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O QUE FOI O PROJETO DE PESQUISA
A PRÉ-HISTÓRIA DO SAMBA

 


 

Discute-se há muito tempo se o samba veio da África, ou é baiano ou ainda carioca. Embora exista um certo consenso em que "Pelo Telefone" (1916), de Donga e Mauro de Almeida, seria o primeiro samba gravado, conhecem-se diversas gravações de sambas realizadas a partir de 1908 no Rio de Janeiro e em Porto Alegre. O samba também já freqüentava as salas de concerto; veja ao lado a capa da partitura da redução para piano de "Samba", 4º movimento da "Suíte Brasileira" (1890) de Alexandre Levy (1864-92); o desenho, assinado por Barros, é datado de setembro de 1907.

Em 2002, Bernardo Alves (1954-2004) publicou o livro A Pré-História do Samba, resultado de 20 anos de pesquisa em mídias tão diversas como livros, partituras, notícias de jornal e gravações. Bernardo estabeleceu a origem do samba entre os antigos índios Kiriri do Nordeste brasileiro (embora o relato de viajante mais antigo citado seja de 1587, é bastante possível que a festa do samba já existisse entre os Kiriri antes mesmo da chegada dos portugueses em 1500). Leia aqui um resumo da obra.

Em fevereiro de 2004, Bernardo Alves entrou em contato comigo, colocando-me a par de suas pesquisas. A solidez de seus argumentos me convenceu do acerto de suas conclusões. Bernardo iniciou uma colaboração com o site Brasileirinho, enviando-nos seu texto Samba de Matuto; mas seu falecimento, em agosto, impediu que colocássemos em prática a idéia de trabalharmos juntos na ampliação da pesquisa.

Desde então, venho divulgando o trabalho de Bernardo, tanto no site Brasileirinho quanto em meu curso Panorama Histórico da Música Brasileira. Por meu intermédio, o hoje Mestre em Música Remo Tarazona Pellegrini pôde conhecer a obra de Bernardo e citar sua pesquisa como uma das versões para a origem do samba em sua dissertação Análise dos acompanhamentos de Dino Sete Cordas em samba e choro.

Em função disso, fui convidado no final de 2006 pelo então Ministro da Cultura, Gilberto Gil, para trabalhar na continuidade da pesquisa. Gil conheceu a obra de Bernardo em 2004, passando a compartilhar também da idéia da origem brasileira do samba, como declarou em seu depoimento no filme Samba Riachão e em seu texto O Forró. A pesquisa de Bernardo inspirou a candidatura do reconhecimento junto à Unesco do Samba-de-Roda do Recôncavo Baiano como Obra-Prima do Patrimônio Oral Imaterial da Humanidade; a proclamação deste reconhecimento ocorreu em 25 de novembro de 2005.

Posteriormente, verificou-se no MinC que o órgão não poderia tomar a iniciativa de proceder a uma pesquisa tão ampla, devido aos desdobramentos musicais, etnográficos, históricos, linguísticos, antropológicos e outros envolvidos na apuração da real influência indígena na formação do samba atual.

Ao menos o convite que recebi permitiu que, pela primeira vez, a contribuição indígena na origem do samba tenha figurado ao lado das hipóteses comumente aceitas. Isto aconteceu em dois seminários realizados em 2007 na Bahia, sobre a história do samba: o primeiro em setembro, durante a inauguração da Casa do Samba em Santo Amaro (BA), o segundo, em novembro, no ciclo de debates em Salvador que antecedeu a semana do Dia do Samba.

(Fabio Gomes)

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