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MINHA PRÓPRIA FILHA (início do 1º ato)

Por Fabio Gomes

 

ATO I

Cena única

(Bar. Na mesa em primeiro plano, Arnaldo, Mendonça e Esponja. Nas outras mesas, figurantes. O garçom circula pelo ambiente, atendendo chamados dos figurantes e do grupo principal.)

ARNALDO - Pessoal, hoje a bebida é por minha conta!

MENDONÇA - Ué, acertou na loteria, Arnaldo?

ESPONJA - Pro Arnaldo estar com dinheiro, só ganhando em sorteio, mesmo.

ARNALDO - Nada disso, nada disso. Quero que vocês comemorem, ou melhor, bebemorem a minha libertação.

ESPONJA - Se você foi libertado, é porque devia estar preso. E se tava preso, como é que vinha toda noite beber com a gente?

ARNALDO - Que preso o quê, Esponja! Me libertei foi da Antuérpia, tá?

MENDONÇA - O que você foi fazer na Bélgica?

ESPONJA - Pô, Mendonça, o Arnaldo viaja e nem manda um cartão-postal pros amigos.

ARNALDO - Quem ouve até pensa que vocês não foram no meu casamento. Antuérpia é o nome da minha mulher, aliás ex-mulher.

ESPONJA - Quer dizer, ex-sua, porque mulher ela deve continuar sendo. Espero.

ARNALDO - Exato, ex-minha.

MENDONÇA (dando-se conta, enfim, do assunto) - Arnaldo, você se separou? (frisa bem o "separou")

ARNALDO - Separei! Garçom, mais uma rodada. Por minha conta!

GARÇOM - Já falei pro patrão comprar mais cabides, seu Arnaldo.

ARNALDO - Cabides pra quê, num boteco?

GARÇOM - Pra pendurar essas rodadas por sua conta. Sem ofensa, viu, mas tem despesa sua aqui que não é mole.

ARNALDO - Eu sei, garçom, pode dizer pra ele que é só uma fase que eu tô passando. Em seguida, tudo se ajeita.

GARÇOM - Fase, seu Arnaldo? Fase? Antes eu vi, tem uma conta sua que faz um ano hoje.

ESPONJA (canta) - "Parabéns pra você, nesta data querida..."

ESPONJA E MENDONÇA (cantam) - "...muitas felicidades, muitos anos de vida!"

(Garçom afasta-se.)

MENDONÇA - Mas, Arnaldo, por que isso assim, de repente?

ESPONJA - De repente não, Mendonça. Se a conta fez aniversário não pode ser de repente.

MENDONÇA - Eu perguntei foi sobre a separação. Você e a Antióquia pareciam um casal que se amava tanto...

ARNALDO - Antióquia, não! An-tu-ér-pia! Olha, eu nunca comentei com vocês porque acho que quem tem que resolver problema de casal é o casal. Só que a implicância da Tutu...

ESPONJA - Que Tutu?

ARNALDO - Ô falta de memória! Tutu é como eu tratava a Antuérpia no dia-a-dia, né? Não dava pra ficar dizendo toda hora: "Antuérpia, o almoço vai demorar?", "Vamos pegar um cineminha hoje, Antuérpia?" ou "Antuérpia, sua mãe telefonou".

(Garçom volta e serve bebida.)

GARÇOM - Seu Arnaldo, o patrão falou que esta é a última vez, hein?

ARNALDO (chateado) - Tá bom, tá bom.

GARÇOM - Ele disse também que amanhã o senhor só entra aqui se pagar tudo o que deve. (Afasta-se.)

ARNALDO - Ah, que saco! Toda hora esse garçom dando indiretas sobre a minha conta.

ESPONJA - Indiretas, não. Superdiretas.

ARNALDO - Aliás, eu não vou aceitar isso de conta de um ano atrás, não. Pago, mas antes quero ver tudo bem certinho no papel. Preto no branco.

MENDONÇA - Ah, deixa isso pra lá, ô Arnaldo. Eu quero é saber mais sobre a separação. Você, pelo que entendi, saiu de casa, não foi?

ARNALDO - Foi. Agora tô numa pensão no Centro.

ESPONJA - Numa pensão?

ARNALDO - Pensão, sim. Por quê? Um lugar tão bom como qualquer outro.

ESPONJA - Não, não, por nada. É que normalmente, quando a gente entra numa pensão, já cobram um mês adiantado, e você...

ARNALDO - Ô Esponja, tá me estranhando? O malandro aqui nunca se aperta! Empenhei um relógio e paguei o mês.

MENDONÇA - Bom, agora o problema aumentou. Além da pensão, você ainda vai ter que se virar para resgatar o relógio.

ESPONJA - Peraí. Só com o penhor de um relógio você conseguiu cobrir um mês? Acho que não dá não, hein?

ARNALDO - Ih, qualé? Vocês viraram meus ministros da Fazenda? Eu falei com a dona lá, ela aceitou que eu desse só uma parte adiantado. O resto eu cubro ainda antes do mês acabar, pô. Eu sempre me livrei dos apertos numa boa. Mas que que vou fazer, se tô passando uma fase ruim?

ESPONJA (cochicha para Mendonça) - Quando é que o Arnaldo esteve numa fase boa?

MENDONÇA (cochicha) - Não sei, acho que só na barriga da mãe.

(Os dois riem.)

ARNALDO - Quem cochicha o rabo espicha.

MENDONÇA E ESPONJA - Quem se importa o rabo entorta.

(Som de avião aterrissando - forte. Entra Cidinha. Veste roupa da moda, em tons claros. Indispensável usar vestido curto ou minissaia. Maquiagem discreta. Sandália transparente. Cidinha entra e fica perto da porta, olhando à procura de alguém. Arnaldo, de costas para a porta, não a vê. Mendonça e Esponja, que a vêem, param de falar e de beber assim que ela entra.)

ARNALDO - Ei, o que deu em vocês?

ESPONJA (baixo) - Psiu! Fala baixo. Um avião acabou de pousar aqui no bar.

MENDONÇA - Tremenda gata!

(Cidinha identifica o grupo principal e caminha até sua mesa. Pára próxima à cadeira de Arnaldo, ainda de costas para ela. Mendonça e Esponja demonstram nervosismo, enquanto Arnaldo permanece alheio ao que se passa.)

CIDINHA - Posso sentar com vocês?

(...)

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