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QORPO-SANTO EM CARNE E OSSO

Por Telma Scherer*

A primeira grande virtude da montagem de Rico Assoni é a de contar, de uma forma simples e despojada, a história de uma figura que não pode ser esquecida. Trata-se da vida e da obra, estas invariavelmente confundidas, de um homem incomum.

José Joaquim de Campos Leão ou, como ele mesmo se denominou, Qorpo-Santo, criou no século XIX uma escrita ousada, genial, desconsiderada pelos contemporâneos. A sociedade da época não pôde compreendê-lo, julgou o homem louco e desprezou a obra. Suas comédias foram encenadas pela primeira vez um século após a escritura, em 1966. Desde então as 17 comédias têm sido motivo de polêmica entre estudiosos. Houve quem afirmasse ser Qorpo-Santo o precursor mundial do Teatro do Absurdo, houve quem retrucasse com a inauguração do Surrealismo. Só depois dos movimentos de vanguarda do século XX é que se pôde ler Qorpo-Santo e descobrir sua genialidade. Ele não foi apenas dramaturgo, mas compôs uma extensa e variada Ensiqlopédia ou Seis Meses de uma Enfermidade, em 9 volumes. Inventou uma ortografia. Ofereceu conselhos homeopáticos. Foi delegado, professor, tipógrafo. Fundou seu próprio jornal. Seus poemas começaram a ser estudados recentemente.

Talvez a melhor das histórias de Qorpo-Santo, entretanto, seja a sua própria vida. Homem rico, perdeu o direito de gerenciar seus bens. Perdeu o convívio com os filhos e a esposa, que moveu contra ele um processo judicial. Submeteu-se a numerosos exames mentais. Acabou ficando louco.

Agora Qorpo-Santo ganha vida, carne e osso, intensidade e lucidez dentro dos limites de um monólogo bem pensado. Rico não abusa da colagem de trechos e dá ênfase às contradições do autor. A peça é o trabalho de graduação em Artes Cênicas de Assoni, que soube aproveitar os limites impostos pela solidão do ator no palco para pontuar a história contada. A interpretação procura não abusar dos excessos que poderiam vir à tona na abordagem de um personagem louco, ou melhor, esquisofrênico ou, como quis a sua época, "monomaníaco". Observa-se que Rico pesquisou a vida de Qorpo-Santo e soube aproveitar dela os elementos mais atuais. Episódios importantes da vida do escritor estão presentes, desde as suas excentricidades cotidianas até os exames psiquiátricos e a interdição. Sua relação com a sociedade, que chamava (com certa razão) de "rebanho"; o desprezo de seus contemporâneos, a denúncia dos problemas da cidade e do atraso provinciano se fazem ouvir da boca do escritor.

Rico teve de enfrentar vários percalços. Conseguiu atenuar as dificuldades impostas pela escassez de recursos apelando para a simplicidade. Com uma mesa, uma cadeira e uma escada construiu a Porto Alegre do século XIX. Fez o interior da casa de Qorpo-Santo, o teatro, confeitaria Rocco, a rua. Conseguiu mesclar o realismo com toques de absurdo. Evitou excessos. Os jornais dispostos em formas curvas no fundo do palco mostram o Qorpo-Santo tipógrafo. Os trechos do poema Tabacaria, de Fernando Pessoa, recitados em momentos cruciais, aproximam o expectador do sofrimento psíquico de um homem muito lúcido.

Lúcido demais. Essa não é, na verdade, somente a história de Qorpo-Santo, mas a nossa. A das vozes que denunciam, que inquietam, que propõem. E que às vezes precisam ser caladas.

* Doutoranda em Literatura pela UFSC

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