Viva: Foi dom Basílio que me mandou substituí-lo hoje, porque ele está com coqueluche.

Dom Bartolo: Sim! Agora estou compreendendo. Tenha a bondade de sentar! Ó Rosina! Rosina!

Rosina: Pronto, dom Bartolo! O que deseja?

Dom Bartolo: Dom Basílio não pôde vir hoje e mandou um substituto para te ensinar a lição.

Rosina: Creio que conheço este meu novo professor. Acho que já o vi no Cinema Poeira.

Alma Viva: Ou então n'alguma gafieira... da Praça da Bandeira.

Rosina: Acho que não! Foi no jardim zoológico...

Alma Viva: É quase isso! Não é bem jardim zoológico, mas é negócio de bicho!

Rosina: (rindo) Quá! Quá! Agora sei de onde o conheço!

Alma Viva: Qual foi a sua última lição?

Rosina: Eu estava aprendendo a ária Precaução Inútil.

Alma Viva: Precaução Inútil? O título é muito bonito! Tenha a bondade de cantar essa ária.

Rosina: Eu hoje estou um pouquinho rouca. Por isso, espero que o senhor não repare... (canta Precaução Inútil)

Eu vi num armazém de Niterói
Um velho que se julga herói
E teima em ser conquistador
Lá no Banco do Brasil
Depositou mais de três mil
Botando água no vinho do barril
Seus lábios só se abriram pra falar,
Das velhas contas a cobrar
Dos que morreram sem pagar...
Eram lábios agressores,
Dois grandes cobradores
Dos seus devedores.

Seu cabelo tinha a cor
De burro quando foge
Do amansador
Seus olhos eram circunflexos,
Perplexos e desconexos,
Mãos de usurário
Braços de sicário,
Corpo de macaco, chmipanzé maduro,
Enfim, eu vi nesse velhote
Um imortal Pão Duro.

(Palmas)

Alma Viva e Dom Bartolo: Muito bem! Muito bem!

Alma Viva: A música é boa e a letra é melhor ainda!

Dom Bartolo: Os senhores fiquem à vontade! Tenho que ir atender os meus fregueses no armazém! Com licença!

Alma Viva: Pois não, dom Bartolo. O senhor não se preocupe conosco!

(Barulho de porta que se fecha)

Alma Viva: Até que enfim, minha querida Rosina!

Rosina: É verdade, finalmente estamos sós!

Alma Viva: Fígaro já te avisou que nós vamos fugir hoje à meia-noite!

Rosina: Já! E estou preparada para fugir contigo! Tu já sabes que dom Bartolo incumbiu dom Basílio de trazer aqui um padre?

Alma Viva: Um padre? Para quê?

Rosina: Então não sabes que o bobo desse velho quer se casar comigo hoje?

Alma Viva: Isso é mais outra precaução inútil... (canta novos versos para Precaução Inútil)

Seu cabelo tinha a cor
De burro quando foge
Do amansador
Seus olhos eram circunflexos,
Perplexos e desconexos,
Um bigodão
Na cara indiscreta
Feito bicicleta com o guidon de fora
Enfim, esse velho nunca mais
Se casa com a senhora!

Fim do 3º ato.

4º ato

(Tempestade)

Dom Bartolo: Rosina, tu não deves dar muita importância a esse tal Lindoro, que se intitula empresário e professor de canto!

Rosina: Por que, dom Bartolo? Ele não é um rapaz distinto?

Dom Bartolo: Que distinto, qual nada! Ele é um malandro que pensa que tu és muito rica e, por isso, quer casar com o teu dinheiro!

Rosina: O senhor está enganado!

Dom Bartolo: Tu é que estás enganada, Rosina!

(Batem à porta)

Dom Bartolo: Tenha a bondade de entrar.

Dom Basílio: Boa-noite! Aqui estou eu com o senhor reverendo.

Dom Bartolo: Sejam bem-vindos! Como estão molhados! Pensei que não viessem por causa da chuva! Querem tomar um gole de vinho?

Dom Basílio: Em nome do senhor reverendo... aceitamos a oportuníssima oferta!

Dom Bartolo: Não é bem uma oferta! Vou debitar esses dois cálices na sua conta!

(Gargalhadas)

Rosina: Dom Bartolo, eu ouvi um barulho no armazém e... creio que são ladrões!

Dom Bartolo: Senhores, com licença! Eu vou até o armazém e volto já!

(Batem à porta)

Rosina: Quem é?

Alma Viva: É Fígaro e seu companheiro!

Rosina: Façam o favor de entrar!

Alma Viva: Onde está dom Bartolo, o velho que não tem miolo?

Rosina: Está no armazém, procurando gatunos imaginários!

Fígaro: Por que vocês dois não aproveitam a ocasião?

Alma Viva: Não é propriamente aproveitar a ocasião: é aproveitar o padre, para me casar com Rosina dentro da casa de dom Bartolo! Tu queres casar comigo agora, Rosina?

Rosina: Não quero![sic] Faço questão de me casar contigo agora mesmo!

(Dom Basílio forçado por Alma Viva a escolher entre uma bala de pistola e um anel de brilhantes, opta pelo segundo presente e, ao lado de Fígaro, torna-se padrinho do casamento. Para a imensa infelicidade de dom Bartolo, este ao regressar do armazém encontra consumada a união entre o rival e sua pupila. O enredo chega ao fim quando Fígaro, observando o desânimo de dom Bartolo, filosofa...)

Fígaro: Quando a juventude e o amor estão de acordo para enganar um velho, tudo que este fizer para impedir deve-se chamar "precaução inútil"!

Fim de "O Barbeiro de Niterói"