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O QUE A GENTE NÃO FAZ POR AMOR (início do 1º ato)

Por Fabio Gomes

 

ATO I

Cena única

(Casa de Renata e Valdir. A sala domina o cenário. A saída à esquerda é a porta da rua, a saída à direita leva à cozinha. A saída pelo fundo leva ao quarto do casal. Deve haver uma parede dividindo o quarto da sala, com uma porta que fique entreaberta permitindo que se ouça quem estiver no quarto. A sala está cheia de revistas espalhadas, abertas ou fechadas, pelo chão, sofá, mesinha de centro e em cima da televisão, que fica de costas para o público. Renata está sentada no sofá, lendo uma revista, quando a campainha toca.)

RENATA - Ué, será que o Valdir esqueceu a chave? (Olha o relógio) Não, é cedo pra ele chegar. (Larga a revista, levanta-se e vai para a esquerda. Olha pelo olho mágico) Ah, é a Paula! (Abre a porta)

(Paula está usando uma blusa "tomara-que-caia" com manguinhas e leva uma bolsa a tiracolo)

PAULA - Oi, Renata!

RENATA - Paula! Quanto tempo! Entra!

PAULA (entrando) - Tudo bom?

RENATA - Tudo! (Abraçam-se. Trocam beijinhos no rosto) Você não foi trabalhar hoje? Ou foi demitida, que nem eu?

PAULA - Não, pára. Tô de folga hoje porque trabalhei um domingo, mês passado. Aí resolvi passar aqui pra gente conversar. Depois que você saiu da loja a gente quase não se vê!

RENATA - Saí, não. Me saíram! Mas senta, amiga.

PAULA (olha o sofá, cheio de revistas) - Onde?

RENATA - Ai, que vergonha, minha casa tá uma bagunça! Não repara, tá? (ajeita as revistas para fazer lugar para sentar. Paula ajuda.)

PAULA - Imagina, Renata! Lá em casa sempre tem alguma coisa fora do lugar.

RENATA - É, mas você e o Sérgio trabalham fora. Eu não. (Sentam, Paula à esquerda, Renata à direita, mais ou menos no centro do sofá)

PAULA - É, não posso me queixar do Sérgio. Trabalha fora, joga o futebolzinho dele com os amigos, mas sempre que pode me ajuda em casa. Agora que eu saio direto da loja pro curso, nem me preocupo. Quando eu chego em casa, ele tá me esperando com a janta pronta.

RENATA - Que curso você tá fazendo?

PAULA - Ah, não falei, né? É sobre A Nova Mulher. Acho que você ia se interessar.

RENATA (animada) - Falam alguma coisa das novas práticas sexuais?

PAULA - Não lembro bem.

RENATA - Como não lembra? Você tá ou não fazendo esse curso?

PAULA - Tô, Renata. É que até agora ninguém falou nada sobre isso, talvez tenha depois. Eu peguei o programa que deram lá, mas nem li direito. A gente já viu as mudanças sociais que resultaram num novo papel da mulher na família. O próximo assunto é a Nova Mulher no mercado de trabalho.

RENATA - Falando em trabalho, Paula, você pode me fazer um favor?

PAULA - Se estiver ao meu alcance...

RENATA - Tá, sim. Pergunta pro seu Machado se a firma pode me recontratar.

PAULA (apreensiva) - Hum... Não sei, não, Renata. Acho difícil.

RENATA - Por quê? Lembra o que ele falou quando eu fui pra rua? (Levanta-se. Imita voz de homem) "Renata, lamentamos a sua saída. Gostaríamos que a 'família' Calçados Igarapé continuasse unida, mas a crise nos obriga a demitir alguém e infelizmente você foi a escolhida. Não veja nisso nada de pessoal, você não tem porque se sentir diminuída". (Senta-se. Fala normal) Eles não me demitiram como castigo por algum erro, foi só uma necessidade de momento.

PAULA - Não sei se a história é bem essa, hein?

RENATA - Como assim?

PAULA - Se eles despediram você por causa da crise, é bom lembrar que ela só piorou. Depois, se era pra mandar embora qualquer funcionária, por que logo você e não eu ou a Simone? Podem ter feito um sorteio, ou então o seu Machado tinha lá qualquer coisa contra você que preferiu não falar.

RENATA (espantada) - Puxa, Paula, eu pensei que você fosse minha amiga!

PAULA - E sou. Tanto sou que quero que você veja a verdade.

RENATA - O quê? Então ele tem mesmo algo contra mim?

PAULA (um pouco impaciente) - Não é isso.

RENATA - Que que é, então? Fala!

PAULA - Você acha tudo muito fácil, né? Imagina que eu chego no serviço, (levanta-se) vou até a sala do seu Machado (anda um pouco, pára e bate numa porta imaginária), com licença, seu Machado? (Imita homem) "Pois não, entre, Paula. Você já vai pra aula?" (Voz normal, tom humilde) Sabe o que é, seu Machado, a Renata quer voltar a trabalhar aqui e... (Imita homem, fazendo gesto de interromper a fala de outra pessoa) "Nem precisa concluir seu pensamento! Ela pode voltar a qualquer momento!" (Fala normal) Foi isso que você pensou, né? (Senta)

RENATA - Claro!

PAULA - Isso não existe! Pelo jeito você esqueceu que é impossível uma funcionária falar com o seu Machado. Ele parece bonzinho, mas não é. A gente pode pedir, implorar, se humilhar, ajoelhar, deitar no chão pra ele pisar em cima que o cara não recebe. Funcionária só entra na sala dele quando começa na loja e quando é demitida, e assim mesmo só pra assinar os papéis. (Pausa. Olha Renata) E além disso... (Interrompe-se)

RENATA - Além disso o quê, Paula?

PAULA - Nada, deixa pra lá.

RENATA - Não, agora fala. Começou, termina.

PAULA - Nada não, bobagem minha.

RENATA - Eu quero saber. Diz!

PAULA - Bom, você que pediu. Eu sei que você não pensa nisso, mas...

RENATA - Mas o quê?

PAULA (à parte) - Ah, meu Deus do céu! (Para Renata) Você saiu porque tinha uma funcionária a mais, né? Depois disso não entrou nem saiu mais ninguém. Pra você voltar, alguém precisaria ir pro olho da rua. E se me escolherem? (Desesperada) Eu preciso desse emprego!

RENATA - Paula! Credo, como você é egoísta! Eu aqui pedindo um simples favor, e você só pensando no seu emprego!

PAULA - Egoísta nada! Tô mostrando a você a realidade!

RENATA - Ih, verdade, realidade... Que que é? Acha que eu tô no mundo da lua?

PAULA - Deve andar bem perto!

(...)

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